segunda-feira, 20 de março de 2017

NÃO REZEM COMO OS GENTIOS


                                            Frei Bento Domingues, O.P.
1. Dizem-me que, hoje, no campo religioso, a espiritualidade é a sua expressão mais chique e o esoterismo, a mais democrática pela numerosa oferta de expedientes, sem os aborrecidos mandamentos das religiões.
Há espiritualidades para tudo e mais alguma coisa. Cada uma das ordens e congregações religiosas reclamam-se de uma espiritualidade original, marca da sua identidade. Os diferentes movimentos do laicado católico alargaram esse pluralismo ao apresentar e justificar os seus caminhos e mediações pretensamente inconfundíveis.
Redescobriu-se, no diálogo inter-religioso, que o divino Espírito não é propriedade privada de ninguém. Existem movimentos agnósticos e ateus que se reclamam de uma profunda sabedoria espiritual. Mas ficava sempre alguma coisa de fora. A chamada espiritualidade holística é tão abrangente que nela há lugar para tudo.
O todo é inabarcável e, como diz o Novo Testamento, o Espírito sopra quando e onde quer, sem pedir licença a ninguém, resistindo a ser domesticado. As classificações humanas dos carismas não podem impedir, no seu catálogo, a espiritualidade dos insatisfeitos.
2. Jesus Cristo não pertencia à tribo sacerdotal. Era um leigo bastante sóbrio no tocante a expressões cultuais. Detestava o exibicionismo da religião do seu tempo e do seu meio. Os seus discípulos não percebiam as razões da sua discrição. Segundo S. Lucas, até se queixavam de serem um grupo sem livro de orações: Senhor, ensina-nos a orar, como João ensinou os seus discípulos[i].
O anti exibicionismo do Nazareno era radical: «Quando orardes, não sejais como os hipócritas. Eles gostam de fazer orações pondo-se em pé nas sinagogas e nas esquinas, a fim de serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Mas tu, quando orares, entra no teu quarto e, fechando a porta, ora ao teu Pai ocultamente e o teu Pai, que vê o que está oculto, te recompensará[ii]».    
Na mesma passagem, S. Mateus destaca que o Mestre não quer nada com os moinhos de orações. São os gentios que insistem na vã repetição, porque entendem que é pelo palavreado excessivo que serão ouvidos. O vosso Pai sabe do que precisais antes de lho pedirdes.
A verdade da religião perde-se no vício do ruído e ganha-se no silêncio da escuta persistente.
Não terá S. Lucas corrigido a extrema sobriedade de S. Mateus? Não me parece. Com pequenas diferenças, o Pai Nosso – resumo das grandes linhas e preocupações do Evangelho – é comum aos dois escritores. S. Lucas elabora, de facto, uma pedagogia completamente diferente. Criou uma parábola que parece dizer o contrário de Mateus. Serve-se da experiência do que muitas vezes acontece: só com muita insistência e aborrecida repetição se obtém resposta a um pedido incómodo.
A narrativa pode dar a ideia de que Deus é surdo, que não está para se incomodar, insensível à urgência de uma pessoa aflita. Mas a parábola é, simplesmente, astuciosa. Dá um salto: a insistência na oração é fundamental, não para informar a Deus nem para o convencer, mas para nos convencermos da dificuldade que temos em nos abrirmos ao seu desígnio que é infinitamente melhor, para nós, do que os nossos cálculos mesquinhos. Precisamos de muita insistência para converter o nosso desejo ao desejo amante de Deus. Precisamos de entrar na sua onda, na onda do seu espírito. Tudo o que se faz, em religião, é apenas para conseguir uma abertura que nos torne disponíveis para as exigências do Evangelho, segundo o Espírito de Deus.
Neste sentido, podemos dizer que Jesus Cristo era um grande espiritual. O caminho e o baptismo de João serviram, apenas, para lhe mostrar que aquele não podia ser o seu caminho, nem aqueles banhos rituais e moralistas podiam trazer o Reino de Deus. Contam os evangelhos que ele entrou em oração – abertura da terra ao céu – e teve a experiência mística do dom do Espírito Santo. Foi uma divina declaração de puro amor, mostrando que não é do céu que poderá vir a condenação da terra[iii].
3. As Igrejas cristãs, ao longo dos séculos, encarregaram-se de contrariar a sobriedade e o anti exibicionismo religioso de Jesus Cristo. Com ritos e ritmos diferentes, com música ou sem música, encheram livros e livros com orações para todas as horas, para todos os lugares e circunstâncias, a propósito e a despropósito.
Conheço muitas colecções de livros com as melhores e piores orações do mundo, com santos especializados, sempre de serviço, para todas as aflições e ocasiões, para todos os objectos perdidos e acções de graças para os casos bem sucedidos.
Sempre me pediram para não me rir, mesmo das expressões mais ridículas da religiosidade e da superstição. Diziam: se isso ajudar as pessoas a viver, a superar o desespero e a depressão, talvez não sejam mais prejudiciais do que o recurso permanente às farmácias e pode ficar mais barato.
A oração exprime a condição humana, na sua verdade mais pura: o nosso limite e o desejo ilimitado de felicidade. Elevar a Deus o nosso pedido de socorro ou de acção de graças revela, para o crente, uma atitude saudável. Significa que acreditamos que não estamos sós, mas seria grossa asneira supor que Deus é o substituto da investigação científica, da organização do Estado, do bom funcionamento do ensino, do serviço nacional de saúde, de hospitais de qualidade, do funcionamento da Justiça, da solidariedade, etc. Jesus Cristo fez muitas curas e até andou sobre as águas do mar, mas não deixou a receita. Os seus gestos dizem que o mundo não tem de ser uma desgraça, mas somos nós os encarregados de cuidar da casa comum, habitável e bela.
Deus não é tudo. A ideia de mundo criado supõe um mundo limitado e falível. Não vale a pena discutir se Deus não podia criar um mundo perfeito. Seria uma absurda réplica de Deus, Deus repetido.
A oração ajuda a reconhecer a verdade da nossa condição humana limitada, aberta à transcendência absoluta do Amor que nos pergunta: Que fizeste do teu irmão?
19. 03. 2017

