terça-feira, 11 de abril de 2017

A BÍBLIA EM PRAÇA PÚBLICA


        Frei Bento Domingues O.P.

1. Como escreveu, em 2016, o Prof. José Augusto Ramos, o universo cultural, editorial, científico e académico português foi recentemente presenteado com o aparecimento do primeiro volume de uma tradução da Bíblia grega, conceito que nos tem  sido estranho, desde há muitos séculos[1]. Este ano, nos finais de Março, Frederico Lourenço inundou todas as livrarias com o segundo volume da tradução da Bíblia grega, o Novo Testamento completo, escrito há quase 2000, cujo original é irrecuperável. Esta tradução está baseada no texto fixado por Nestle-Aland[2].
Para F. Lourenço, a leitura comparativa dos evangelhos canónicos e dos restos que nos chegaram dos apócrifos não deixa qualquer dúvida quanto à imprescindibilidade de Marcos, Mateus, Lucas e João, talvez os livros mais extraordinários da História da Humanidade.
 Um padre, espantado com este fenómeno, perguntou-me: mas esse tradutor é padre? Quando lhe respondi que não era padre nem ex-padre, não era católico nem protestante e que neste trabalho prescinde, metodologicamente, de pressupostos religiosos, mostrou-se desconfiado. Aí há gato!
O que há, de facto, é talento, competência e muito trabalho. Convidei esse clérigo apreensivo a ler o currículo do tradutor que vem nas capas de ambos os volumes e acrescentei o meu pressentimento: com esta aparição, Frederico Lourenço e os responsáveis da Quetzal Editores vão alterar o clima cultural da Bíblia, no nosso país. Não esperam canonizações, mas merecem avaliações críticas competentes[3].
Pensar que o estudo da Bíblia e as suas traduções só merecem confiança, se forem obra de clérigos e de editoras católicas submetidos ao Imprimatur episcopal, é supor que a Bíblia é propriedade privada de empresas confessionais. Que os responsáveis das comunidades católicas zelem pela formação bíblica dos seus membros e pelas expressões da fé cristã é o mínimo que se lhes pode pedir. Infelizmente, nem sempre cumprem esta missão.
Ninguém tem o monopólio da Bíblia e só há vantagens em que seja reconhecida e trabalhada como o Livro dos livros, a expressão das raízes judeo-cristãs da civilização ocidental. Há muito a fazer para se tornar parte activa da cultura portuguesa, nas suas diversas expressões. Criticam-se, e com razão, as correntes sociais, políticas e culturais que desejam fechar as religiões nas respectivas sacristias. Mas seria lamentável que as sacristias amuassem ao ver essa literatura religiosa estudada e debatida com toda a liberdade, no espaço público.
Herculano Alves reuniu, numa obra muito útil, os Documentos da Igreja sobre a Bíblia, desde o ano 160 a 2010[4]. No começo deste ano, foi lançado pela Biblioteca Dominicana o testemunho incontornável de Marie-Joseph Lagrange, O.P., sobre os tormentos que sofreu do Vaticano e das invejas eclesiásticas organizadas para impedir as inovadoras investigações e publicações científicas da Escola Bíblica de Jerusalém, nos finais do século XIX e nos primeiros 30 anos do século XX[5]. Quem comparar a miséria cultural dessa situação com o documento da Comissão Pontifícia Bíblica, de 15 de Abril de 1993[6], pode ter a impressão de que não pertencem à mesma Igreja.
Não reconhecer a importância de colocar a Bíblia no espaço público, segundo as exigências culturais do nosso tempo, só pode alimentar a suspeita de que a razão crítica é inimiga da religião, das suas linguagens e das suas práticas.
2. O projecto de Frederico Lourenço, assumido pela Quetzal, não se limita a uma nova tradução do Novo Testamento, do qual já existem várias, de diversos estilos, mas à tradução de toda a Bíblia Grega, judaica e cristã. A Bíblia judaica e a Bíblia hebraica não se identificam, como se a grega não fosse, também, judaica. A Grega, designada como Septuaginta (LXX), é a primeira tradução da Bíblia[7] e o seu nome designa a tradução da Torah hebraica para o grego, realizada em Alexandria durante o reinado de Ptolomeu II (285-246 a.C).
Segundo a lenda, setenta sábios de Jerusalém, conhecedores do hebraico e do grego, partiram para Alexandria, cidade com grande população judaica, mas onde se falava sobretudo o grego. Cada um tinha o seu quarto particular e a obrigação de traduzir as Escrituras. Começaram todos ao mesmo tempo e terminaram todos ao fim de setenta dias. Ao conferi-las, verificaram que todos tinham traduzido da mesma maneira. Para lenda e milagre não está mal.
A dita versão constituiu um acontecimento cultural sem precedentes e a iniciativa literária mais importante para os anais da civilização. Pela primeira vez, a sabedoria de Israel passava de uma língua semita para outra indo-europeia e, por aí, ao mundo ocidental.
3. Quando, séculos mais tarde, a LXX foi adoptada pelas primeiras comunidades cristãs, como a Bíblia oficial, acompanhou a expansão do cristianismo, tanto no Oriente como no Ocidente.
A partir do séc. V d. C., a LXX foi destronada, no Ocidente, pela tradução de S. Jerónimo para latim, denominada a Vulgata. Esta versão dominou a cultura ocidental durante a Idade Média. Foi declarada como autêntica, isto é, fiável em matéria de fé e costumes, pelo Concílio de Trento (1546). Na Igreja Ortodoxa, a Bíblia grega manteve-se como Bíblia oficial ou canónica até aos nossos dias.
Outro foi o rumo das traduções da Bíblia na Reforma. Espero que, entre nós, o nome de Lutero tenha deixado de ser considerado um insulto.
09.04.2017

