domingo, 19 de fevereiro de 2017

FÁTIMA DÁ PARA TUDO (1)


    Frei Bento Domingues, O.P.

1. Estou sempre a ser interrogado sobre as razões da vinda do Papa Francisco a Fátima. A resposta também é sempre a mesma: não sei. A adivinhação nunca me fez companhia. De qualquer modo, dentro de poucos meses, já estaremos a interpretar as declarações do peregrino Bergoglio. Toda a gente tem, no entanto, direito a conjecturas, filhas de desejos e receios. Há quem diga que, em Portugal, os bispos e os padres não são conhecidos pelo seu entusiasmo com a linha reformista do Papa Francisco e que as dioceses e paróquias se ressentem muito desse minguado interesse. Além disso, consta que existem grupos organizados para resistir às novidades deste argentino.
Se assim for, não estaremos a ser muito originais. Ana Fonseca Pereira, no Público da passada segunda-feira, deu uma boa amostra das manobras da oposição organizada ao Papa Francisco, ao mais alto nível, e robustecidas pela eleição de D. Trump. Nesse sentido, a peregrinação a Fátima - seguindo uma tradição que já vem de Paulo VI – teria uma significação de grande alcance. Fátima não é o melhor símbolo do esquerdismo católico, mas a multidão que se vai concentrar a 12 e 13 de Maio, em Fátima, apoiada pelos grandes meios de comunicação social, não vai mostrar, apenas, que Fátima continua a ser a maior peregrinação do Ocidente, com ecos em todos os continentes. Não poderá esse fenómeno religioso converter-se num dos grandes focos da nova evangelização e de uma Igreja de saída para todas as periferias existenciais? Fátima cheira a povo. As denunciadas manobras clericais já apanharam o fenómeno da Cova da Iria em movimento. Conseguiram enquadrá-lo, moldá-lo, limpá-lo das suas expressões mais rudes e supersticiosas, mas cada peregrino é que sabe o sofrimento e a desolação, a esperança e a graça que motivaram as promessas mais insólitas e o seu cumprimento doloroso. Obedece a razões que excedem o registo da razão. Cada peregrino vive Fátima à sua maneira, sem pedir licença a ninguém. É legítimo perguntar: não poderá a ancestral cultura do sofrimento ser iluminada pela alegria do Evangelho?
O Papa talvez não se vá contentar apenas em fazer coro com o comovente e nostálgico cântico do adeus ou com a inesquecível procissão das velas. Segundo o Evangelho de S. João, o Novo Testamento (NT) começou com uma festa atribulada. A grande conversão não foi a da água em vinho, mas a de Maria que, de mãe de Jesus, passou a ser sua discípula. Assumiu e interiorizou de tal modo o projecto do seu filho que, junto da cruz, Ele a encarregou de cuidar dos discípulos. Para sempre.
Não seria de estranhar que o Papa lembrasse àquela imensa multidão: aprendam, com Maria, a ser discípulos de Jesus e da sua missão, membros de uma Igreja de saída. Esta seria a grande conversão mariana de Fátima.
2. Desejos são desejos. Fátima é futuro, mas também 100 anos de história e sobre ela já existem muitos pontos de vista, muitas interpretações.
No Público (P2) do Domingo passado, António Araújo, elaborou um dossier – Fátima 100 anos – no qual não faz, apenas, o registo e o balanço das obras recentemente editadas sobre um fenómeno que continua a ser intrigante. No seu estudo, põe de lado as obras de simplismo laudatório e condenatório e manifesta, na sua análise, que já existem condições para o exercício de um olhar ponderado, crítico, que exerce com grande mestria.
Eu não posso ser um bom estudioso de Fátima porque acompanhei, muito de perto, o modo como as chamadas aparições criaram uma cidade e um apreciável volume de negócios, mas também a forma como se tornou o centro religioso do país e não só, a ponto de, por vezes, não se saber se o Vaticano se transferiu para Fátima ou Fátima para o Vaticano. É um corredor que já tem história.
Poder-se-á dizer: e que mal tem isso e como poderia ser de outra forma? O Anjo apareceu em Fátima, mas os peregrinos não são anjos.
3. Às vezes aborrece-me, outras dá-me para rir quando se pergunta se Fátima é milagre ou construção, embora tenha de louvar a seriedade do trabalho de Patrícia Carvalho acerca dessa mesma questão. Porquê?
O cardeal Ratzinger repetiu, em Fátima, a conhecida distinção entre revelação pública e privada, para não colocar ao mesmo nível o que se passou na Cova da Iria com os acontecimentos narrados e interpretados no NT. Fátima não pertence ao Credo Católico. Mas nunca me esqueço da observação que o filósofo Gabriel Marcel fez, em Fátima, aos estudantes dominicanos, muito críticos das fantasiosas narrativas das aparições feitas pelos pastorinhos: se foi Nossa Senhora que apareceu, deve ter liberdade para se manifestar como quiser; não tem que vos pedir conselhos.
O cristianismo é incompreensível sem a fé na Ressurreição, isto é, que a morte não é a última palavra sobre o destino humano. Mas nunca me pareceu que, com a morte, Jesus Cristo, a sua mãe e os discípulos de todas as épocas, tenham ido para férias eternas. Acredito que os que morrem são acolhidos, já neste mundo, no Deus do puro amor. S. Paulo lembrou, em Atenas, que foi um gentio a escrever que é na divindade que vivemos, nos movemos e existimos.
Muitos místicos confessaram as revelações divinas que viveram. Creio que, se estivéssemos atentos ao que se passa no interior de cada um de nós, poderíamos saber ler os sinais que Deus nos faz e os que lhe procuramos dar ou recusar, pelas nossas obras de misericórdia e oração.
É por esquecermos que o Reino de Deus está dentro de nós, acolhido ou recusado, que mandamos os nossos mortos para o mundo do esquecimento.
Ainda que nos esqueçamos deles, eles nunca se esquecerão de nós. São eternos colaboradores da sua paixão.
A continuar. Fátima dá para muito mais.