in "Público"

[i] Lc 11,1-13
[ii] Mt 6, 5-13
[iii] Lc 3, 21-22 //

terça-feira, 7 de março de 2017

FÁ TIMA DÁ PARA TUDO (3)


                         Frei Bento Domingues, O.P.

1. Fátima pode dar para tudo, mas não dá para todos! Mesmo a preços loucos, já é impossível arranjar onde dormir de 12 para 13, do próximo mês de Maio. Um antigo colega da Escola Apostólica telefonou-me indignado com esse tipo de observações: um verdadeiro peregrino não vai a Fátima para dormir. Vai para se sacrificar e rezar. Penitência e oração é o programa que os pastorinhos transmitiram, como pedidos de Nossa Senhora. Lembrou-me ainda como também ele e eu, pelos finais dos anos 40 do século passado, aguentamos várias vezes, ao relento, com um cobertor, a noite fria de 12 para 13. Quem é capaz de fazer centenas de quilómetros a pé também pode substituir alguns por uma noite ao relento. Agora, comercializada e aburguesada, tem de seguir a prática da lei da oferta e da procura. O turismo religioso é um negócio muito antigo no qual o substantivo e o adjectivo se ajudam numa tensão fecunda. É sabido que Jesus Cristo não gostava nada desse comércio. Os quatro evangelistas narram, por esse motivo, a sua indignação no átrio do Templo de Jerusalém: “Estava próxima a Páscoa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém. Encontrou no templo os vendedores de bois, ovelhas e pombas, e os cambistas nos seus postos. Então, fazendo um chicote de cordas, expulsou-os a todos do templo com as ovelhas e os bois; espalhou as moedas dos cambistas pelo chão e derrubou-lhes as mesas;  aos que vendiam pombas, disse-lhes: Tirai isso daqui. Não façais da Casa de meu Pai uma feira[i].
O meu confrade, Frei Henrique Urbano, professor de sociologia e antropologia numa universidade do Canadá e cofundador do Centro Bartolomeu de Las Casas, de Cusco, e um dos maiores investigadores da cultura Inca, morreu em Lima, em 2014. Fui seu colega no Studium Sedes Sapientiae, em Fátima, nos anos 50 do século passado. Tudo o que acontecia nas visitas ao Santuário e arredores alimentava o seu inesgotável humor, como vitória do riso sobre a estupidez. Numa das últimas passagens por Fátima repetia-me: o fenómeno da Cova da Iria é radicalmente antimarxista. Alí, a superestrutura criou todas as infraestruturas. Foi a crença, a ideologia religiosa, que criou uma cidade próspera, não só pela abundância de presenças religiosas permanentes, mas também com uma rede hoteleira importante no centro do país. Acolhe o religioso e o profano para congressos, reuniões, celebrações de todo o género. Para lá se dirigem, todos os anos, milhões de crentes e curiosos, vindos de todo o mundo.