in Público

[1] Cadmo 25 (2016) 101-113. Cf. também de José Augusto Ramos, Traduções Portuguesas da Bíblia Transversalidades Linguístico-Culturais em Tarefas de Hoje, GAUDIUM SCIENDI, Nº 3, JANEIRO 2012, pp 124-146
[2] Entre 1898 e 2012 atingiu 28 edições.
[3]  Cf. José Augusto Ramos (Cadmo 25 (2016) 101-113); Isaías Hipólito (Brotéria 184 (2017) 205-225.
[4] Documentos da Igreja sobre a Bíblia (160-2010), Difusora Bíblica, 2011.
[5] Marie-Joseph Lagrange, O.P., Recordações Pessoais. O Padre Lagrange ao serviço da Bíblia, Biblioteca Dominicana, Coimbra, Tenacitas, 2017.
[6] A Interpretação da Bíblia na Igreja, S. G. E., Rei dos Livros, 1994.
[7] Cf. Natalio Fernández Marcos, Septuaginta. La Biblia griega de judíos y cristianos,Sígueme, Salamanca 2008.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

INOVAR OU REPETIR?


                       Frei Bento Domingues, O.P.

1. Segundo a teologia católica mais corrente, os sacramentos cristãos não são de anjos nem para anjos. A Irmã Lúcia, nas suas Memórias, abalou essa opinião. Contou que, entre Abril e Outubro de 1916, já tinha aparecido um anjo aos três pastorinhos, por três vezes, convidando-os à oração e à penitência. Identificou-se como o “Anjo da Paz, o Anjo de Portugal”. Apresentou-se como ministro da comunhão eucarística sob as duas espécies. Não disse onde as teria ido arranjar.
À distância de um século, é uma poderosa narrativa surrealista, indiferente à disciplina romana, de então, sobre a Eucaristia. Ver aí uma precoce antecipação portuguesa do Concílio Vaticano II que, em 1916, ainda ninguém podia prever, condiz bem com a nossa imaginação delirante, compensatória da frustração de não termos contado para nada no maior acontecimento da Igreja Católica do séc. XX.
Com anjos ou sem anjos, os sacramentos movem-se sempre no mundo simbólico que só fala à inteligência a partir dos sentidos mergulhados nas realidades terrestres mais elementares. Ao se tornarem manifestações rituais e litúrgicas exprimem, em gestos e palavras, a identidade partilhada da fé e a sua transmissão. É a fé subjectiva e manifestada que constitui a alma e o motor de todas as formas da ritualidade cristã. Por tudo isso, petrificar os ritos, considerá-los estáticos e imutáveis é trair a condição incarnacionista do cristianismo. Ritualidade e criatividade não se excluem, exigem-se mutuamente. As celebrações litúrgicas que se limitam, ano após ano, a reproduzir um ritual fixo, tornam-se ritos de sepulcros vazios. Como escreveu S. Tomás de Aquino, a graça não substitui a natureza, não evapora o tempo, a mudança. 
Por enquanto, – aproxima-se a era do pós-humano! - os rituais têm a sua raiz na condição corporal do ser humano e, portanto, na sua composição biogenética, ecológica – natural e cultural – e bio psíquica.[1]