19.02.2017 
in jornal Público

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

SEMANA TEOLÓGICA INTERNACIONAL DE LUANDA


                                      Frei Bento Domingues, O.P.
1. No fim de semana passado, esteve em Lisboa, um dos autores mais notáveis do pensamento cristão contemporâneo, Frei Timothy Radcliffe, O.P., a convite do Nós Somos Igreja Portugal e do Instituto S. Tomás de Aquino (ISTA). Fez duas conferências muito concorridas, no Convento de S. Domingos. A sua obra está traduzida em várias línguas. Em Portugal, a Paulinas Editora já publicou seis dos seus títulos. O último, Na margem do mistério - Ter fé em tempos de incerteza, foi lançado na sua presença, no dia 28.
Por formação, é um filho de Oxford e de Paris. Foi Mestre Geral da Ordem dos Pregadores entre 1992-2001, o primeiro dominicano inglês a ser eleito para essa responsabilidade. Actualmente, desempenha funções de docente em Oxford e de consultor do Pontifício Conselho Justiça e Paz, sendo muito solicitado para cursos e conferências em todos os continentes. Pratica uma teologia narrativa, bem-humorada, ecuménica, rasgando sempre novos horizontes, sem solenidade, deslocando a pseudo-ortodoxia de becos sem saída, para espaços de liberdade criadora.
2. No fim das conferências de Timothy, parti para a Semana Teológica Internacional de Luanda (STIL), cujo tema geral foi A teologia face aos desafios da África actual. Era a primeira vez que, em Angola, se realizava um acontecimento desta dimensão. A iniciativa partiu do Arcebispo de Luanda, D. Filomeno Vieira Dias em comunhão com a respectiva Conferência Episcopal.
Pediu aos dominicanos, Fr. José Sebastião Paulo (angolano) e a Fr. José Nunes (português), para desenharem o projecto, selecionarem os convidados a intervir, angolanos e internacionais, e garantirem as suas presenças desde o primeiro ao último dia. Quando me contactaram, aderi com alegria à ideia, mas confesso que o projecto me parecia megalómano e irrealizável pelo número de convidados e pela cobertura geográfica que exigia. O facto é que a iniciativa teve uma adesão nacional e internacional absolutamente espantosa. É inimaginável o que a logística deste encontro exigiu para tudo ser cumprido como tinha sido idealizado.
Não compete às dimensões desta crónica descrever o conteúdo de tantas conferências e debates. Existe algo a destacar. O grande número de leigos, padres, seminaristas e religiosas não estiveram a assistir passivamente às conferências das reconhecidas celebridades. A grande questão era controlar o tempo das intervenções do público. Todas e todos se transformavam em teólogas e teólogos. Não havia apenas perguntas da assembleia. Havia propostas concordantes ou alternativas. Não foi uma semana de teólogos para leigos, mas a distribuição da palavra aos cristãos de diversas confissões para pensarem e exprimirem a sua própria fé no seio dos desafios da África actual. O clima geral não era de ressentimentos, mas de Igrejas que se acolhiam e questionavam de modo muito desinibido.