2. Dos acontecimentos de 1917 sabemos o que é atribuído aos pastorinhos de Aljustrel. Só a Lúcia escreveu as suas memórias, tardias, em relação aos acontecimentos. Nada de especial. É sempre assim. O que espanta é a mediocridade das hermenêuticas desse fenómeno. Cansam. Quando pretendem teologizar ainda aumentam mais o aborrecimento. António Marujo e Rui Paulo da Cruz deram-se ao trabalho de elaborar uma obra diferente. Poderia chamar-lhe os heterónimos de Fátima[ii]. Porquê? Recolhem testemunhos dos documentos das aparições, estudos sobre o contexto dos conflitos entre a República e católicos, a pluralidade de leituras na Igreja Católica, diversas leituras da antropologia e da sociologia religiosa, voltam ao fenómeno das aparições e à beatificação dos pastorinhos, interrogam-se sobre a actualidade de Fátima, 100 anos depois.
Tudo isto poderiam ser, apenas, capítulos de um livro bem planeado.
Seria mais ou menos do mesmo. Mas não. Todos os temas são a várias vozes, bem identificadas, sem contaminações, mas também não são, apenas, vozes justapostas, de costas umas para as outras. A Senhora de Maio espera cumprir o que a escritora Lídia Jorge nela descobriu: “Oxalá este livro […] possa abrir o capítulo de uma discussão que convém ser serena na forma, mas não poderá evitar a contradição, o debate e o confronto aberto das ideias em face da crença. Debate que sempre ultrapassa os níveis da razão e da ciência – mas não os ignora -, esse patamar de confronto delicado tão difícil de alcançar em Portugal[iii]”.
Não posso saber como os entrevistados e os leitores vão reagir à reunião de tantas vozes tão diferentes. Pelo meu lado, só posso agradecer aos autores a fidelidade com que reproduziram o meu longo depoimento, Fátima a várias dimensões, de Janeiro de 2000. É, ainda hoje, o texto em que me reconheço plenamente.
3. Como já aqui escrevi, não pretendo saber o que o Papa Francisco virá dizer a Fátima. Importa, porém, estar atento às últimas disposições deste peregrino. Referindo-se às religiosas e religiosos – tão inflacionados em Fátima - pediu-lhes para não cederem à tentação da sobrevivência da vida consagrada e das suas instituições. A cedência a essa tentação torna-os estéreis, reaccionários, fechados lenta e silenciosamente, nas suas casas e nos seus esquemas. A tentação da sobrevivência faz-lhes esquecer a graça e transforma-os em profissionais do sagrado, mas não em pais, mães e irmãos da esperança a que fomos chamados, a profetizar[iv].
Bergoglio, por ocasião do número 4000 da revista Civiltà Cattolica, recebeu os padres jesuítas que nela trabalham e fez-lhes recomendações bem estimulantes. Quis sublinhar três palavras para irem em frente: desassossego, incompletude, imaginação. Não podendo explicitar a mensagem de cada uma delas, destaco, como ele próprio diz: a primeira palavra é Desassossego. Faço-vos uma pergunta: o vosso coração conservou o desassossego da busca? Só o desassossego dá paz ao coração de um jesuíta. Sem desassossego somos estéreis. Se quiserdes habitar pontes e fronteiras deveis ter uma mente e um coração desassossegados. Por vezes confunde-se a segurança da doutrina com a suspeita pela busca. Não seja assim para vós. Os valores e as tradições cristãs não são peças raras para fechar nos cofres de um museu. A certeza da fé seja, ao contrário, o motor da vossa busca[v].
Isto não é só para os jesuítas.