Existem em qualquer sociedade, não são um exclusivo das religiões nem a sua eficácia simbólica está reduzida aos sacramentos cristãos. Não esgotam a liberdade de Deus nem a presença de Cristo na vida humana. Somos nós que precisamos de celebrar a fé, na transformação da nossa história, para nos darmos conta de que o Espírito de Deus actua onde quer, quando quer e como quer, sem nos consultar, mas com gosto de nos associar à sua criatividade. Os gestos e as palavras da liturgia não caíram do céu. No seguimento de Cristo, são responsabilidade de toda a Igreja para estabelecer um vai-e-vem contínuo entre a complexidade da vida pessoal, familiar, profissional, cultural, política e o tempo dedicado à festa da sua reconversão permanente, metamorfose pascal.
Neste sentido, as expressões litúrgicas da Quaresma, têm de evitar dois extremos: não cair no contínuo improviso – algo desumano – nem se reduzirem à eterna repetição do mesmo. As simples exortações moralistas à oração, ao jejum e à esmola não bastam para criar uma nova consciência das nossas alienações nem provocam movimentos de transformação significativa na sociedade e na Igreja.
2. Já me perguntaram, várias vezes, se o pedido de Jesus Cristo, na chamada Última Ceia, repetido em todas as missas – Fazei isto em memória de Mim –, não seria a manifestação de uma grande solidão, de pouca confiança nos discípulos ou até de um certo narcisismo, como o dos grandes líderes ou pessoas ilustres que desejam uma estátua, o nome numa rua ou numa praça?
Se a expressão Fazei isto em memória de Mim manifestasse Jesus preocupado com ele próprio, com o seu futuro na memória do mundo, estaria a renegar-se e em contradição aberta com o que foi o testemunho da sua vida. O que nesse testemunho é indelével é, precisamente, a despreocupação com ele mesmo. A sua causa era o reino de Deus, como alegria do ser humano. Segundo os Actos dos Apóstolos, passou a vida fazendo o bem. Nunca andou a tratar de interesses pessoais, mas da vida que tinha sido negada aos doentes, aos excluídos da sociedade e da religião.
Na noite em que foi traído, deixou aos discípulos o encargo que deve ser o de toda a Igreja e para sempre: não atraiçoeis o que procurámos viver juntos em função do mundo inteiro, a partir dos mais ofendidos.
3. Um belo poema de Eugénio de Andrade termina assim: Eu sei: tu querias durar. / (…) Paciência, querido, também Mozart morreu./ Só a morte é imortal.
O tema deste Domingo é a ressurreição de Lázaro[ii]. A longa narrativa do quarto Evangelho mostra, pelo contrário, que também a morte é mortal. Diante do túmulo, Jesus gritou em voz alta: Lázaro sai cá para fora! O morto saiu, com os pés e as mãos enfaixados e o rosto recoberto por um sudário. Jesus disse-lhes: Desatai-o e deixai-o andar.
Surge, aqui, um novo paradoxo: a partir desse dia, o Sinédrio resolveu matar Jesus, que teve de passar à clandestinidade. Os sumos sacerdotes e os fariseus tinham, por isso, ordenado que quem soubesse onde Jesus estava, o indicasse, para que o prendessem.
O Sumo Sacerdote daquele ano tinha encerrado toda a discussão com a sentença radical: acaba-se com esse homem e fica salva a nação. Sem querer, comenta o narrador, Caifaz “ profetizou que Jesus iria morrer pela nação – e não só pela nação, mas também para congregar, na unidade, todos os filhos de Deus dispersos.”
Temos, aqui, uma extraordinária descrição do sentido universal da missão de Jesus Cristo: fazer da vida um dom ao mundo, sem restrições.
Resta a questão que junta os paradoxos da vida e da morte, aos quais nem Jesus escapou e que talvez possa ser formulada assim: qual deve ser hoje o papel inovador dos discípulos de Cristo, de toda a Igreja, de cada um de nós na reunião dos filhos de Deus que se ignoram ou guerreiam por causa da dominação política, económica, étnica, cultural e religiosa?
Conformar-se com o estado actual do mundo é a grande traição que diariamente nos tenta. A resignação é o nosso pecado.
A Quaresma ainda não acabou.