3. Não posso deixar de referir um ponto que se transformou numa constante das observações admiradas dos conferencistas internacionais: o comportamento permanente de D. Filomeno, Arcebispo de Luanda. Esteve na origem de tudo, acompanhou todos os trabalhos, como qualquer membro da assembleia, que habitualmente reunia 250 participantes, tendo chegado aos 300. Não se preocupou em mostrar que era ele o Arcebispo e o guarda da ortodoxia naquela realização inédita. Participava em liberdade para dar liberdade a todos. Mostrava, com o ar mais normal do mundo, que estava ali com a igreja e a igreja com ele a tentar ler os sinais do tempo da África actual, à luz do Evangelho. Sentia-se feliz com o que estava a acontecer, gostava de manifestar o reconhecimento a todos os participantes, especialmente aos dominicanos, que lhe deram plena colaboração para que aquela semana teológica fosse a primeira de muitas.
A pergunta que muitos faziam era esta: porque desejaria ele, com tanto empenho, a realização de uma semana teológica internacional de Luanda? A moda sugeria outra coisa: uma semana de espiritualidade, de pastoral, de vida consagrada, de promoção laical, etc. A teologia foi muito castigada em tempos não muito longínquos e os teólogos receberam consignas para o seu bom comportamento na Igreja. Os catecismos que dizem e explicam o que se deve pensar, dizer e praticar, para estar com a Igreja. O Direito Canónico sabe sempre o que está certo ou errado. Tem assinaladas as penas em que incorre quem violar o que prescreve. O teologicamente correcto, o bom comportamento pastoral e litúrgico estão estabelecidos com muita clareza. A prática teológica que cede ao método de Tomás de Aquino – como incendiário e não como bombeiro (U. Ecco) - é um perigo. Guilherme de Tocco, o seu mais antigo biógrafo, e que seguiu as suas aulas, diz: nas suas aulas levantava problemas novos, descobria novos métodos, empregava novas redes de provas e, ao ouvi-lo ensinar uma nova doutrina, com argumentos novos, não se podia duvidar, pela irradiação desta nova luz e pela novidade desta inspiração, que era Deus quem lhe concedeu ensinar desde o princípio com plena consciência, por palavras e por escrito, novas opiniões.
O Bispo de Paris, E. Tempier condenou Tomás de Aquino. Não vi no Arcebispo de Luanda, D. Filomeno, na comunidade de S. Tomás de Aquino, nenhuma vontade de condenar, mas de estimular a construção de uma teologia responsável.

in Público, 12.02.2017

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Aniversários em Fevereiro


Durante este mês celebram o seu aniversário os
nossos Amigos
NOME                                                                 Dia
  Manuel Ferraz Faria                                                      1
  João de Melo Pacheco                                                   4
  Manuel Guerra Henriques                                                5
  José Fernandes Lopes                                                   6
  Joaquim Alberto Granjeia Seabra                                       8
  Carlos Manuel Sousa Henriques                                      10
  Carlos Alberto Guerra Vicente                                        11
  Manuel Nunes Ribeiro                                                   12
  Mário da Rocha Creoulo                                                13
  Eduardo Pereira Marques                                              18
  Fernando Manuel Silva Gaspar                                        19
  Armando José Alexandrino                                            28
Para todos os nossos parabéns e os votos de um futuro cheio de 

Bençãos de Deus.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

A LIBERDADE É UM PERIGO - Frei Bento Domingues, o.p.