in Jornal PÙBLICO


[i] João 2, 14-16
[ii] A Senhora de Maio. Todas as perguntas sobre Fátima. Temas e Debates, Lisboa, 2017.
[iii] Cf. Prefácio
[iv] Cf L’Osservatore Romano, 09.02.17
[v] Cf L’Osservatore Romano, 16.02.17

FALECEU A MÃE DO FR. MATIAS OP

Acabei de receber uma mensagem do Frei Matias dizendo que a sua mãe falecera quase de  repente, e o funeral foi ontem. Já lhe mandei uma mensagem pelo telefone.
Em meu nome, e em nome de todos os irmãos da província e Vicariato de Angola, apresentamos ao Frei Matias e aos seus familiares, as nossas condolências. Estamos juntos, na oração e na solidariedade.
Matias um abraço para ti e família. Conta sempre connosco.

Fr. Pedro

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

FÁTIMA DÁ PARA TUDO (2)


                            Frei Bento Domingues, O.P.

1. Em conversa com um amigo, a propósito da recente avalanche de escritos sobre Fátima, ele defendia que o mais sólido e resistente capital simbólico português do século XX-XXI nasceu de dois fenómenos quase simultâneos e completamente diferentes: o dos heterónimos de Fernando Pessoa e o dos pastorinhos da Cova da Iria. Um é poético e o outro é religioso. A figura mais emblemática e enigmática da Poesia, que goza de um crescente reconhecimento internacional, é Fernando Pessoa. A Religião que atrai milhões, com pretensões a “altar do mundo”, é Fátima.
Essa observação talvez não seja apenas megalomania e nostalgia de um império perdido, mas é uma abordagem que excede os propósitos desta crónica. É verdade que tanto o referido fenómeno poético como o religioso surgiram na mesma época, mas o Desassossego de Fernando Pessoa - reconhecendo que “a vida é uma metafísica às escuras com um rumor de deuses e o desconhecimento da rota como a única via” - nunca tomou o caminho de Fátima e a religião de Fátima nunca se encontrou com a grande Poesia nem com o questionamento metafísico[i].       
Seria, no entanto, muito precipitado concluir que o fundo da experiência religiosa seja incompatível com a ciência, a filosofia e a arte. Sobre essa problemática, Einstein pronunciou-se de um modo que merece atenção:   
 “A mais bela e profunda experiência que o ser humano pode ter é o sentido do misterioso. É o princípio básico da religião, como de todo o empreendimento sério em arte e ciência. Quem nunca teve esta experiência parece-me, senão morto, pelo menos cego. Sentir que por trás do que pode ser experienciado há algo que a nossa mente não pode atingir e cuja beleza e carácter sublime só indirectamente nos chega como um fraco reflexo, isso é religiosidade. Neste sentido, sou religioso. Para mim, basta pensar nestes segredos e humildemente tentar captar com a minha mente uma mera imagem da estrutura soberba de tudo o que existe[ii].” Algo semelhante foi destacado por L. Wittgenstein: “O inexprimível - o que eu considero misterioso e não sou capaz de exprimir - talvez seja o pano de fundo a partir do qual recebe sentido seja o que for que eu possa exprimir[iii]”.
Com O Livro do Desassossego, Fernando Pessoa desassossega as crenças, a teologia, o ateísmo, o cepticismo e o niilismo. Abala todas as aparentes certezas. Só quando percebermos que não nos entendemos a nós próprios, não entendemos os outros, não entendemos o universo, não entendemos Deus, poderemos começar a ser religiosos, isto é, pessoas atentas ao mistério de tudo. O ser humano é precisamente aquele que sabe que não sabe. Vive na finitude do mundo e na nossa imperfeição.
