terça-feira, 17 de janeiro de 2017

UNIVERSALISMO CRISTÃO (II) Fr. Bento Domingues OP



1. Têm razão os teólogos que se empenham em sublinhar que o cristianismo não é, fundamentalmente, uma religião do Livro, como dizem que são, por exemplo, o Judaísmo e o Islão. É, na sua essência, a graça do seguimento de Jesus Cristo como caminho, verdade e vida, fonte de sentido, de beleza e responsabilidade pelos mais abandonados. Para interpretar esse acontecimento profético, os cristãos recorreram, desde o princípio, à chamada biblioteca do Antigo Testamento. A partir dela, criaram outra que narra e interpreta a inesgotável beleza de Jesus Cristo. Chama-se o Novo Testamento, a grande escrita da inovação da vida.
O chamado Novo Testamento, com dois mil anos em cima, não estará também ele já muito velho e ultrapassado? Vamos por partes.
Por essa e outras razões, vou manter o título do texto do Domingo passado – Domingo da Epifania, dos Reis Magos – clausura do ciclo litúrgico do Natal. O cristianismo é, de raiz, universal. Pode ser traído.
Seguindo um género literário identificável, S. Mateus construiu, com velhos materiais, a narrativa da viagem destas enigmáticas figuras, mostrando que já não era em Jerusalém que se podia encontrar a salvação. O Messias, sem poder, sem pompa e sem forças armadas, nasceu para todos, na periferia. Essa significação universal era dada ainda no espaço religioso judaico. Não referi o grande salto teológico de S. Paulo da Carta aos Efésios, recolhida na segunda leitura da mesma celebração universalista: ”os gentios recebem a mesma graça que os judeus, pertencem ao mesmo corpo e participam da mesma promessa, em Cristo Jesus, por meio do Evangelho”.
Não será essa uma questão já ultrapassada? Talvez sim e talvez não. Não passo adiante sem voltar mais atrás. As narrativas notáveis de S. Lucas, em dois volumes, de cristologia e eclesiologia, oferecem referências históricas e geográficas ao processo de universalização do cristianismo que importa destacar e talvez nos possam ajudar no presente.
S. Mateus partiu de Abraão para falar da origem de Jesus Cristo. S. Lucas, ao recuar a genealogia de Jesus até Adão, sublinhava que Ele assumiu o passado de toda a humanidade. Ampliou essa convicção nos Actos dos Apóstolos. Jesus, o judeu, não assumiu apenas o passado, mas também o presente e o futuro da humanização cósmica e divina da História. A coligação de Herodes e Pôncio Pilatos, com as nações gentias e os povos de Israel contra Jesus, não só não o derrotou como até provocou uma ideia perigosa, que alguns julgam, erradamente, totalitária: “não há outro nome dado aos seres humanos pelo qual possam ser salvos”[1].
2. É com essa arrojada convicção que S. Lucas, no contexto da terceira geração do movimento cristão, perante um mundo duplamente hostil, escreve uma engenhosa apologia da Igreja que julgava capaz de integrar a unidade e a diversidade, Pedro e Paulo, a comunidade cristã de Jerusalém, as comunidades helenistas e as de origem gentia. Mais ainda, num mundo social e politicamente adverso, a sua apologia procura mostrar que o movimento cristão não era uma superstição, como alguns diziam, mas uma religião respeitável, capaz de integrar e superar tudo o que havia de bom no judaísmo e no paganismo.
Para o exegeta Senén Vidal[2], Lucas arredonda a história. Existem indicações de que o movimento cristão não começou apenas em Jerusalém, mas em diversos lugares da Palestina e noutras regiões vizinhas, alcançando rapidamente as grandes cidades da bacia do Mediterrâneo. Seja como fôr, uma das razões da dispersão dos cristãos da corrente mais aberta ao mundo gentio foi, sem dúvida, a hostilidade encontrada entre os judeus da Palestina.
Importa, no entanto, não simplificar um fenómeno complexo dos começos do cristianismo. Não se devem confundir as atitudes dos cristãos jerusalemitanos, a que Paulo chama falsos irmãos, com as dos dirigentes da comunidade e nem a de Pedro era igual à de Tiago e seus seguidores[3]. Não se pode esquecer que existiam tensões e conflitos, inclusivamente nas próprias comunidades paulinas. Além disso, os cristãos das tradições utilizadas pelo IV Evangelho (S. João) não encaixam em nenhuma das correntes já referidas.
3. A memória desse passado – naquele tempo – é insubstituível. Mas poderemos viver apenas na interpretação dessa memória?     
Precisamos de elaborar novas narrativas para as experiências novas da fé cristã! Não bastam os habituais boletins das paróquias e os chamados Encontros de Formação, nem os discursos teóricos sobre a Teologia Narrativa. Que processos concretos importa desencadear, nas paróquias e nos movimentos, desde a infância e em todas as idades, seja em que mundo for, para criar um clima cultural que ajude a fomentar, em todas as formas de linguagem simbólica, estilos novos para a expressão da fé?
Não se pode exigir a todos os catequistas, a todos os pregadores, padres e bispos, que tenham as atitudes, as palavras, os gestos, o humor e a misericórdia do Papa Francisco. Mas não é obrigatório servir-se da liturgia para ser aborrecido.