1. 800 anos é muito tempo. Foi com este título que anunciei o jubileu da Ordem dos Pregadores (1216-2016). Não tenho uma devoção especial pelas comemorações, mas sei que uma das doenças mais temidas na minha idade é, precisamente, a perda da memória, Alzheimer. As crianças têm pouco passado. Elas são a realidade do futuro. Os idosos têm algum passado e pouco futuro. As Ordens Religiosas não nasceram todas ao mesmo tempo e, dentro da mesma época, nasceram para responder a desafios novos e diferentes, supondo que têm algo a dizer ao mundo em mudança. Não têm promessas de vida eterna. Algumas nasceram e morreram depressa, outras têm a pele mais dura.
A Ordem dos Pregadores, com suas glórias incomparáveis, virtudes e pecados, celebrou 800 anos. Como muitas outras, não nasceu só de uma vez. Por vezes, onde foram mais vigorosas e fecundas, enfraqueceram e começam noutras áreas culturais e sociais, como se estivesse a nascer de novo. Há 70 anos que conheço os dominicanos. Encontrei-os em muitos países, umas vezes em grande desenvolvimento, noutras com muitas dificuldades e, noutras ainda, a começar como se estivem a fundar a Ordem.
Faço parte dos dominicanos há 64 anos. Quando entrei, vivia-se uma grande turbulência nas províncias dominicanas francesas. Era a época da nova Teologia, dos Padres operários, do diálogo activo com as diferentes correntes do mundo contemporâneo: teólogos com as suas obras no Index dos livros proibidos, outros no exílio, etc.. Essa história triste está feita e abundantemente documentada[1].
Só depois, já durante o Noviciado, tomei conhecimento de uma história anterior, trágica e gloriosa. Estou a referir-me ao itinerário do dominicano Marie-Joseph Lagrange, fundador da Escola Bíblica de Jerusalém (1889-1913).
2. No passado dia 21, Frei Miguel dos Santos fez, no novo Convento de S. Domingos em Lisboa, a apresentação desse itinerário escrito pelo próprio autor[2].
Trata-se, na verdade, de recordações pessoais que o Padre Lagrange escreveu, não para serem publicadas, mas para informar os seus confrades e explicar as intenções subjacentes à fundação da Escola Bíblica e, sobretudo, acerca dos embates e combates a que esteve ligado em defesa desta genial fundação ameaçada.
Só foram publicadas em 1967, por iniciativa do Padre Pierre Benoit, que foi um dos últimos e célebres discípulos directos do Padre Lagrange, juntamente com o Padre Roland De Vaux.
O Padre Lagrange foi um dos pioneiros, no campo católico, da moderna exegese científica da Bíblia, que pode caracterizar-se, simplificando, pelo seu método histórico-crítico. Este método consiste, essencialmente, na utilização das ciências históricas e seus instrumentos específicos na abordagem dos textos bíblicos.
Este tipo de abordagem foi sobretudo desenvolvido por exegetas protestantes alemães do século XIX. Julgava-se que o seu racionalismo demolidor punha em causa os fundamentos históricos de toda a Bíblia.
A posição do Padre Lagrange foi a de perceber que não valia a pena, por parte dos católicos, entrincheirarem-se numa apologética puramente defensiva contra os ataques do racionalismo alemão, mas sim de entrar no mesmo campo em que ele se movia, utilizando os mesmos instrumentos críticos de estudo e análise dos textos bíblicos.
A fundação da Escola Bíblica foi, de início e em geral, bem acolhida. Tratava-se de criar uma instituição dedicada aos estudos bíblicos no meio geográfico onde nasceu a maior parte dos livros da Bíblia e no meio cultural mais afim com aquele em que viveram os seus autores.
Quando o Padre Lagrange e os seus colaboradores começaram a concretizar o projecto que os movia, tudo se complicou. O clima era terrível. Tudo o que cheirasse a inovação era acusado de modernismo. Esta palavra abarcava diferentes correntes teológicas condenadas pelo Papa Pio X, através do decreto Lamentabili e da encíclica Pascendi. De facto, lamentável era esta mentalidade inquisitorial.
Com os artigos do Padre Lagrange e de outros colaboradores, na Revue Biblique e com as primeiras obras de folego na colecção Études Bibliques, é a própria Escola Bíblica, o seu fundador e o seu projecto que são postos em causa e atacados de forma vergonhosa.
As tribulações incríveis deste caminho são o conteúdo da obra apresentada no Domingo passado. Devem dar muito que pensar. A invocação, na Igreja, do dever de obediência devia ser sempre acompanhada pelo direito e pela exigência de prosseguir os caminhos da investigação da verdade. O perigo não é a liberdade, é o autoritarismo.
3. Hoje, podemos perguntar que seria dos estudos bíblicos, na Igreja, sem a tenacidade heroica do fundador da Escola Bíblica? Muita gente conhece, em muitos países a Bíblia de Jerusalém, mas não é aí nem nas muitas investigações e publicações que a Escola produziu, ao longo de 100 anos, nem em se ter tornado num centro de atracção de investigadores de todos os quadrantes e de todo o mundo, que está a sua importância. O seu mérito principal é porque a luta do P. Lagrange e seus colaboradores possibilitou abrir, na igreja Católica, o espaço a todas as formas de investigação e interpretação da Bíblia[3].
29. Janeiro. 2017