Lisboa, 02.04.2017



[1] Cf. Eddward Schillebeeckx OP, L’économie sacramentelle du salut, Academic Press Fribourg, 2004, pp. 545-573.
[ii] Jo 11, 1-54

Aniversários em Abril


Durante este mês celebram o seu aniversário os
nossos Amigos
NOME                                                                 Dia
  Álvaro Antunes Rodrigues                                              3
  Jose Augusto Fernandes Torres                                       5
  Joaquim Silva Moreno                                                    7
  Dinis dos Santos Rodrigues                                             7
  Joaquim Ambrósio Vieira Ribeiro                                        8
  Manuel Joaquim da Silva Leopoldo                                     8
  Artur da Silva Cristóvão                                                  9
  Eduardo Jorge M. Carmo                                               13
  Angelo Costa Carvalho                                                 14
  António Augusto Brízido                                                21
  Frei Mateus Peres                                                       23
  Manuel Rufino                                                            28
  José Agostinho Rodrigues                                             30
Para todos os nossos parabéns e os votos de um futuro cheio de 

Bençãos de Deus.

domingo, 26 de março de 2017

UMA DISCUSSÃO BRAVA SOBRE A CEGUEIRA

                               Frei Bento Domingues, O.P.

 1. Já fui solicitado, várias vezes, para acompanhar peregrinações à Terra Santa. Nunca me foi possível e nunca fiquei com muita pena. Não me desagradaria ter os olhos povoados com esses lugares. Até teria algumas vantagens para ler os Evangelhos e conhecer a geografia das viagens missionárias de S. Paulo. Não tenho nada contra o chamado ”turismo religioso” e os seus negócios. Negócio é negócio e pode dar trabalho honesto a muita gente.
Confesso que a minha branda alergia resulta da própria leitura dos atrevidos textos do Novo Testamento acerca do culto, dos seus tempos e lugares sacralizados.  
No passado Domingo, S. João não deixou escapar absolutamente nada[i]. Desvalorizou, de forma radical, a importância dos templos: o de Jerusalém, dos judeus, e o de Garizim, dos samaritanos. A água do poço do patriarca Jacob não tem mais virtudes do que qualquer outra água. A razão teológica que Jesus apresenta não deixa margem para qualquer deriva: “Está a chegar a hora – e é agora – em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade. São estes adoradores que o Pai procura. Deus é espírito. Os que o adoram têm de o adorar em espírito e verdade”.
A samaritana ficou muito espantada com esta desenvoltura de um judeu que se sentia bem a conversar com ela, a herética e, aparentemente, sem se importar muito com a sua abundância de maridos. Percebeu que estava ali alguém que via o mundo às avessas. Para ela era um profeta de tempos novos.
Ficou completamente seduzida. Deixou o seu cântaro e foi à cidade dizer às pessoas: vinde ver um homem que me disse tudo quanto eu fiz! Não será ele o Cristo? Saíram da cidade e foram confirmar.
Aqui, o narrador introduz um parêntesis. Os discípulos, que tinham ido comprar alimentos, não perceberam nada do que se estava a passar e não viram com bons olhos o Mestre a conversar, a sós, com uma mulher e, para mais, samaritana. A situação era duvidosa para o bom nome de ambos.
O Mestre, muito cansado, não mostrou interesse nenhum pelo almoço, o que levantou suspeitas aos discípulos. De facto, Cristo já estava noutro horizonte. Naquele encontro que os discípulos não perceberam, viu a revelação de um Deus que não é só para um povo escolhido: levantai os olhos e vede os campos como já estão maduros para a ceifa e os discípulos iriam ter a alegria de colher o que outros semearam.