2. Não é credível que as primeiras “aparições” de Fátima tenham sido encomendadas aos pastorinhos nem que o seu desenrolar, durante um século, estivesse predeterminado no céu e na terra. É normal que as exigências do método histórico vão detectando o carácter construído daquilo que foi apresentado como ditado de Nª Senhora.
A própria Lúcia confessa que foi o Padre Faustino “quem nos ensinou a guardar o nosso segredo”, assim “como o modo de dar gosto a Nosso Senhor em tudo e, a maneira de lhe oferecer um sem-número de pequenos sacrifícios: se vos apetecer comer uma coisa, meus filhinhos, deixai-a e, em seu lugar, comei outra e oferecei a Deus esse sacrifício, se vos apetecer brincar, não brincai e oferecei a Deus esse sacrifício[iv].” O cónego Formigão e outros não conseguiram esconder a sua mão na configuração das metamorfoses das narrativas ao longo do tempo, servidas por uma grande capacidade adaptativa da Irmã Lúcia, testemunhada nas suas Memórias e nas suas Cartas[v].
A preocupação pela historicidade das chamadas Aparições de Fátima é legítima para distinguir a eclosão do próprio fenómeno religioso dos posteriores desenvolvimentos controlados por eclesiásticos, desde Aljustrel  até Tuy[vi]. O que os pastorinhos disseram e as circunstâncias das suas narrativas podem ser estudadas. A credibilidade humana de todas essas declarações é assunto de investigação. É normal que surjam interpretações diferentes. O que nenhum católico está obrigado a acreditar é no carácter sobrenatural dessas manifestações marianas, as chamadas mariofanias. As declarações eclesiásticas de que o fenómeno de Fátima é digno de crédito, não podem ser acrescentadas ao Credo. São de outra ordem.
Poderá então perguntar-se: tantos milhões que vão a Fátima andaram enganados?
3. A sedução de um fenómeno religioso não se mede pela sua historicidade. Não é a impossível verificação empírica do sobrenatural que está na origem dos grandes centros de peregrinação. O que atrai os peregrinos é o testemunho de algo fantástico reconhecido como sagrado. Santiago de Compostela foi e continua, desde a Idade Média até aos nossos dias, uma das maiores peregrinações do Ocidente. Os restos mortais de Santiago viajaram da Terra Santa até Compostela, num barco de pedra guiado por anjos!
António Marujo e Rui Paulo da Cruz publicaram uma obra, A Senhora de Maio. Todas as perguntas sobre Fátima[vii].
Pode ser que ainda falte alguma, mas a sua música dissonante, a várias vozes, dá muito que pensar, como  veremos.
26.02.2017

in jornal Público

[i] Já abordei as relações de Fernando Pessoa com Fátima em Bento Domingues, A Religião dos Portugueses, Figueirinhas| Porto| Lisboa, 1988
[ii] Cit. por Len Port, Fátima – milagre, ilusão ou fraude? Guerra e Paz, Lisboa, 1917
[iii] Cultura e Valor, Ed.70, Lisboa 1976
[iv] Cf. Aurélio Lopes, Videntes e Confidentes, Cosmos, 2009, pp.231-232
[v] P. António Maria Martins, S.J., Novos documentos de Fátima, Livraria AI, Porto, 1984
[vi] O próprio Santuário se encarregou de publicar a DOCUMENTAÇÃO crítica de Fátima, em vários volumes. Existe uma Enciclopédia de Fátima, Coord. Carlos Azevedo/Luciano Cristino, Principia, 2007 e vai crescendo sempre o número das obras sobre Fátima.
[vii] Temas e Debates – Círculo de Leitores, Fev. 2017