in jornal Público

[1] François Leprieur, Quand Rome condamne. Dominicains et prêtes-ouvriers, Plon/Cerf, Paris 1989.
[2] Marie-Joseph Lagrange, o.p., Recordações Pessoais. O Padre Lagrange ao serviço da Bíblia, Biblioteca Dominicana, Tenacitas, Coimbra/Salamanca 2017.
[3] Comissão pontifícia Bíblica, A Interpretação da Bíblia na Igreja, Rei dos Livros, 1994

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Desconfiar do trato


            Quanto mais a idade vai avançando, mais nos afloram à memória recordações dos tempos idos, vivências da nossa vida, pequenos casos e factos que recordamos e que, afinal, fazem a história de cada um de nós. A vaga de frio com que este Inverno nos tem presenteado, trouxe-me a memória um caso tão simples quão pitoresco, que passo a partilhar:
            A profissão que abracei, nos primeiros tempos, fazia de mim um nómada e daí que eu tivesse conhecido terras, pensões e muitos amigos. Numa das localidades em que trabalhei, tive o ensejo de partilhar, por dias a fio, a mesa do almoço com um delegado do procurador da república, nómada como eu, que um dia partilhou comigo uma situação laboral que o impressionara. Foi-lhe presente para interrogatório, um indivíduo que fora detido para prestar contas à justiça, pelo cometimento de um crime que agora não vem ao caso. O homem apresentava-se magro, trémulo e bastante amedrontado talvez por ser presente a uma autoridade judicial. Às primeiras perguntas do magistrado, questões simples que pretendiam retirar o réu da sua situação de medo, este não respondia. Impressionado, ordena ao oficial de diligências que fosse ao café próximo do tribunal e providenciasse um galão quente e alguns bolos, pois lhe parecia que o detido tinha fome. Trazida a refeição, ordenou ao recluso que comesse, pois era para ele aquele repasto. Este porém, manteve-se mudo, imóvel e cabisbaixo. Magistrado e funcionário retiraram-se para que o homem pudesse ficar a sós. Momentos depois regressaram e constataram que o homem tinha comido tudo. Tendo-lhe sido perguntada a razão do medo e da relutância em comer, o pobre homem respondeu: “Estava a desconfiar do trato”.

            Há dias fomos todos alertados, e bem, para uma vaga de frio que atravessou o país e que nos trouxe uma acentuada baixa de temperaturas, cuja mínima se situou abaixo de zero em quase todo o território. Protecção Civil, Autarquias e outras organizações não-governamentais, foram céleres em disponibilizar meios que pudessem minimizar aos muitos sem-abrigo os efeitos da anunciada vaga de frio. Algumas portas se escancararam e até estações do metropolitano ficaram abertas para, por umas noites, servirem de lar a quem não o tem. Pasmei, quando no segundo dia da tal vaga de frio se noticiava que uma das estações de Metro disponibilizada, tinha apenas albergado um ‘hóspede’. E aqui veio-me à memória a conclusão do episódio que atrás relatei: Estavam a desconfiar do trato. E é isso que ouvimos da boca de muitos voluntários que tentam ajudar os sem-abrigo – a desconfiança que neles reina em permanência. E será que tem justificação esse espírito de desconfiança? Parece que sim, se não vejamos. É preciso ocorrer o anúncio de uma intempérie, para que os poderes se lembrem que há nas ruas das cidades, gente sem lar e sem pão. Então tudo acorda para a realidade e para a solidariedade. Abrem-se edifícios fechados, distribuem-se roupas e agasalhos, sevem-se refeições, estende-se a mão e espalham-se sorrisos. Finda a tempestade, o que resta? De novo a rua, o ostracismo e a miséria moral e humana. Os sem-abrigo são filhos da pátria durante o ano inteiro e não somente nos dias de intempérie. A marginalidade não é uma praga mas sim uma realidade que deve preocupar os governantes e não apenas as instituições particulares que prestam apoio social. E é por isso que quando o poder esporadicamente os recorda, eles desconfiam. Desconfiam do trato.

