quinta-feira, 28 de julho de 2016

MAIS UM DOS NOSSOS QUE PARTIU

MORREU O ANTÓNIO ALVES LINES

A notícia chegou-me há poucos minutos, mas o Lines já terá partido em Abril. Confesso que tinha estranhado o seu silêncio, já que ele me contactava com frequência e preocupava-se em saber de todos aqueles que tinham sido seus companheiros em Aldeia Nova. Era natural de Vilar Formoso e foi meu companheiro nas longas viagens até Caxarias, com o Fr. Pedro, Baltazar e todos os que partíamos da Beira Alta. Foi o Eduardo Bento que me comunicou, já que também ele estranhou a sua falta de notícias. Ele que nunca quis ter carro nem carta de condução, elegeu o Eduardo como seu motorista, pois morava no Sardoal.
Que descanse em Paz.

terça-feira, 26 de julho de 2016

COMENTÁRIOS

Prezados Amigos:

Alguns visitadores do blog têm-me contactado, dando conta das dificuldades em comentar os textos publicados. Cabe-me esclarecer o seguinte:
-Os comentários devem ser publicados directamente por quem os faz. Nenhum comentário tem que passar pela minha aprovação prévia, pois não tenho lápis azul e, como jornalista livre e liberto, abomino a censura.
Assim, quem quiser comentar deverá escrever o seu comentário e atentar nas opções que se lhe deparam para o publicar. Aparecerá:
-Conta google (quem abrir conta google, terá mais facilidade)
-Enviar comentário para... (desprezem)
-Openld (desprezem)
-Nome URL
-Anónimo.
Se não tiverem conta google, a melhor opção será publicar como "anónimo", identificando-se no comentário, como convém. Depois é só confirmar a questão que é apresentada (não sou um robot) e clicar em publicar.
Aguardo muitos comentários e deixo um abraço.
Nelson Veiga

domingo, 24 de julho de 2016

OS DOMINICANOS EM ANGOLA


                            Frei Bento Domingues, O.P. in Jornal "Público"

1. No Domingo passado, não tive condições para mandar, de Angola, a minha crónica para o Público. A pedido do meu Provincial, vim a Luanda participar num conjunto de iniciativas de estudo organizadas pelos dominicanos angolanos. A perspectiva que me orienta, na realização do programa desenhado, é esta: outro mundo, outra Igreja e outra vida dominicana são possíveis. É uma questão de fidelidade à mensagem cristã. Jesus Cristo cresceu e foi educado nas tradições da religião de Israel. Quando hoje se fala de inculturação do Evangelho, algumas práticas pastorais julgam que se trata de adaptar o Evangelho a uma cultura. Se assim fosse, Jesus Cristo não tinha nada que fazer, pois já estava moldado pela sua herança judaica, cultural e religiosa. O que pode ser observado, tanto nos escritos de Paulo como nas narrativas dos Evangelhos, é que Jesus de Nazaré não se apresentou para perpetuar os costumes do seu tempo. Teve de discernir o que havia de mais vital na herança recebida e o que havia de opressor na religião mais recomendada, sob a invocação de Moisés: disseram-vos, mas Eu digo-vos!
Continuamos com certas orações que podem sugerir a consagração do conservadorismo: assim como era no princípio agora e sempre pelos séculos dos séculos, Ámen. Ora, no principio era a criatividade. A fé cristã está ligada a um Deus que não passou à reforma, mas que é criação contínua, suscitando criadores, não repetidores. Rezamos para que «pelos séculos dos séculos» não se extinga a criatividade dos que desejam ser fiéis ao Evangelho.
2. Não posso dizer que conheço Angola, embora noutros tempos tivesse trabalhado em várias províncias. Conhecer um «povo de povos» é um caminho sem fim. Eu só conheci Angola em guerra civil, nem antes nem depois. Seria estúpido fazer considerações e comparações entre um breve passado e a realidade actual. Não tenho vocação de repórter. Não sou sociólogo nem economista para epilogar acerca da nova Luanda, tão diferente daquela que conheci e que também não era um paraíso. Tenho a impressão que não foram os arquitectos paisagistas os mais consultados para desenhar a renovação desta cidade que já conta com 7 milhões de habitantes numa população nacional de 25 milhões. Duvido que sejam especialistas em sistemas de transportes que obrigam as pessoas a gastar mais tempo e energias a chegar aos seus empregos e a regressar a casa do que propriamente no trabalho. Não seria possível e mais eficaz cruzar a cidade de comboios e/ou de linhas de metro do que reduzir tudo a táxis e a transportes particulares? Parece que uma economia baseada sobretudo no preço do petróleo chegou a uma situação insustentável. Sobem os preços e baixa o poder de compra. A população mais carenciada é sempre a que mais sofre.
De um Estado marxista à privatização do Estado, o salto foi muito grande e a defesa dos direitos humanos pouco acautelada. Do ponto de vista humano e cristão, quando um Estado se coloca ao serviço de interesses privados, o bem comum é necessariamente sacrificado. Desse modo, não haverá interesse em ampliar e melhorar o ensino público, a todos os níveis, nem criar e desenvolver um Serviço Nacional de Saúde eficaz.
Quem desejar documentar-se e analisar estas questões, a nível local e nacional, poderá dirigir-se ao Mosaiko, Instituto para a Cidadania, fundado e assumido pelos Dominicanos em Angola, desde 1997. É um instituto angolano sem fins lucrativos, tendo sido a primeira instituição deste país a assumir explicitamente como missão: promover os Direitos Humanos em Angola[1].
3. Ao visitar os espaços da Paróquia do Carmo, entregue aos dominicanos, e onde vivi um ano como professor do Seminário de Luanda, fiquei comovido com a exposição das fotografias de frei João Domingos, frei José João e frei Luís de França que desapareceram do nosso convívio. São pessoas que fizeram suas as dificuldades de um povo vítima de guerras loucas e que não se resignaram a uma paz que recusa o abraço da justiça e a defesa dos direitos mais elementares. Os dominicanos angolanos são hoje a garantia de que a paixão evangelizadora de São Domingos e desses irmãos vão descobrindo e praticando caminhos de transformação da sociedade e da Igreja.
Tudo começou com frei João Domingos, frei Gil Filipe e frei José Nunes em 1982. Foi a mão generosa de D. Zacarias Kamwenho que os levou para Waku-Kungo (Diocese do Sumbe). Era então uma frente de guerra entre o MPLA e a UNITA.
Este bispo, mais tarde arcebispo do Lubango e prémio Sakharov, estava a realizar um grande plano de evangelização inculturada na sua diocese, servindo-se do modelo tradicional Ondjango[2] e pediu a colaboração destes missionários.
Reconhecendo o trabalho exemplar realizado em Waku-Kungo, os dominicanos foram convocados para uma presença mais alargada e diversificada em Angola da qual será preciso falar noutra crónica.
Luanda, 24.07.2016