Para os costumes da época, era estranho que os samaritanos se deixassem conduzir por uma mulher. Ficaram tão entusiasmados com o encontro que ela lhes proporcionou que pediram ao hóspede para ficar com eles. No final desabafaram com a samaritana: “ já não é pelas tuas palavras que acreditamos; nós próprios ouvimos e sabemos que este é verdadeiramente o salvador do mundo”.
É a primeira vez que esta declaração aparece no Evangelho de João. Nós somos herdeiros de uma fórmula que, por mau uso de séculos, parece gasta. No entanto, foi na Samaria que Jesus saltou o muro que separa os salvos dos perdidos, os bons dos maus, os de Deus e os do maligno. De uma fronteira de inimizade, entre judeus e samaritanos, fez um só mundo, salvo do ódio e do desprezo.
2. Para este Domingo foi escolhida a narrativa da cura de um cego de nascença[ii]. É uma controvérsia muito longa, muito estúpida e muito cega. Tentaremos, depois, mostrar a sua actualidade. Antes, importa ver o ridículo. Jesus, ao passar, viu um homem cego de nascença. Os seus discípulos reproduziram a ignorância generalizada: Rabi, quem pecou, ele ou os seus pais para que nascesse cego? Jesus não tinha resposta para uma questão idiota. Tudo era visto como prémio ou castigo. Quem estava bem, era amado de Deus, quem estava mal é porque tinha feito algum pecado, o próprio ou alguém da sua família. Não havia lugar para qualquer interrogação para além desta moral.
Jesus não entrou nessa teologia barata, pois, se existe um mal, só damos glória a Deus tentando libertar a pessoa dessa situação. Foi o que Jesus fez de forma pouco ortodoxa, quanto ao método e quanto ao dia. O método não foi discutido. O azar foi o ter posto a ver um cego de nascença ao Sábado! Não era a primeira vez que Jesus se metia em sarilhos por violar esse dia sacratíssimo, reservado à glória de Deus, mesmo contra a felicidade humana. Que o homem continuasse cego, o problema era dele, azar, agora violar o Sábado era cometer um crime contra a melhor das religiões, que até colocava Deus a descansar ao Sábado!
Deixemos aos judeus lidar, à vontade, com esses preceitos religiosos. Seria lastimável pretender imiscuir-se nas suas convicções. No Evangelho de S. João esses preceitos, como acontece nesta narrativa, não servem a libertação humana. Jesus disse, de muitas maneiras e, por vezes, à letra e ao espírito, que o Sábado é para o ser humano e não o ser humano para o Sábado. Era a derrota do fundamentalismo religioso, não só do seu tempo, mas de todos os tempos e para todos os tempos, seja qual for a religião, sejam quais forem as suas mediações. Cego será quem não quiser ver isto.
3. Porque teimar em ler na missa uma discussão tão azeda sobre a cegueira que pode invadir o culto? É porque esta questão é também uma questão da Igreja. Actualíssima. Andam por aí algumas pessoas e movimentos a dizer que este Papa, por querer alterar preceitos desumanos, coloridos de falsa religião, é herético. O Direito Canónico não pode pretender que os fiéis existam para o observar. É o Direito Canónico para os fiéis ou são os fiéis para o Direito Canónico?
Isto não acontece só na Igreja e nas religiões. Ao longo dos séculos, foram realizadas grandiosas revoluções científicas, técnicas e políticas. As políticas e todas as outras esqueceram que lhes incumbe a vocação e o dever de usar os seus poderes, não para dominar, mas para servir a humanização da vida de todos. Quando estão ao serviço de desígnios de dominação, perdem-nos, não nos salvam. 

26.03.2017

IN "Público"