Aniversários em Março


Durante este mês celebram o seu aniversário os
nossos Amigos
NOME                                                                 Dia
  Manuel Pinheiro Luís                                                      4
  Manuel Fernando da Costa Marques                                   8
  José da Costa                                                            11
  Diamantino Mateus da Silva                                            13
  Luis Fernandes Boucho                                                15
  José Gonçalves Lopes                                                 16
  Vitor Alves Resio                                                        18
  Frei Pedro Fernandes                                                   19
  César Silva Eugénio                                                     22
  Armindo Ferreira da Silva                                              24
  António Abreu dos Santos                                             26
  Joaquim Carvalhais                                                      30
  Frei Augusto José Matias                                              30
Para todos os nossos parabéns e os votos de um futuro cheio de 

Bençãos de Deus.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

FÁTIMA DÁ PARA TUDO (1)


    Frei Bento Domingues, O.P.

1. Estou sempre a ser interrogado sobre as razões da vinda do Papa Francisco a Fátima. A resposta também é sempre a mesma: não sei. A adivinhação nunca me fez companhia. De qualquer modo, dentro de poucos meses, já estaremos a interpretar as declarações do peregrino Bergoglio. Toda a gente tem, no entanto, direito a conjecturas, filhas de desejos e receios. Há quem diga que, em Portugal, os bispos e os padres não são conhecidos pelo seu entusiasmo com a linha reformista do Papa Francisco e que as dioceses e paróquias se ressentem muito desse minguado interesse. Além disso, consta que existem grupos organizados para resistir às novidades deste argentino.
Se assim for, não estaremos a ser muito originais. Ana Fonseca Pereira, no Público da passada segunda-feira, deu uma boa amostra das manobras da oposição organizada ao Papa Francisco, ao mais alto nível, e robustecidas pela eleição de D. Trump. Nesse sentido, a peregrinação a Fátima - seguindo uma tradição que já vem de Paulo VI – teria uma significação de grande alcance. Fátima não é o melhor símbolo do esquerdismo católico, mas a multidão que se vai concentrar a 12 e 13 de Maio, em Fátima, apoiada pelos grandes meios de comunicação social, não vai mostrar, apenas, que Fátima continua a ser a maior peregrinação do Ocidente, com ecos em todos os continentes. Não poderá esse fenómeno religioso converter-se num dos grandes focos da nova evangelização e de uma Igreja de saída para todas as periferias existenciais? Fátima cheira a povo. As denunciadas manobras clericais já apanharam o fenómeno da Cova da Iria em movimento. Conseguiram enquadrá-lo, moldá-lo, limpá-lo das suas expressões mais rudes e supersticiosas, mas cada peregrino é que sabe o sofrimento e a desolação, a esperança e a graça que motivaram as promessas mais insólitas e o seu cumprimento doloroso. Obedece a razões que excedem o registo da razão. Cada peregrino vive Fátima à sua maneira, sem pedir licença a ninguém. É legítimo perguntar: não poderá a ancestral cultura do sofrimento ser iluminada pela alegria do Evangelho?
