segunda-feira, 2 de abril de 2007

O PATOÁ TRANSMONTANO

O Nelson vai contando e muito bem, as suas e nossas memórias de Aldeia Nova e eu vou tentar recordar alguns factos mais pessoais, mas não menos verídicos. Já vos expliquei a minha despedida do Franco e a chegada a Aldeia Nova. A primeira semana que passei no seminário foi um pesadelo noturno e diurno. A tragédia da separação, o consaço da viagem a perda de referências. A sensação de me encontrar em terra estrangeira. Tudo isto fez de mim, durante alguns dias, um verdadeiro autómato. Tinha a nítida impressão de estar a perder pé e ninguém me tinha ensinado a nadar. A um certo momento os dois Camilos Vaz Martins, vendo-me tão atemorizado, fizeram-me saber, como a vós todos, que eu era protegido deles e que ninguém me punha dedo. Foi remédio santo. A partir desse momento comecei a existir!...Isso não impediu que durante muito tempo tivesse um grave problema com a lingua portuguesa. O professor de português, Padre António (Tomate) redicularizou-me na frente de todos, lendo em público a minha primeira redacção que qualificou de charrabiá. Ele devia ser doutorado em pedagogia... Recordo-me que nessa redacção dizia, entre outras asneiras, que tinha ido a Mirandela de carreira. Que havia muitos e grandes negrilhos de cada lado da estrada. Que tinhamos levado uma boa merenda: folar, rijões, alheiras e uns cibos de linguiça. Terminava dizendo, purí volto à feira de Mirandela nas próximas férias. -Não compreendo nada deste patoá disse-me o padre António. Expliquei-lhe, (muito surpreendido por saber mais que o professor) que a carreira era um caminhão fechado e com assentos, que os negrilhos eram árvores que davam folha para os porcos, (de certeza que disse recos) que folar era um pão que se comia na Páscoa, rijão era uma certa carne de porco rijada, alheira uma chouriça feita com trigo carne de porco e às vezes galinha. Purí queria dizer que não era de certeza.
Nada disso, afirmou ele todo vermelho. Ir de carreira quer dizer ir a correr. Negrilhos são negros pequenos. Folar é um lenço em françês.Trigo é um cereal de que se faz pão. Rijões pela explicação que dás, devem ser torresmos e alheiras devem ser farinheiras (agora as alheiras de Mirandela são conhecidas por todo o lado, mesmo em França) Cibos e purís, isso não está no dicionário. Felizmente que a malta não troçava muito. Todos sabiam que na próxima podia-lhes calhar a eles. Havia também os outros Trasmontanos, principalmente o Manuel Alberto Rodrigues e o Francolino José Gonçalves que nesse momento não estavam mais avançados do que eu. Veio depois em meu auxílio o meu conterraneo Camilo, que me fez a lista das palavras que só existiam na nossa terra e que não deviamos utilizar em Aldeia Nova. Mas faz cuidado, recomendou-me, não as esqueças senão durante as férias vão gozar contigo, dizendo que já não conheces o engaço, o ancinho...O charréu, pelos vistos ficou na memória! Atenção, Nelson, não era xarréu com x de xá à Lisboeta. É com ch, pronunciado com a boca toda, como ‘ciao’. Um charréu é, no Franco, uma espécie de pardal. Que até faz ao cantar o mesmo barulho que fazia a bola de ping-pong. Como vez já conhecia as onomatopeias!
Devido a estas e outras, no primeiro e segundo anos nunca passei de oito ou nove em português. Felizmente que sempre fui bom em matemática...Por sorte minha, o padre Chico esteve ausente durante um ano ou dois. Foi trabalhar (pelo que disseram na época) como redactor de um jornal, fundado e dirigido pelo seu amigo cónego... Lacerda? Tive o frei Bernardo Domingues, (irmão do Bento) como professor de português. Este até me dava boas notas. Achou que eu lia bem no refeitório e que até escrevia bem...surpresa! É verdade que o Pinho (António Batista de Pinho) me tinha dado algumas explicações, e mesmo feito algumas redacções. Obrigado Pinho. O Pinho, com o Francolino eram para mim inteligências raras, duma grande simplicidade, modelos de constância no trabalho, e de fidelidade em amizade, tanto em Aldeia Nova como em Fátima. Recordais-vos do concurso que o Pe Alberto, o sardento (que Deus lhe dê o eterno descanso) organizou entre as diferentes comunidades que vinham às nossas aulas?! Foi o Pinho quem ganhou com um trabalho em que pôs em cena a Vontade e a Inteligência. Chegou à conclusão que a vontade era cega e a inteligência manca e que uma sem a outra não podiam ir longe. Achei a imagem formidável! Gostaria imenso de ter notícias tuas amigo Pinho, temos mais para recordar.
O Francolino tive o grande prazer de encontrá-lo na Escola Bíblica de Jerusalém há alguns anos. Com um grupo de diáconos e esposas, fiz uma peregrinação à Terra Santa. Tínhamos como guia um grande teólogo e exegeta françês. Perguntei a este nosso acompanhador se podia dispor de uma ou duas horas para visitar um amigo professor na Escola Biblica. –Como se chama? Achei a pergunta estranha e respondi: Francolino. Francolino Gonçalves?! Perguntou ele assentuando bem as últimas sílabas. Não é só professor, mas sub-Director e todos o reconhecem como o maior especialista mundial do Profeta Isaías. Continuou a tecer elogios sobre o meu amigo Francolino para terminar dizendo: passei seis meses em Jerusalém a seguir os seus cursos e considero-o como um grande Mestre! Fiquei orgulhoso como se aqueles elogios caíssem sobre mim. O Francolino, que fui visitar com minha mulher, serviu-nos de guia na Escola Biblica, aceitou jantar conosco, como se seu tempo não fosse precioso. Escondeu bem todos os seus canudos e especializações. Encontrei o meu amigo trasmontano, simples, acolhedor e disponível...Os que são verdadeiramente grandes, não precisam de salvar as aparências. Eles não parecem, são!
Voltemos alguns decénios atrás, ao ano em que me tinha habituado a trezes e quatorzes em redacção. O frei Bernardo foi chamado a outras tarefas. Ó surpresa, ó desastre, eis que volta de novo o Tomate, cada vez mais vermelho. Pelos vistos não tinha esquecido os meus oitos e noves, que recomeçou a ministrar-me. Á terceira nota negativa entrei-lhe pela porta dentro e disse-lhe, baixando a cabeça, para o mirar bem nos olhos: as minhas redacções hoje não valem oito, mas pelo menos doze pontos. Faça favor de esquecer o Fernando do passado e ler com atenção as minhas redacções de hoje. A partir desse dia nunca tive menos de doze. Porquê?! É verdade que ele era um pernas curtas e eu já era matulão...(podeis rir). Por falar em redacções e escrever, tenho ainda que confessar, amigo Nelson, que nunca escrevi no ‘Facho’, como tu já pretendeste convencer-me. Depois de ter reflectido recordo-me que saiu um artigo com a minha assinatura, mas foi o Marcos quem o escreveu... Obrigado Marcos!
Se me autorizardes ainda continuarei com estas incursões pelo nosso passado dentro!...
Fernando Vaz