[i] Jo 4, 1 - 46
[ii] Jo 9, 1 - 41

segunda-feira, 20 de março de 2017

NÃO REZEM COMO OS GENTIOS


                                            Frei Bento Domingues, O.P.
1. Dizem-me que, hoje, no campo religioso, a espiritualidade é a sua expressão mais chique e o esoterismo, a mais democrática pela numerosa oferta de expedientes, sem os aborrecidos mandamentos das religiões.
Há espiritualidades para tudo e mais alguma coisa. Cada uma das ordens e congregações religiosas reclamam-se de uma espiritualidade original, marca da sua identidade. Os diferentes movimentos do laicado católico alargaram esse pluralismo ao apresentar e justificar os seus caminhos e mediações pretensamente inconfundíveis.
Redescobriu-se, no diálogo inter-religioso, que o divino Espírito não é propriedade privada de ninguém. Existem movimentos agnósticos e ateus que se reclamam de uma profunda sabedoria espiritual. Mas ficava sempre alguma coisa de fora. A chamada espiritualidade holística é tão abrangente que nela há lugar para tudo.
O todo é inabarcável e, como diz o Novo Testamento, o Espírito sopra quando e onde quer, sem pedir licença a ninguém, resistindo a ser domesticado. As classificações humanas dos carismas não podem impedir, no seu catálogo, a espiritualidade dos insatisfeitos.
2. Jesus Cristo não pertencia à tribo sacerdotal. Era um leigo bastante sóbrio no tocante a expressões cultuais. Detestava o exibicionismo da religião do seu tempo e do seu meio. Os seus discípulos não percebiam as razões da sua discrição. Segundo S. Lucas, até se queixavam de serem um grupo sem livro de orações: Senhor, ensina-nos a orar, como João ensinou os seus discípulos[i].
O anti exibicionismo do Nazareno era radical: «Quando orardes, não sejais como os hipócritas. Eles gostam de fazer orações pondo-se em pé nas sinagogas e nas esquinas, a fim de serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Mas tu, quando orares, entra no teu quarto e, fechando a porta, ora ao teu Pai ocultamente e o teu Pai, que vê o que está oculto, te recompensará[ii]».    
Na mesma passagem, S. Mateus destaca que o Mestre não quer nada com os moinhos de orações. São os gentios que insistem na vã repetição, porque entendem que é pelo palavreado excessivo que serão ouvidos. O vosso Pai sabe do que precisais antes de lho pedirdes.
A verdade da religião perde-se no vício do ruído e ganha-se no silêncio da escuta persistente.
Não terá S. Lucas corrigido a extrema sobriedade de S. Mateus? Não me parece. Com pequenas diferenças, o Pai Nosso – resumo das grandes linhas e preocupações do Evangelho – é comum aos dois escritores. S. Lucas elabora, de facto, uma pedagogia completamente diferente. Criou uma parábola que parece dizer o contrário de Mateus. Serve-se da experiência do que muitas vezes acontece: só com muita insistência e aborrecida repetição se obtém resposta a um pedido incómodo.
A narrativa pode dar a ideia de que Deus é surdo, que não está para se incomodar, insensível à urgência de uma pessoa aflita. Mas a parábola é, simplesmente, astuciosa. Dá um salto: a insistência na oração é fundamental, não para informar a Deus nem para o convencer, mas para nos convencermos da dificuldade que temos em nos abrirmos ao seu desígnio que é infinitamente melhor, para nós, do que os nossos cálculos mesquinhos. Precisamos de muita insistência para converter o nosso desejo ao desejo amante de Deus. Precisamos de entrar na sua onda, na onda do seu espírito. Tudo o que se faz, em religião, é apenas para conseguir uma abertura que nos torne disponíveis para as exigências do Evangelho, segundo o Espírito de Deus.
Neste sentido, podemos dizer que Jesus Cristo era um grande espiritual. O caminho e o baptismo de João serviram, apenas, para lhe mostrar que aquele não podia ser o seu caminho, nem aqueles banhos rituais e moralistas podiam trazer o Reino de Deus. Contam os evangelhos que ele entrou em oração – abertura da terra ao céu – e teve a experiência mística do dom do Espírito Santo. Foi uma divina declaração de puro amor, mostrando que não é do céu que poderá vir a condenação da terra[iii].
3. As Igrejas cristãs, ao longo dos séculos, encarregaram-se de contrariar a sobriedade e o anti exibicionismo religioso de Jesus Cristo. Com ritos e ritmos diferentes, com música ou sem música, encheram livros e livros com orações para todas as horas, para todos os lugares e circunstâncias, a propósito e a despropósito.
Conheço muitas colecções de livros com as melhores e piores orações do mundo, com santos especializados, sempre de serviço, para todas as aflições e ocasiões, para todos os objectos perdidos e acções de graças para os casos bem sucedidos.
Sempre me pediram para não me rir, mesmo das expressões mais ridículas da religiosidade e da superstição. Diziam: se isso ajudar as pessoas a viver, a superar o desespero e a depressão, talvez não sejam mais prejudiciais do que o recurso permanente às farmácias e pode ficar mais barato.
A oração exprime a condição humana, na sua verdade mais pura: o nosso limite e o desejo ilimitado de felicidade. Elevar a Deus o nosso pedido de socorro ou de acção de graças revela, para o crente, uma atitude saudável. Significa que acreditamos que não estamos sós, mas seria grossa asneira supor que Deus é o substituto da investigação científica, da organização do Estado, do bom funcionamento do ensino, do serviço nacional de saúde, de hospitais de qualidade, do funcionamento da Justiça, da solidariedade, etc. Jesus Cristo fez muitas curas e até andou sobre as águas do mar, mas não deixou a receita. Os seus gestos dizem que o mundo não tem de ser uma desgraça, mas somos nós os encarregados de cuidar da casa comum, habitável e bela.
Deus não é tudo. A ideia de mundo criado supõe um mundo limitado e falível. Não vale a pena discutir se Deus não podia criar um mundo perfeito. Seria uma absurda réplica de Deus, Deus repetido.
A oração ajuda a reconhecer a verdade da nossa condição humana limitada, aberta à transcendência absoluta do Amor que nos pergunta: Que fizeste do teu irmão?
19. 03. 2017