Nelson Veiga

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Não à lógica do tudo ou nada - Fr. Bento Domingues O.P.


1. Perante o rumo assustador que a política internacional está a tomar e a múltipla inconsciência na “União Europeia”, fui interpelado por alguns católicos, quese identificam com a herança do Vaticano II, para a urgência de reunir pessoas de “boa vontade”, não apenas para interpretar os sinais deste tempo, mas sobretudo para encontrar formas activas de responder à pergunta dos Actos dos Apóstolos: que fazer?
É tarefa para quem não acredita no determinismo histórico. Um amigo mandou-me, entretanto, o hebdomadário, Le Point[1] (5 de Jan.) com a fotografia do filósofo ateu Michel Onfray na capa e a referência ao seu último livro – Décadence – anunciando que a civilização baseada no judeo-cristianismo está absolutamente esgotada. Os seus valores de outrora estão mortos e nada nem ninguém os pode reanimar.  
       O Islão, pelo contrário, está forte, tem um exército planetário, constituído por inumeráveis crentes prontos a morrer por Alá e o seu Profeta, ancorados em apetecíveis recompensas celestes.
A referida Revista está recheada com uma entrevista a M. Onfray, extractos do seu livro e algumas mansas réplicas.
O entrevistado deleita-se no exercício do contra ponto. Nós somos os últimos da civilização moribunda e mergulhados no niilismo, eles no fervor; nós estamos esgotados, eles cheios de saúde; nós deixamo-nos engolir pelo instante, eles movidos por uma eternidade gloriosa; temos por nós o passado, eles têm o futuro; para eles, está tudo a começar, para nós, está tudo a acabar.
Segundo este filósofo, cada coisa tem o seu tempo. O judeo-cristianismo reinou quase dois mil anos. Uma duração honrosa para uma civilização. Aquela que a substituirá também será substituída. É uma questão de tempo. O nosso barco afunda-se, resta-nos desaparecer com elegância.
       Este determinismo coloca os próprios católicos fora de jogo. O Concílio Vaticano II em nada nos pode ajudar. Querendo ser um remédio, aumentou a doença. Ao fazer de Deus um colega que trata por tu; do padre, um amigo convidado para férias; do mundo simbólico, uma velha lua a ignorar; do mistério da transcendência, uma rasteira insignificância; da missa, uma cenografia decalcada das emissões televisivas; do ritual resistente, uma cançoneta ligeira; da mensagem de Cristo, um simples panfleto sindicalista; da batina, um disfarce de teatro; das outras religiões e espiritualidades, algo equivalente ao cristianismo. Enfim: a Igreja, ao precipitar o movimento de fuga para a frente, provocava o seu descalabro.
2. Dir-se-á que esta caricatura ignorante não passa de mais uma reprodução lefebvrista. Está longe da cultura da subtileza e do rigor. A experiência do autor, num colégio católico, deixou-lhe recordações da violência, real e simbólica, que não são indiferentes à sua vontade de desconstrução radical.
Seria, todavia, grave que, por causa das análises inadequadas do autor, não perguntássemos com insistência: o que aconteceu, ao longo dos séculos, para se esquecer, que numa das primeiras comunidades cristãs não havia, entre eles, nenhum indigente (…); distribuía-se a cada um segundo a sua necessidade[2]? Hoje, o abismo entre ricos e pobres continua escandaloso. Alguns desses ricos e opressores ainda passam por benfeitores. Que enxertos perversos foram feitos na árvore cristã para dar frutos tão maus? 
         No ano 2000, o Papa João Paulo II multiplicou as confissões de arrependimento pelos pecados e crimes dos homens da Igreja. Pretendia ser um trabalho de purificação da memória e os contínuos incitamentos à globalização da solidariedade e a oposição frontal à guerra no Iraque. Estamos confrontados com a “vitória” de Donald Trump, a religião dos muros, as ameaças em todas as direcções e a derrota da civilização! Há muita gente assustada e outra resignada. Há também quem resista.
3. O Papa Francisco, no longo discurso da audiência natalícia à Cúria romana, deu publicamente contas do que foi realizado na reforma da Cúria, no banco do Vaticano, de todas outras reformas em curso, com todos os pormenores, marcando bem qual é a lógica que o guia: se a lógica do Natal é a subversão da lógica do mundo, da lógica do poder, da lógica do controle, da lógica farisaica e da lógica casualística ou determinista, então também a lógica da reforma da Cúria deve ir nesta direcção[3]. Há quem diga que é muito exigente e extremamente severo com cardeais, bispos e padres, quando não espelham uma Igreja pobre, dos pobres e para os pobres. De facto, para ele, o clericalismo é um mal terrível que tem raízes antigas e, como vítimas, sempre “o povo pobre e humilde”. Não é por acaso que também hoje, na missa, o Senhor repete, aos “intelectuais da religião”, que os pecadores e as prostitutas os precederão no reino dos céus[4].
O Papa não é um Trump de batina. Numa homilia, estava a proclamar que é preciso viver a santidade pequenina da negociação, ou seja, aquele realismo sadio que a Igreja nos ensina: rejeitar a lógica do isto ou nada e de empreender o caminho do possível para nos reconciliarmos uns com os outros. Nisto, uma criança desata a chorar: «não vos preocupeis porque a pregação de uma criança na igreja é mais bonita do que a do sacerdote, do bispo ou do Papa. Deixai-a chorar, porque é a voz da inocência que nos faz bem a todos»[5].
22. Janeiro. 2017