PS: Mário Soares declarava-se republicano, laico, socialista e agnóstico. Confessava que não tinha recebido a graça da fé. Não se cansava de dizer que o seu pai foi sempre um fervoroso católico. Cultivou amizade por alguns cardeais, bispos, padres e frades. A sua grande admiração pelo Papa Francisco levava-o a lamentar não ver, em Portugal, mais seguidores.
15. 01. 2017

in jornal Público

[1] Cf. Act 4,12-31.
[2] Hechos de los Apóstoles y orígenes cristianos, Sal Terrae, Santander 2015, pp. 167-169.
[3] Gal, 2,1-14

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

UNIVERSALISMO CRISTÃO (I) - Frei Bento Domingues, O.P.


                   Frei Bento Domingues, O.P.
1. Num grupo de cristãos que se reúnem para estudar as leituras bíblicas da liturgia dominical, assisti a uma divertida discussão. Os textos deste Domingo da Epifania são muito belos, mas o debate recaiu numa pergunta que nem ao menino Jesus podia interessar: os Reis Magos existiram ou não? São personagens da história ou da imaginação? Eram Reis, eram Magos, eram dois, eram três, eram doze? Como poderão ter ido parar à Catedral de Colónia?
A história é contada por S. Mateus[1], um Evangelho para comunidades cristãs de origem judaica. Não fala de Reis, mas de uns Magos que chegaram do Oriente, sem precisar o número. Magos, no sentido actual da palavra, são pessoas que realizam truques de magia. Na Antiguidade, eram os estudiosos de ciências secretas, os sábios e os que investigavam o rumo das estrelas. Cientistas da época!
Olhando, de perto, para esta narrativa nada bate certo com uma história plausível. Nem como fenómeno astronómico, nem como uma convocatória de Herodes aos Sumos Sacerdotes e aos escribas. Por outro lado, como poderia passar despercebida, numa aldeia tão pequena, uma visita de tão célebres personagens, com uma carga de presentes tão impressionante? Como é que o astuto Herodes confia numa história da carochinha?
A. A. Valdés pergunta: quando Jesus, adulto, sai para pregar, ninguém sabe nada disto, nem que Ele é o Messias? Que aconteceu? Houve um ataque geral de amnésia na Palestina?[2]
É melhor ir por outro caminho. Antes de mais, importa ter presente que é preciso mostrar aos judeus cristãos que o que se passou com Jesus já estava previsto na Bíblia. Para se tornar verosímil aos conhecedores das Escrituras eram precisas selecções bem feitas. Hoje, a nós, pode parecer um excessivo e artificial concordismo. Mateus, porém, tinha de escolher o que encaixava melhor com a sua visão messiânica. Ao contar episódios da infância de Cristo, foi buscar narrativas de personagens do Antigo Testamento. Uma das figuras mais admiradas era a do rei Salomão. Gozava de uma sabedoria e inteligência tão extraordinárias que nenhum outro rei teve, nem antes nem depois dele[3]. A sua ciência foi superior não apenas à de todos os outros reis, mas até à de todos os sábios do Oriente. Chegou a compor 3000 parábolas, 1005 poemas e até escreveu tratados de botânica e zoologia!
 O episódio mais famoso e divulgado da vida de Salomão foi a visita da rainha de Sabá. Os judeus contavam-na com grande orgulho. Apresentou-se em Jerusalém uma rainha anónima, vinda de um longínquo país chamado Sabá. Tinha ouvido falar da extraordinária fama do rei israelita. Queria conhecê-lo e admirá-lo pessoalmente. Esta passagem era tão popular e conhecida que o próprio Jesus a citou quando os judeus não queriam acreditar nele: “no dia do juízo (final), a rainha do Sul há-de levantar-se contra esta geração para a condenar, porque veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão. Ora, aqui está alguém maior do que Salomão”[4].