in "Público"

[i] Lc 11,1-13
[ii] Mt 6, 5-13
[iii] Lc 3, 21-22 //

terça-feira, 7 de março de 2017

FÁ TIMA DÁ PARA TUDO (3)


                         Frei Bento Domingues, O.P.

1. Fátima pode dar para tudo, mas não dá para todos! Mesmo a preços loucos, já é impossível arranjar onde dormir de 12 para 13, do próximo mês de Maio. Um antigo colega da Escola Apostólica telefonou-me indignado com esse tipo de observações: um verdadeiro peregrino não vai a Fátima para dormir. Vai para se sacrificar e rezar. Penitência e oração é o programa que os pastorinhos transmitiram, como pedidos de Nossa Senhora. Lembrou-me ainda como também ele e eu, pelos finais dos anos 40 do século passado, aguentamos várias vezes, ao relento, com um cobertor, a noite fria de 12 para 13. Quem é capaz de fazer centenas de quilómetros a pé também pode substituir alguns por uma noite ao relento. Agora, comercializada e aburguesada, tem de seguir a prática da lei da oferta e da procura. O turismo religioso é um negócio muito antigo no qual o substantivo e o adjectivo se ajudam numa tensão fecunda. É sabido que Jesus Cristo não gostava nada desse comércio. Os quatro evangelistas narram, por esse motivo, a sua indignação no átrio do Templo de Jerusalém: “Estava próxima a Páscoa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém. Encontrou no templo os vendedores de bois, ovelhas e pombas, e os cambistas nos seus postos. Então, fazendo um chicote de cordas, expulsou-os a todos do templo com as ovelhas e os bois; espalhou as moedas dos cambistas pelo chão e derrubou-lhes as mesas;  aos que vendiam pombas, disse-lhes: Tirai isso daqui. Não façais da Casa de meu Pai uma feira[i].
O meu confrade, Frei Henrique Urbano, professor de sociologia e antropologia numa universidade do Canadá e cofundador do Centro Bartolomeu de Las Casas, de Cusco, e um dos maiores investigadores da cultura Inca, morreu em Lima, em 2014. Fui seu colega no Studium Sedes Sapientiae, em Fátima, nos anos 50 do século passado. Tudo o que acontecia nas visitas ao Santuário e arredores alimentava o seu inesgotável humor, como vitória do riso sobre a estupidez. Numa das últimas passagens por Fátima repetia-me: o fenómeno da Cova da Iria é radicalmente antimarxista. Alí, a superestrutura criou todas as infraestruturas. Foi a crença, a ideologia religiosa, que criou uma cidade próspera, não só pela abundância de presenças religiosas permanentes, mas também com uma rede hoteleira importante no centro do país. Acolhe o religioso e o profano para congressos, reuniões, celebrações de todo o género. Para lá se dirigem, todos os anos, milhões de crentes e curiosos, vindos de todo o mundo.
2. Dos acontecimentos de 1917 sabemos o que é atribuído aos pastorinhos de Aljustrel. Só a Lúcia escreveu as suas memórias, tardias, em relação aos acontecimentos. Nada de especial. É sempre assim. O que espanta é a mediocridade das hermenêuticas desse fenómeno. Cansam. Quando pretendem teologizar ainda aumentam mais o aborrecimento. António Marujo e Rui Paulo da Cruz deram-se ao trabalho de elaborar uma obra diferente. Poderia chamar-lhe os heterónimos de Fátima[ii]. Porquê? Recolhem testemunhos dos documentos das aparições, estudos sobre o contexto dos conflitos entre a República e católicos, a pluralidade de leituras na Igreja Católica, diversas leituras da antropologia e da sociologia religiosa, voltam ao fenómeno das aparições e à beatificação dos pastorinhos, interrogam-se sobre a actualidade de Fátima, 100 anos depois.