[1] www.mosaiko.op.org
[2] Foi o tema da tese de doutoramento de frei José Nunes. Pequenas Comunidades Cristãs – O Ondjango e a Inculturação da fé em África-Angola. UCP,1991.      

segunda-feira, 18 de julho de 2016

ENCONTRO ANUAL 2016

ENCONTRO ANUAL DE 2016 - Antigos Alunos Dominicanos


Caros Companheiros:

A População de Aldeia Nova está a organizar, este ano, uma Festa de Homenagem ao Frei Alberto Carvalho e a outros Dominicanos ilustres pelo testemunho e trabalho desenvolvido por terras de “Aldeia Nova”, Olival e comunidades vizinhas.

Estamos em contacto para agregar o nosso Encontro Anual e essa Homenagem, estando já acordado para esse fim o dia 8 de Outubro.

Marquem já esse dia nas vossas agendas!

Estamos na fase de acerto de pormenores.

Pensamos que, dentro de dias, já vos poderemos dirigir informações mais concretas!

Até lá, um fraternal abraço.

A Comissão,

Amândio Carvalhais 919195068,
Joaquim Carvalhais 917342686,
Manuel Evangelista Pinho 969737361

segunda-feira, 11 de julho de 2016

FREI BENTO DOMINGUES IN JORNAL PÚBLICO

AS TRAPALHADAS DO CRISMA       
     Frei Bento Domingues, O.P.