in jornal Público

[1] Cf. 5 Janvier 2017, pp.38-53; Décadence, Flammarion, Paris 2017.
[2] Act.4,31-35
[3] L’Osservatore Romano, 29. Dezembro. 2016.
[4] L’Osservatore Romano, 22. Dezembro. 2016, p.12 – Refere-se a Mt 21, 28-31.
[5] L’Osservatore Romano, 16. Junho. 2016, p.14

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

UNIVERSALISMO CRISTÃO (II) Fr. Bento Domingues OP



1. Têm razão os teólogos que se empenham em sublinhar que o cristianismo não é, fundamentalmente, uma religião do Livro, como dizem que são, por exemplo, o Judaísmo e o Islão. É, na sua essência, a graça do seguimento de Jesus Cristo como caminho, verdade e vida, fonte de sentido, de beleza e responsabilidade pelos mais abandonados. Para interpretar esse acontecimento profético, os cristãos recorreram, desde o princípio, à chamada biblioteca do Antigo Testamento. A partir dela, criaram outra que narra e interpreta a inesgotável beleza de Jesus Cristo. Chama-se o Novo Testamento, a grande escrita da inovação da vida.
O chamado Novo Testamento, com dois mil anos em cima, não estará também ele já muito velho e ultrapassado? Vamos por partes.
Por essa e outras razões, vou manter o título do texto do Domingo passado – Domingo da Epifania, dos Reis Magos – clausura do ciclo litúrgico do Natal. O cristianismo é, de raiz, universal. Pode ser traído.
Seguindo um género literário identificável, S. Mateus construiu, com velhos materiais, a narrativa da viagem destas enigmáticas figuras, mostrando que já não era em Jerusalém que se podia encontrar a salvação. O Messias, sem poder, sem pompa e sem forças armadas, nasceu para todos, na periferia. Essa significação universal era dada ainda no espaço religioso judaico. Não referi o grande salto teológico de S. Paulo da Carta aos Efésios, recolhida na segunda leitura da mesma celebração universalista: ”os gentios recebem a mesma graça que os judeus, pertencem ao mesmo corpo e participam da mesma promessa, em Cristo Jesus, por meio do Evangelho”.
Não será essa uma questão já ultrapassada? Talvez sim e talvez não. Não passo adiante sem voltar mais atrás. As narrativas notáveis de S. Lucas, em dois volumes, de cristologia e eclesiologia, oferecem referências históricas e geográficas ao processo de universalização do cristianismo que importa destacar e talvez nos possam ajudar no presente.
S. Mateus partiu de Abraão para falar da origem de Jesus Cristo. S. Lucas, ao recuar a genealogia de Jesus até Adão, sublinhava que Ele assumiu o passado de toda a humanidade. Ampliou essa convicção nos Actos dos Apóstolos. Jesus, o judeu, não assumiu apenas o passado, mas também o presente e o futuro da humanização cósmica e divina da História. A coligação de Herodes e Pôncio Pilatos, com as nações gentias e os povos de Israel contra Jesus, não só não o derrotou como até provocou uma ideia perigosa, que alguns julgam, erradamente, totalitária: “não há outro nome dado aos seres humanos pelo qual possam ser salvos”[1].