O Papa talvez não se vá contentar apenas em fazer coro com o comovente e nostálgico cântico do adeus ou com a inesquecível procissão das velas. Segundo o Evangelho de S. João, o Novo Testamento (NT) começou com uma festa atribulada. A grande conversão não foi a da água em vinho, mas a de Maria que, de mãe de Jesus, passou a ser sua discípula. Assumiu e interiorizou de tal modo o projecto do seu filho que, junto da cruz, Ele a encarregou de cuidar dos discípulos. Para sempre.
Não seria de estranhar que o Papa lembrasse àquela imensa multidão: aprendam, com Maria, a ser discípulos de Jesus e da sua missão, membros de uma Igreja de saída. Esta seria a grande conversão mariana de Fátima.
2. Desejos são desejos. Fátima é futuro, mas também 100 anos de história e sobre ela já existem muitos pontos de vista, muitas interpretações.
No Público (P2) do Domingo passado, António Araújo, elaborou um dossier – Fátima 100 anos – no qual não faz, apenas, o registo e o balanço das obras recentemente editadas sobre um fenómeno que continua a ser intrigante. No seu estudo, põe de lado as obras de simplismo laudatório e condenatório e manifesta, na sua análise, que já existem condições para o exercício de um olhar ponderado, crítico, que exerce com grande mestria.
Eu não posso ser um bom estudioso de Fátima porque acompanhei, muito de perto, o modo como as chamadas aparições criaram uma cidade e um apreciável volume de negócios, mas também a forma como se tornou o centro religioso do país e não só, a ponto de, por vezes, não se saber se o Vaticano se transferiu para Fátima ou Fátima para o Vaticano. É um corredor que já tem história.
Poder-se-á dizer: e que mal tem isso e como poderia ser de outra forma? O Anjo apareceu em Fátima, mas os peregrinos não são anjos.
3. Às vezes aborrece-me, outras dá-me para rir quando se pergunta se Fátima é milagre ou construção, embora tenha de louvar a seriedade do trabalho de Patrícia Carvalho acerca dessa mesma questão. Porquê?
O cardeal Ratzinger repetiu, em Fátima, a conhecida distinção entre revelação pública e privada, para não colocar ao mesmo nível o que se passou na Cova da Iria com os acontecimentos narrados e interpretados no NT. Fátima não pertence ao Credo Católico. Mas nunca me esqueço da observação que o filósofo Gabriel Marcel fez, em Fátima, aos estudantes dominicanos, muito críticos das fantasiosas narrativas das aparições feitas pelos pastorinhos: se foi Nossa Senhora que apareceu, deve ter liberdade para se manifestar como quiser; não tem que vos pedir conselhos.
O cristianismo é incompreensível sem a fé na Ressurreição, isto é, que a morte não é a última palavra sobre o destino humano. Mas nunca me pareceu que, com a morte, Jesus Cristo, a sua mãe e os discípulos de todas as épocas, tenham ido para férias eternas. Acredito que os que morrem são acolhidos, já neste mundo, no Deus do puro amor. S. Paulo lembrou, em Atenas, que foi um gentio a escrever que é na divindade que vivemos, nos movemos e existimos.
Muitos místicos confessaram as revelações divinas que viveram. Creio que, se estivéssemos atentos ao que se passa no interior de cada um de nós, poderíamos saber ler os sinais que Deus nos faz e os que lhe procuramos dar ou recusar, pelas nossas obras de misericórdia e oração.
É por esquecermos que o Reino de Deus está dentro de nós, acolhido ou recusado, que mandamos os nossos mortos para o mundo do esquecimento.
Ainda que nos esqueçamos deles, eles nunca se esquecerão de nós. São eternos colaboradores da sua paixão.
A continuar. Fátima dá para muito mais.