1. Rui Osório, jornalista e pároco da Foz do Douro, na sua pertinente coluna na Voz Portucalense (2016.06.29) revela preocupações que não são exclusivas: “Se a minha confidência de pastor vos parecer pessimista, peço-vos desculpa, mas deixem-me desabafar: a prática do Crisma é uma das experiências pastorais mais frustrantes que tenho encontrado.
“Em tempos primitivos, os catecúmenos, depois de um longo crescimento na fé, entravam na piscina e eram lavados; saíam e eram perfumados com óleo do crisma; e acediam à mesa eucarística para serem alimentados.
“Hoje, não é tanto assim e andamos, na longa e agitada onda da cristandade sociológica, a surfar um pouco aturdidos entre o cansativo cristianismo de tradição e o sedutor cristianismo de opção.
“Pastoralmente, parece-me que, em vez da iniciação à fé cristã, o Crisma está em risco de se tornar no sacramento que marca o fim de uma certa educação e de pertença cristã construídas na areia.
“Já lhe chamaram a «festa do adeus»! Os cristãos encontram-se no cais em despedida para outras andanças que não acertam no norte do cristianismo!
“Tenho boas razões para confirmar a «festa do adeus» de tantos a quem acompanhei na preparação para o Crisma, sobretudo jovens que completaram com assiduidade os seus dez anos de catequese e se despediram da Igreja ou a Igreja não lhes deu um novo porto de abrigo.
“Será o recém-ungido que abandona a Igreja ou a Igreja que já não tem mais nada a dizer-lhe?”
Talvez haja quem diga que uma citação tão longa é um abuso. Se abuso existe, é também um agradecimento a Rui Osório que tocou, como pastor e de forma exemplar, numa questão que outros, para não criar ondas, vão disfarçando o incómodo e atamancando soluções que o não são. Diria que preferem tornar o Crisma no grande sacramento da debandada.
Em certos casos, há dificuldade em aceitar para padrinhos de Baptismo e Matrimónio aqueles que são apresentados pelos pais ou pelos noivos. A escolha, por vezes, tem pouco a ver com o acompanhamento que os padrinhos devem dar aos seus afilhados. Em vez de se aproveitar a ocasião para refazer o caminho da fé cristã, opta-se pela via administrativa. Em alguns lugares, até se acabou com os padrinhos. Bastam testemunhas. Para não haver problemas desses no futuro, procura-se apressar a idade para o sacramento incómodo.
2. Deixamos de viver em regime de cristandade. A vida das comunidades cristãs já não é regulada pelo campanário nem pelo toque das Trindades.
Vale a pergunta: a orientação para receber o sacramento da responsabilidade eclesial e social da Fé cristã não deveria ter em conta a idade que, numa determinada cultura, se exige para assumir as exigências da vida adulta, social e familiar? Não se trata apenas de uma questão de idade, mas de um modo de entender o crescimento da responsabilidade de ser cristão, pois chegou a altura de ajudar os outros a crescer, a serem adultos na Fé.
É evidente que isto implica acabar com o hábito criado de julgar que a religião é para crianças e para o começo da adolescência. Essa mentalidade esquece o tempo das turbulências do crescimento humano. É esse tempo que deve ser evangelizado como preparação para enfrentar a novidade que é a de ser responsável pelo seu futuro e o dos outros, a nível familiar e profissional. Tempo de enfrentar o futuro da Igreja ao serviço da evangelização do mundo. Será também a melhor forma de combater o clericalismo tão denunciado pelo Papa Francisco. Não poderão aceitar ser apenas clientela de uma paróquia ou de um movimento. São chamados, por exigência sacramental, a descobrir os novos caminhos do Evangelho nos sinais dos tempos, que eles próprios devem marcar.
3. O que está em causa é a teologia dos sacramentos: antropologia sacramental ou sacramentologia antropogénica?, como pergunta Domingo Salado[1]. As normas litúrgicas e canónicas não bastam para uma pastoral lúcida da evolução da vida cristã no devir da existência humana, pessoal e social.
Faz-se o rito, está feito. Faz-se a cerimónia do Baptismo e está baptizado. Faz-se o Crisma e está crismado. Faz a primeira Comunhão, pode comungar, etc.. É o predomínio da causalidade mágica, do entendimento mecânico do célebre adágio ex opere operato[2].
O próprio Tomás de Aquino realizou, no interior da sua teologia, uma revolução muito esquecida. Passou do primado da causalidade ritual para o primado do signo. Os sacramentos inscrevem-se, antes de mais, no vasto mundo da linguagem simbólica e do regime cristão da incarnação, do Verbo na fragilidade humana. É propriedade dos sacramentos cristãos causarem aquilo que significam, no interior do percurso da Fé pessoal e eclesial.
Sem inscrever a pastoral dos sacramentos no âmbito de uma teologia marcada pelas ciências humanas, não há caminho para as trapalhadas que não são apenas as do Crisma. Teremos de regressar a estas questões.