Tudo isto poderiam ser, apenas, capítulos de um livro bem planeado.
Seria mais ou menos do mesmo. Mas não. Todos os temas são a várias vozes, bem identificadas, sem contaminações, mas também não são, apenas, vozes justapostas, de costas umas para as outras. A Senhora de Maio espera cumprir o que a escritora Lídia Jorge nela descobriu: “Oxalá este livro […] possa abrir o capítulo de uma discussão que convém ser serena na forma, mas não poderá evitar a contradição, o debate e o confronto aberto das ideias em face da crença. Debate que sempre ultrapassa os níveis da razão e da ciência – mas não os ignora -, esse patamar de confronto delicado tão difícil de alcançar em Portugal[iii]”.
Não posso saber como os entrevistados e os leitores vão reagir à reunião de tantas vozes tão diferentes. Pelo meu lado, só posso agradecer aos autores a fidelidade com que reproduziram o meu longo depoimento, Fátima a várias dimensões, de Janeiro de 2000. É, ainda hoje, o texto em que me reconheço plenamente.
3. Como já aqui escrevi, não pretendo saber o que o Papa Francisco virá dizer a Fátima. Importa, porém, estar atento às últimas disposições deste peregrino. Referindo-se às religiosas e religiosos – tão inflacionados em Fátima - pediu-lhes para não cederem à tentação da sobrevivência da vida consagrada e das suas instituições. A cedência a essa tentação torna-os estéreis, reaccionários, fechados lenta e silenciosamente, nas suas casas e nos seus esquemas. A tentação da sobrevivência faz-lhes esquecer a graça e transforma-os em profissionais do sagrado, mas não em pais, mães e irmãos da esperança a que fomos chamados, a profetizar[iv].
Bergoglio, por ocasião do número 4000 da revista Civiltà Cattolica, recebeu os padres jesuítas que nela trabalham e fez-lhes recomendações bem estimulantes. Quis sublinhar três palavras para irem em frente: desassossego, incompletude, imaginação. Não podendo explicitar a mensagem de cada uma delas, destaco, como ele próprio diz: a primeira palavra é Desassossego. Faço-vos uma pergunta: o vosso coração conservou o desassossego da busca? Só o desassossego dá paz ao coração de um jesuíta. Sem desassossego somos estéreis. Se quiserdes habitar pontes e fronteiras deveis ter uma mente e um coração desassossegados. Por vezes confunde-se a segurança da doutrina com a suspeita pela busca. Não seja assim para vós. Os valores e as tradições cristãs não são peças raras para fechar nos cofres de um museu. A certeza da fé seja, ao contrário, o motor da vossa busca[v].
Isto não é só para os jesuítas.

in Jornal PÙBLICO


[i] João 2, 14-16
[ii] A Senhora de Maio. Todas as perguntas sobre Fátima. Temas e Debates, Lisboa, 2017.
[iii] Cf. Prefácio
[iv] Cf L’Osservatore Romano, 09.02.17
[v] Cf L’Osservatore Romano, 16.02.17

FALECEU A MÃE DO FR. MATIAS OP

Acabei de receber uma mensagem do Frei Matias dizendo que a sua mãe falecera quase de  repente, e o funeral foi ontem. Já lhe mandei uma mensagem pelo telefone.
Em meu nome, e em nome de todos os irmãos da província e Vicariato de Angola, apresentamos ao Frei Matias e aos seus familiares, as nossas condolências. Estamos juntos, na oração e na solidariedade.
Matias um abraço para ti e família. Conta sempre connosco.

Fr. Pedro