3 comentários:

Anónimo disse...

O Tomate era de facto muito convencido! Gostava especialmente de exibir nas aulas a sua condição de jornalista, muito dado a sustentar polémicas no jornal "O Mensageiro", do tal amigo cónego Lacerda. Curiosamente, também soube da morte dele pela revista Visão, que o referenciava como director do citado jornal, que ainda hoje se publica em Milagres -Leiria.
Fernando: longe de mim a veleidade em convencer-te que escreveste no 'Facho'!... Mas lá que saíu um texto com o teu nome, isso saíu! O verdadeiro autor, eu desconhecia.
Sabes que mais, continua a recordar e a partilhar connosco as tuas memórias. Eu farei o mesmo. Como diz o nosso amigo J. Celestino, estamos a voltar aos dias de ontem!...

Anónimo disse...

Para memória futura:

O grupo de 1964/69 teve, nos 3.º, 4.º e 5.º anos, um professor de história e português que corresponde exactamente ao que o Fernado descreve.

Continuava a ser muito provocador nas aulas de portugês (que o diga o Diamantino no "...se não levas dois tantãs e vais para a rua...".

Nesta altura já era um homem maduro. Era um professor normal em português, mas, em história era muito bom.

Quem lá esteve pode lembrar que gestos ele fazia enquanto dizia "...estou convencido que a guerra do Vietname existe apenas por razões económicas...".

A história dele era viva, desde o quotidiano até às instituições.

Além disso, era descrita de forma alegre. Ele, que era um pároco de aldeia, parecia um leigo a dar aulas.
Certamente já morreu. Pelo que me dizem, morreu mesmo.

Presto-lhe aqui a minha homenagem, convencido de que o faço em nome de um grupo de 18/20 alunos entrados em 1964 e saídos em 1969.

Senhor B disse...

Descobri hoje este blog e estou já há algumas horas a lê-lo sem poder parar. Sou brasileiro, nascido no extremo sul e radicado na ilha "açoriana" de Florianópolis, mal chegado aos 30 anos, portanto, um tanto alheio a algumas referências culturais às quais os senhores fazem aqui menção, mas devo dizer que são histórias muito prazerosas e, pese serem memórias da vida real, dignas das melhores ficções que tenho lido.

Sigam escrevendo!

Um abraço.