10.07.2016





[1] Antropología sacramental o sacramentología antropogénica? De la lingüística a la hermenéutica sacramental, Ciencia Tomísta, tomo 129, 418, 2002, pp 239-288.
[2] Fez-se, está feito.

domingo, 3 de julho de 2016

FR. BENTO DOMINGUES IN JORNAL PÚBLICO

GOSTAR DE SOFRER: MÍSTICA OU DOENÇA
                        Frei Bento Domingues, O.P.
1. Só acreditas em Deus porque te dá jeito. Recebo muito bem esta velha censura de amigos agnósticos e ateus. Só me faltava acreditar porque via nisso uma desgraça.
O que torna a ideia de Deus inacreditável ou inaceitável para muitas pessoas, já foi expressa de mil maneiras. Em alguns meios, a mais corrente é esta: Deus não pode ser simultaneamente omnisciente, omnipotente e bom. Diante do sofrimento do mundo não sabe, não pode, ou não é tão infinitamente bom como se diz. Há outras razões mais sofisticadas de ateísmo. Não pretendo refutar nenhuma. Haverá sempre razões para dizer sim e razões para dizer não. Quando perguntaram a Einstein se acreditava em Deus, respondeu: primeiro gostaria de saber em que Deus está a pensar ao fazer essa pergunta.
Conheço confissões de fé em Deus que, para mim, são tão perversas que gostaria que não existissem. A Divindade foi e é invocada para fazer guerras e extermínio de populações. Na própria Bíblia há passagens, Livros e Salmos, absolutamente insuportáveis, mas não aconselharia a sua eliminação. Ao dizerem o que não se deveria nunca dizer de nenhum deus, revelam aquilo de que somos capazes: de colocar na boca de Deus os nossos interesses, mesquinhos ou detestáveis.
Por outro lado, quando, perante uma desgraça, natural ou provocada, se diz que é a vontade de Deus, sei que não acredito nessa peça do determinismo. Espero que Deus não tenha tão má vontade.
2. Gostar de sofrer, seja por que motivo for, não me parece uma virtude, mas uma doença. A glorificação do sofrimento tornou-se a marca de certo cristianismo que julga encontrar na cruz de Cristo a sua justificação. A espiritualidade dolorista não tem nada a ver com o Espírito do Evangelho. Não consta que Jesus gostasse de sofrer e muito menos de ser crucificado. Pelo contrário, gostava da vida e apenas queria que ela fosse abundante para todos. Sentou-se à mesa de santos e pecadores sem nunca exaltar o jejum. Por alguma razão, os seus adversários o acusaram de glutão e beberrão[1].  
Ao fazer uma cruz na fronte de quem pede o Baptismo, já tenho ouvido esta observação: porque marcam a criança ou o adulto com o sinal da suprema crueldade? Sinto sempre necessidade de esclarecer: Jesus Cristo nunca desejou a cruz. A sua proposta era e é um caminho de alegria, o Evangelho da libertação. Foi assim que se apresentou na sua própria terra natal[2]. Se gostasse de ver as pessoas a sofrer, não se teria comovido com a doença, física e psíquica, com a morte. Não teria exaltado a ética samaritana e denunciado a situação dos oprimidos. A cruz foi-lhe imposta pelos donos da dominação religiosa e política. Preferiu ser crucificado a renegar o seu projecto de libertação divina e humana.
3. Quando me dizem que acredito em Deus porque isso me dá jeito, tenho de dizer que sim. Jesus Cristo não trouxe uma explicação de Deus, do ser humano, do sofrimento ou da morte, mas não se rendeu ao fatalismo. Nada tem de ser sempre assim, pelos séculos dos séculos. Sem ver o resultado final da sua intervenção, Jesus anunciou uma lógica muito original: quem perde, ganha e quem ganha, perde. Gastar a vida a dar alegria aos que precisam, mesmo que seja de um copo de água, é tocar o Reino dos Céus, transformando as relações humanas no que têm de mais exaltantes ou de mais banal.
Os avanços científicos e técnicos não são promessas de vida eterna. Que Deus os abençoe pela vida, pelo alívio e pela esperança que trazem à nossa viagem. Ajudam-nos a vencer a falsa mística do sofrimento.
Escrevo este texto depois do funeral do Frei Luís França. Sofreu muito, sem nunca se render. Cantámos, numa música muito bela, este poema de Frei José Augusto Mourão:
Não pode a morte reter-me na cruz. /Não pode o mundo arrancar-me à raíz./Ao pé de Deus hei-de sempre viver./ Com Deus cheguei e com Ele vou partir.//Não pode a morte apagar o desejo/ de ver a Deus face a face e viver./ A Deus busquei toda a vida/ vivi de acreditar no infinito da vida.// Não nos reduz o escuro da noite./ Não pode o amor esquecer o que o altera./ Já ouço a voz do Senhor, Deus dos vivos/ já ouço a voz do amigo que vem.// A Ti a vida me toma e transporta./ Teu sangue inunda meu corpo de paz./ Eu vejo as mãos do Senhor glorioso/ nas minhas mãos a memória de Deus.// A Ti Senhor, meus desejos regressam./ Findo o andar, disponíveis as mãos./ Abre meu corpo ao devir que não sei/ eu chamo a esperança pelo nome de Deus.
Ilumina meus olhos da luz do teu Dia, e que um canto de paz me acorde da morte.