2. Na boa arte de fazer concordar, por antecipação, tem de bater tudo certo: uma rainha anónima viajou para Jerusalém de um país do Oriente. Agora, uns Magos anónimos de um país distante do Oriente puseram-se a caminho de Jerusalém. A rainha era sábia, sábios eram também os Magos. Ela procurava o rei dos israelitas para o admirar. Eles buscavam o rei dos judeus para o adorar. A rainha foi guiada por uma estrela. Os Magos também foram guiados por uma estrela até Belém. A rainha de Sabá, ao chegar, colocou enigmas difíceis de resolver e encontrou as respostas. Os Magos chegaram e colocaram um enigma difícil de resolver e encontraram a resposta. A rainha ofereceu a Salomão os presentes que trazia: ouro, incenso e pedras preciosas. Os Magos ofereceram ao Menino os presentes que lhe trouxeram: ouro, incenso e mirra.
Após admirar Salomão, a rainha regressou ao seu país e desapareceu da história. Depois de adorarem o Menino, os Magos regressaram ao seu país e desapareceram da história.
Os Magos desapareceram da história, mas não da imaginação dos cristãos que, relendo o Salmo 72, os fizeram reis. Mais tarde interessaram-se pelo seu número: de dois passaram a três, de três a quatro e, na Idade Média, chegaram aos doze. No séc. II, Sto Irineu insistiu na simbólica dos presentes: levaram ouro, porque Jesus era rei, incenso porque era Deus e mirra porque era homem.
As viagens das relíquias dos Magos não foram poucas e levaram séculos. Depois de terem nomes próprios - Belchior, Gaspar e Baltasar - e de os imaginarem de raças e cores diferentes - branco, amarelo e negro -morreram na Pérsia. Os restos mortais foram para Jerusalém. No séc. IV foram descobertos por Sta. Helena e transladados para Constantinopla no ano 490. Posteriormente, o imperador Manuel doou-os ao Bispo de Milão que os levou para a sua diocese no início do séc. XII. Por pouco tempo. Frederico Barba-Ruiva saqueou a cidade em 1162 e levou os corpos para Colónia (Alemanha), em cuja Catedral repousam actualmente.
3. Para 2017, a grande tarefa de um cristão, e de todas as pessoas de boa vontade, é a Paz anunciada num presépio de há dois mil anos. Chegaram agora D. Trump, V. Putin e Xi Jin Ping, os reis magos do dinheiro, do poder e das armas. Não cabem neste presépio. Mas é este que vale a pena. S. Paulo e o Papa Francisco vão ajudar-nos a saber porquê.
08.01.2017

in jornal PUBLICO

[1] Mt 21-12
[2] Cf.Os Reis Magos existiram?, Bíblica, Nov-Dez, 2016, nº 367, pp 3-7
[3] 1Rs 3-5
[4] Mt 12, 42

sábado, 31 de dezembro de 2016

Aniversários em Janeiro


Durante este mês celebram o seu aniversário os
nossos Amigos
NOME                                                                 Dia
  Domingos Pires Lopes                                                    1
  Carlos Alberto Sequeira                                                  1
  Álvaro Belmar Esteves                                                   1
  Carlos Jorge dos Santos Videira                                      10
  António  Cândido Salzedas Martins                                   11
  Frei Gil Filipe                                                              23
  Armando Ferreira Neto                                                 24
Para todos os nossos parabéns e os votos de um futuro cheio de 

Bençãos de Deus.