2. É com essa arrojada convicção que S. Lucas, no contexto da terceira geração do movimento cristão, perante um mundo duplamente hostil, escreve uma engenhosa apologia da Igreja que julgava capaz de integrar a unidade e a diversidade, Pedro e Paulo, a comunidade cristã de Jerusalém, as comunidades helenistas e as de origem gentia. Mais ainda, num mundo social e politicamente adverso, a sua apologia procura mostrar que o movimento cristão não era uma superstição, como alguns diziam, mas uma religião respeitável, capaz de integrar e superar tudo o que havia de bom no judaísmo e no paganismo.
Para o exegeta Senén Vidal[2], Lucas arredonda a história. Existem indicações de que o movimento cristão não começou apenas em Jerusalém, mas em diversos lugares da Palestina e noutras regiões vizinhas, alcançando rapidamente as grandes cidades da bacia do Mediterrâneo. Seja como fôr, uma das razões da dispersão dos cristãos da corrente mais aberta ao mundo gentio foi, sem dúvida, a hostilidade encontrada entre os judeus da Palestina.
Importa, no entanto, não simplificar um fenómeno complexo dos começos do cristianismo. Não se devem confundir as atitudes dos cristãos jerusalemitanos, a que Paulo chama falsos irmãos, com as dos dirigentes da comunidade e nem a de Pedro era igual à de Tiago e seus seguidores[3]. Não se pode esquecer que existiam tensões e conflitos, inclusivamente nas próprias comunidades paulinas. Além disso, os cristãos das tradições utilizadas pelo IV Evangelho (S. João) não encaixam em nenhuma das correntes já referidas.
3. A memória desse passado – naquele tempo – é insubstituível. Mas poderemos viver apenas na interpretação dessa memória?     
Precisamos de elaborar novas narrativas para as experiências novas da fé cristã! Não bastam os habituais boletins das paróquias e os chamados Encontros de Formação, nem os discursos teóricos sobre a Teologia Narrativa. Que processos concretos importa desencadear, nas paróquias e nos movimentos, desde a infância e em todas as idades, seja em que mundo for, para criar um clima cultural que ajude a fomentar, em todas as formas de linguagem simbólica, estilos novos para a expressão da fé?
Não se pode exigir a todos os catequistas, a todos os pregadores, padres e bispos, que tenham as atitudes, as palavras, os gestos, o humor e a misericórdia do Papa Francisco. Mas não é obrigatório servir-se da liturgia para ser aborrecido.

PS: Mário Soares declarava-se republicano, laico, socialista e agnóstico. Confessava que não tinha recebido a graça da fé. Não se cansava de dizer que o seu pai foi sempre um fervoroso católico. Cultivou amizade por alguns cardeais, bispos, padres e frades. A sua grande admiração pelo Papa Francisco levava-o a lamentar não ver, em Portugal, mais seguidores.
15. 01. 2017

in jornal Público

[1] Cf. Act 4,12-31.
[2] Hechos de los Apóstoles y orígenes cristianos, Sal Terrae, Santander 2015, pp. 167-169.
[3] Gal, 2,1-14