03.07.2016



[1] Lc 7, 33-35
[2] Lc 4, 14-44

sábado, 2 de julho de 2016

ISTO, DIGO EU!... QUANDO SE FALA DE EUTANÁSIA



Hei-de confessar que não gosto da maneira como os políticos, nos tempos que correm, se fazem qualificar entre direita e esquerda. Mas, claro, sou eu que não gosto e nem serei obrigado a gostar. É que tal divisão arrasta laivos de segregacionismo, sectarismo e alguma xenofobia à mistura. Mas, e volto a repetir-me, sou eu que não gosto.
Ora este divisionismo acentuou-se mais, depois do quadro político que resultou das eleições legislativas de Outubro do ano findo, em que os partidos vencedores do sufrágio, não conseguiram apoio parlamentar para suporte do governo. Assim sendo, o partido que ficou em segundo lugar, estende a mão esquerda, à esquerda que lhe deu a mão, e assim se afirma uma esquerda contra a direita. Até aqui tudo legítimo ou, pelo menos, legitimado. Claro que este rendez-vous abarca contrapartidas, acordos indigestos e outros amargos de boca. Os anseios das minorias passaram a prevalecer, em ordem ao voto que se pretende para suportar o governo, que o mesmo é dizer, o poder. Há quem diga que é um poder a qualquer preço, mas quem está a pagar e quem vai pagar o preço desse poder, é a sociedade e são todos aqueles que não sufragaram um poder com este figurino. E o governo tem cedido aos ditames da sua mão esquerda, ou da esquerda da sua mão, fazendo aprovar no Parlamento temas fracturantes da nossa sociedade, questões que careciam de amplo debate, de discussão pública e que apenas são anseios de uma minoria. Foi no passado com a despenalização do aborto, foi com o casamento entre pessoas do mesmo sexo e foi, mais recentemente, com a aprovação da lei da adopção por casais do mesmo sexo.
Como se não bastasse o que atrás fica dito, desfralda-se agora bandeira da eutanásia. A palavra eutanásia, que pretende significar uma morte fácil, uma morte calma, está a entrar pelas nossas casas adentro, quase sem pedir licença. A implementação da eutanásia visa roubar precocemente a vida às pessoas que são portadoras de doença em fase terminal, que estejam em sofrimento e que manifestem o desejo de morrer. Assim, a morte teria lugar através da intervenção médica. E por isso lhe chamam, morte medicamente assistida.
É pois um tema fracturante, que a mão esquerda do poder pretende fazer aprovar no parlamento, sem que tal assunto constasse do seu manifesto eleitoral e sem que a sociedade portuguesa seja chamada a pronunciar-se sobre um tema tão melindroso. Todos temos o direito de morrer com dignidade mas, para isso, não precisamos que nos matem. Todos temos o direito a viver com dignidade e a morrer com dignidade, sem que uma lei homicida venha decidir sobre a duração da nossa vida. E para alguém, mesmo com doença terminal, poder morrer com dignidade, não é preciso ser eutanasiado, o que é imperioso é que lhe sejam ministrados cuidados paliativos, por forma a que os últimos dias sejam tranquilos, sem dores e que a morte venha serenamente. Ao invés da pressa em fazer passar uma lei sobre a eutanásia, porque não implementa a tal esquerda, métodos e legislação que amplie e diversifique a Rede de Cuidados Paliativos?
O bastonário da Ordem dos Médicos, em entrevista recente, teceu duras críticas à eutanásia enquanto método para ajudar a morrer. E afirmou mesmo:Quer dar-se o direito às pessoas a terem acesso à morte antecipada sem que tenham, previamente, o direito de aceder a uma unidade de cuidados paliativos. A verdade é que aquilo que se verifica é que as pessoas que têm acesso a uma unidade de cuidados paliativos, normalmente, já não querem morrer. Porquê? Porque deixam de estar em sofrimento e as suas dores são adequadamente tratadas".
Conhecida é a posição da Igreja Católica, que se declara deliberadamente contra qualquer tipo de eutanásia, e muitas e proeminentes são as vozes que se levantam contra este método atentatório da dignidade da pessoa humana.
Ajudem-nos a morrer com dignidade, mas não nos matem.
Isto, digo eu.


Nelson Veiga