PARTIU MAIS UM DOS NOSSOS


JESUÍNO VAZ MARTINS

 Faleceu ontem, dia 30, Jesuíno Vaz Martins (ex-Frei Humberto) com 78 anos de idade, aluno e professor no Seminário de Aldeia Nova, tendo cursado Filosofia e Teologia no Convento dos Dominicanos em Fátima. O funeral realizou-se hoje, dia 31 de Dezembro pelas 11h30, da Igreja de Queijas para o cemitério de Carnaxide, Oeiras.
A toda a família em luto de uma forma particular a seu sobrinho, nosso companheiro e amigo, Baltazar Martins Jesuíno, sentidas condolências

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

BOAS FESTAS

SANTO NATAL 
Não vale a pena fazer aqui um discurso ou aperfeiçoar a retórica para deixar os meus votos de Boas Festas. Os tempos não correm de feição e por isso a economia, tanto no tempo como nas palavras, é sempre aconselhável. Os chavões, as frases feitas e a demagogia, ficam para os políticos. Nós, queremos a continuar como somos, vangloriando-nos do que fomos e do que queremos continuar a ser.
BOAS FESTAS DE NATAL
 PARA TODOS OS QUE AINDA TÊM A CORAGEM DE VIR AQUI, E UM ABRAÇO AMIGO
Nelson

domingo, 18 de dezembro de 2016

DE MÃE A DISCÍPULA


                                                                                                          Frei Bento Domingues, O.P.
1. Pertencem a Paulo os primeiros escritos do Novo Testamento. Não são de carácter narrativo. São tentativas de interpretação de uma experiência que mudou completamente a sua vida, que o fez nascer de novo. A iluminação que derrubou as suas certezas não o fez ver apenas que nem Jesus nem os seus discípulos eram traidores da autêntica fé de Israel. Esta tinha sido atraiçoada ao deixar-se prender pela Lei, pelos seus preceitos e regulamentos, tornando-se uma questão nacionalista.
Jesus não cabia em Israel e não era só um judeu fora de série. Era um começo novo da humanidade. S. Lucas imaginou a sua genealogia como filho de Adão, como filho de Deus[i] e S. Mateus dirá, citando Isaías, que ele é Deus connosco[ii]. É o evangelho de um filho da humanidade para toda a humanidade.
Quem frequentar as engenhosas narrativas, magníficos romances do nascimento e dos começos da vida de Jesus, não corre o perigo de imaginar que estamos a preparar, com o Advento, o nascimento de Cristo, assunto há muito resolvido. O que nos falta é consentir em nascer de novo. Como já referimos na semana passada, a grande figura do Natal é Nicodemos, um fariseu membro do Sinédrio[iii], que andava de noite à procura da luz.
2. Maria, nunca foi, nunca será tirada do Presépio, mesmo que este não figure nem no Evangelho de Marcos nem no de João, que apanharam Jesus já em andamento.
No Evangelho de João, Maria é surpreendida entre dois milagres, ou sinais, como ele gosta de dizer. Tudo começa com um casamento onde se encontrava a Mãe de Jesus e para o qual também o seu filho e os seus discípulos foram convidados.
É estranho que numa boda falte vinho. Maria mostra-se muito ansiosa com aquela vergonha e pede ao filho que faça alguma coisa. Recebe uma resposta mal criada, agressiva. Maria faz-se desentendida e diz aos serventes: fazei o que ele vos disser. Água não faltava e, de repente, torna-se num vinho de excepção. Todos conhecemos o resto da conversa, o milagre da água convertida em vinho. Só que o verdadeiro milagre não foi esse. Esquecemos o milagre dos milagres.