19.02.2017 
in jornal Público

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

SEMANA TEOLÓGICA INTERNACIONAL DE LUANDA


                                      Frei Bento Domingues, O.P.
1. No fim de semana passado, esteve em Lisboa, um dos autores mais notáveis do pensamento cristão contemporâneo, Frei Timothy Radcliffe, O.P., a convite do Nós Somos Igreja Portugal e do Instituto S. Tomás de Aquino (ISTA). Fez duas conferências muito concorridas, no Convento de S. Domingos. A sua obra está traduzida em várias línguas. Em Portugal, a Paulinas Editora já publicou seis dos seus títulos. O último, Na margem do mistério - Ter fé em tempos de incerteza, foi lançado na sua presença, no dia 28.
Por formação, é um filho de Oxford e de Paris. Foi Mestre Geral da Ordem dos Pregadores entre 1992-2001, o primeiro dominicano inglês a ser eleito para essa responsabilidade. Actualmente, desempenha funções de docente em Oxford e de consultor do Pontifício Conselho Justiça e Paz, sendo muito solicitado para cursos e conferências em todos os continentes. Pratica uma teologia narrativa, bem-humorada, ecuménica, rasgando sempre novos horizontes, sem solenidade, deslocando a pseudo-ortodoxia de becos sem saída, para espaços de liberdade criadora.
2. No fim das conferências de Timothy, parti para a Semana Teológica Internacional de Luanda (STIL), cujo tema geral foi A teologia face aos desafios da África actual. Era a primeira vez que, em Angola, se realizava um acontecimento desta dimensão. A iniciativa partiu do Arcebispo de Luanda, D. Filomeno Vieira Dias em comunhão com a respectiva Conferência Episcopal.
Pediu aos dominicanos, Fr. José Sebastião Paulo (angolano) e a Fr. José Nunes (português), para desenharem o projecto, selecionarem os convidados a intervir, angolanos e internacionais, e garantirem as suas presenças desde o primeiro ao último dia. Quando me contactaram, aderi com alegria à ideia, mas confesso que o projecto me parecia megalómano e irrealizável pelo número de convidados e pela cobertura geográfica que exigia. O facto é que a iniciativa teve uma adesão nacional e internacional absolutamente espantosa. É inimaginável o que a logística deste encontro exigiu para tudo ser cumprido como tinha sido idealizado.
Não compete às dimensões desta crónica descrever o conteúdo de tantas conferências e debates. Existe algo a destacar. O grande número de leigos, padres, seminaristas e religiosas não estiveram a assistir passivamente às conferências das reconhecidas celebridades. A grande questão era controlar o tempo das intervenções do público. Todas e todos se transformavam em teólogas e teólogos. Não havia apenas perguntas da assembleia. Havia propostas concordantes ou alternativas. Não foi uma semana de teólogos para leigos, mas a distribuição da palavra aos cristãos de diversas confissões para pensarem e exprimirem a sua própria fé no seio dos desafios da África actual. O clima geral não era de ressentimentos, mas de Igrejas que se acolhiam e questionavam de modo muito desinibido.
3. Não posso deixar de referir um ponto que se transformou numa constante das observações admiradas dos conferencistas internacionais: o comportamento permanente de D. Filomeno, Arcebispo de Luanda. Esteve na origem de tudo, acompanhou todos os trabalhos, como qualquer membro da assembleia, que habitualmente reunia 250 participantes, tendo chegado aos 300. Não se preocupou em mostrar que era ele o Arcebispo e o guarda da ortodoxia naquela realização inédita. Participava em liberdade para dar liberdade a todos. Mostrava, com o ar mais normal do mundo, que estava ali com a igreja e a igreja com ele a tentar ler os sinais do tempo da África actual, à luz do Evangelho. Sentia-se feliz com o que estava a acontecer, gostava de manifestar o reconhecimento a todos os participantes, especialmente aos dominicanos, que lhe deram plena colaboração para que aquela semana teológica fosse a primeira de muitas.
A pergunta que muitos faziam era esta: porque desejaria ele, com tanto empenho, a realização de uma semana teológica internacional de Luanda? A moda sugeria outra coisa: uma semana de espiritualidade, de pastoral, de vida consagrada, de promoção laical, etc. A teologia foi muito castigada em tempos não muito longínquos e os teólogos receberam consignas para o seu bom comportamento na Igreja. Os catecismos que dizem e explicam o que se deve pensar, dizer e praticar, para estar com a Igreja. O Direito Canónico sabe sempre o que está certo ou errado. Tem assinaladas as penas em que incorre quem violar o que prescreve. O teologicamente correcto, o bom comportamento pastoral e litúrgico estão estabelecidos com muita clareza. A prática teológica que cede ao método de Tomás de Aquino – como incendiário e não como bombeiro (U. Ecco) - é um perigo. Guilherme de Tocco, o seu mais antigo biógrafo, e que seguiu as suas aulas, diz: nas suas aulas levantava problemas novos, descobria novos métodos, empregava novas redes de provas e, ao ouvi-lo ensinar uma nova doutrina, com argumentos novos, não se podia duvidar, pela irradiação desta nova luz e pela novidade desta inspiração, que era Deus quem lhe concedeu ensinar desde o princípio com plena consciência, por palavras e por escrito, novas opiniões.
O Bispo de Paris, E. Tempier condenou Tomás de Aquino. Não vi no Arcebispo de Luanda, D. Filomeno, na comunidade de S. Tomás de Aquino, nenhuma vontade de condenar, mas de estimular a construção de uma teologia responsável.

in Público, 12.02.2017