Fixemos o contraste da narrativa. No começo, Maria é a mãe que mostra a sua relação com o filho. O seu filho. É ela que toma a iniciativa. Não esqueçamos a continuação.
Depois do que aconteceu, desceu a Cafarnaum ele, a sua mãe, os seus irmãos e os discípulos. Ali ficaram alguns dias.[iv]
Qual foi, então, o grande milagre? A partir daquele momento, no Evangelho de S. João, nunca mais se fala de Maria, mãe de Jesus. Só reaparece durante a crucificação do seu filho: Perto da cruz de Jesus, permaneciam de pé a sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Clopas e Maria Madalena. Jesus então, vendo a sua mãe e, perto dela, o discípulo a quem mais amava, disse à sua mãe: Mulher, eis o teu filho! Depois disse ao discípulo: eis a tua mãe! E, a partir dessa hora, o discípulo recebeu-a em sua casa[v].
3. Que significa este longo silêncio? Jesus viveu uma longa polémica com os discípulos: traído por um e abandonado por muitos[vi]. Os seus irmãos também não acreditavam nele[vii].
O caso de Maria é completamente diferente. O Evangelho de João mostrou que a mãe de Jesus deixou de mandar no seu filho, mas não o abandonou, nem deixou de acreditar nele. Tornou-se a mãe que vai, silenciosamente, para a escola do filho. Só reaparece quando já está identificada com o projecto de Jesus e com a decisão de o acompanhar até ao fim.
Se Jesus passou a vida, a sua vida de intervenção pública, a tentar fazer família com que não era da família, a ponto de os familiares o julgarem doido[viii], na cruz, Maria é apresentada como a Mãe da nova humanidade. Ela vai aparecer no meio dos apóstolos na preparação do advento do Pentecostes: eram Pedro, João, Tiago, André, Filipe e Tomé, Bartolomeu e Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão Zelote e Judas filho de Tiago. Todos, unânimes, eram assíduos à oração com algumas mulheres, entre as quais Maria, Mãe de Jesus e os seus irmãos[ix].
O doido da família conseguiu enlouquecer a família.
Se a Igreja renunciasse a trabalhar por um mundo, família de muitas famílias, de muitos povos, culturas e religiões ou sem religião, significaria que tinha renunciado a acreditar na sua missão: revelar que, na sua imensa diversidade, há uma só humanidade, feita de filhos de Deus, de irmãs e irmãos. Talvez continuasse a falar na dignidade e no primado da pessoa humana, mas estaria apenas a referir-se a uma abstracção.
Importa confessar que isto está muito atrasado. Passaram dois mil anos e, quando dizemos que Jesus é o Messias, ainda estamos longe dos poemas de Isaías e das promessas do Apocalipse de um novo céu e uma nova terra[x].
Não é coisa que não se soubesse há dois mil anos. As parábolas do grão de mostarda e do fermento não nasceram por acaso.
No entanto, nem elas nos podem valer. Não temos nenhuma fórmula que nos explique o mistério do tempo. A Fé cristã está ligada a um crucificado. A Ressurreição diz-nos que a morte não é a última palavra sobre a nossa vida. A sua garantia só é dada pelo que fizermos para ressuscitar alguém esquecido na sua dor.
A igreja não tem nenhuma fórmula para salvar o mundo. É uma convocatória para o trabalho. Não é pouco.

in Jornal Público 18/12/2017

[i] Lc 3, 38
[ii] Mt 1, 23
[iii] Jo 3, 1-21
[iv] Jo 2, 1-12
[v] Jo. 19, 25-27
[vi] Jo 6, 64-71
[vii] Jo 7, 1-16
[viii] Mc 3, 20-33
[ix] Act 1, 12-14
[x] Ap 21-22

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

SEMEADORES DE MUDANÇA: POETAS SOCIAIS (2)

           
                             Frei Bento Domingues, O.P.

1. A partir dos finais dos anos 60 do século passado, os militantes dos movimentos cristãos eram bombardeados com repetidas afirmações marxistas: a fé é a alienação da vida humana, a Igreja é o secular instrumento da alienação e os padres são os intelectuais orgânicos desse processo alienador.
A liturgia e a mística eram consideradas formas de fuga do mundo. Nesta perspectiva, a mística era rejeitada como expoente máximo do medo à realidade material, da fuga das responsabilidades sociais, da alienação na sua forma extrema. Era também recusada por ser uma mística de olhos fechados perante a história, sem ligação com as tarefas humanas[i].
Muitas atitudes e práticas religiosas, do passado e do presente, merecem bem esta crítica, mas diante do texto do domingo passado, e que desejo continuar hoje, essa crítica faz-nos sorrir. Não foram poucos os marxistas da época que se emburguesaram. Muitas pessoas da Igreja – e muitas que não se reconhecem em todas as suas expressões -, lideradas pelo Papa Francisco, vêem o mundo a partir dos excluídos e vivem em função da transformação da sociedade, como ficou claro no 3º Encontro com os participantes dos Movimentos Populares.
As organizações dos excluídos - e de tantas outras de diversos sectores da sociedade - estão chamadas a revitalizar e a refundar as democracias que atravessam uma verdadeira crise. Não devem ceder à tentação de se deixarem reduzir a agentes secundários ou, pior, a meros administradores da miséria existente. Nestes tempos de paralisia, desorientação e propostas destruidoras, a participação como protagonistas dos povos que procuram o bem comum pode vencer, com a ajuda de Deus, os falsos profetas que exploram o medo e o desespero, que vendem fórmulas mágicas de ódio e crueldade ou de um bem-estar egoísta e uma segurança ilusória.
Como vimos no Domingo passado, Bergoglio não acredita na fórmula beata: vai-se fazendo o que se pode e depois se verá. Para revitalizar a democracia é preciso não fechar os olhos e alimentar ilusões. Enquanto não forem radicalmente solucionados os problemas dos pobres, renunciando à autonomia absoluta dos mercados e da especulação financeira e atacando as causas estruturais da desigualdade social, não se resolverão os problemas do mundo nem problema algum. A desigualdade é a raiz dos males sociais[ii]. Por isso, o Papa Francisco disse e repetiu: o futuro da humanidade não está unicamente nas mãos dos grandes dirigentes, das grandes potências e das elites. Está fundamentalmente nas mãos dos povos, na sua capacidade de se organizarem e orientarem este processo de mudança com humildade e convicção[iii]. Não devem consentir em serem excluídos da Política, com letra grande, e reduzir cada um dos movimentos à sua pequena horta.
2. O velho argentino tocou num segundo risco dos Movimentos: deixar-se corromper. Assim como a política não é uma questão de “políticos”, também a corrupção não é um vício exclusivo da política. Há corrupção na política, nas empresas, nos meios de comunicação, nas igrejas e, também, nas organizações sociais e nos movimentos populares. Há corrupção radicada nalguns âmbitos da vida económica, em particular na actividade financeira. É menos noticiada do que a corrupção de âmbito político e social.
Importa, no entanto, realçar o seguinte: aqueles que escolheram uma vida de serviço têm uma obrigação acrescida de honestidade. A medida é muito alta: é preciso ter vocação para servir com um forte sentido de austeridade e humildade. Isto é válido para os políticos, para os dirigentes sociais e para nós pastores.
Disse «austeridade» e gostaria de esclarecer que esta palavra é equívoca. Refiro-me à austeridade moral, no modo de viver, pessoal e familiar. Não estou a falar daquela que é imposta pelas leis e astúcias do mercado…
3. A qualquer pessoa que seja demasiado apegada às coisas materiais e que ama o dinheiro, banquetes exuberantes, casas sumptuosas, roupas de marca, carros de luxo, aconselharia que compreenda o que está a acontecer no seu coração e que reze a Deus para que o liberte destes laços. Mas, parafraseando o ex-presidente latino-americano que está aqui, todo aquele que seja apegado a estas coisas, por favor, que não entre na política, não entre numa organização social ou num movimento popular, porque causaria muitos danos a si mesmo, ao próximo e sujaria a nobre causa que empreendeu. E que também não entre no seminário!
Peço aos dirigentes que não se cansem de praticar esta austeridade moral, pessoal, e peço a todos que exijam dos dirigentes esta austeridade, que — de resto — os fará sentir-se muito felizes.
É no Advento que estou a ler este longo, belo e exigente discurso do Papa. Não é para preparar o nascimento de Jesus. Essa questão está resolvida há mais de dois mil anos. Para o Natal que interessa, a grande narrativa é a conversa nocturna de Jesus com Nicodemos: precisas de nascer de novo e não perguntes como, sendo já velho[iv].
Boa receita! 
11.12.2016

in jornal Público

[i] Olegario González de Cardedal, Cristianismo y mística. Teresa de Jesús de la Juan de la Cruz, Educa, Buenos Aires, 2013, pp.215-216.
[ii] Exortação Apostólica Evangelii gaudiumn. 202
[iii] Discurso no segundo encontro mundial dos movimentos popularesSanta Cruz de la Sierra, 9 de julho de 2015
[iv] Jo 3, 1-21