quarta-feira, 30 de maio de 2007

GENTILEZAS DE PORTUGAL


"O novo estádio da cidade de Al-Kahder, nos arredores de Belém, na Cisjordânia, cuja construção foi financiada por Portugal, através do Instituto Português de Cooperação para o Desenvolvimento, foi já inaugurado.
O recinto custou dois milhões de dólares, tem capacidade para seis mil espectadores, é certificado pela FIFA e dispõe de piso sintético e iluminação. A cerimónia de inauguração abriu com uma marcha de escuteiros locais, conduzindo as bandeiras de Portugal e da Palestina, e a execução dos respectivos hinos nacionais.
Já fechámos urgências, maternidades, centros de saúde e escolas primárias, mas oferecemos um estádio à Palestina. Devíamos fechar o Hospital de Santa Maria e oferecer um pavilhão multiusos ao Afeganistão. A seguir fechávamos a cidade Universitária e oferecíamos um complexo olímpico (também com estádio) à Somália e por último fechávamos a Assembleia da República e oferecíamos os nossos políticos aos crocodilos do Nilo.
José Vieira

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Religião de Maio e Milagres de Fátima


No dia 5, o Grande Oriente Lusitano – Maçonaria Portuguesa, através da sua associação profana "Grémio Lusitano”, realizou o 1º Encontro Internacional de Lisboa, subordinado ao tema: Religiões, Violência e Razão. Nesse Encontro, intervieram cristãos (católicos e protestantes), muçulmanos (sunitas e xiitas), judeus e Bahá’ís, para além de ateus e agnósticos, num clima de tolerância e promoção da paz e do progresso.
No mesmo dia, o Movimento Internacional “Nós Somos Igreja - Portugal” efectuou, no Convento dos Dominicanos, no Alto dos Moinhos, um Seminário dedicado ao “Povo de Deus num mundo em mudança”, com a participação, entre outras personalidades, do polémico Bispo Jacques Gaillot. No dia 8, começaram as “Conferências de Maio”, promovidas pelo Centro de Reflexão Cristã, no auditório do Centro de Estudos da Ordem do Carmo, subordinadas ao desdobramento da pergunta: “O que nos faz correr?”. Neste mesmo mês, continuaram, na Sé de Lisboa, as Conferências sobre a Verdade o Bem e o Belo, para celebrar o aniversário da publicação da “Populorum Progressio” de Paulo VI. A Comissão Nacional Justiça e Paz promoveu, no Colégio de S. João de Brito, a 25 e 26, a importante Conferência Nacional “Por um desenvolvimento global e solidário – um compromisso de cidadania”.
2. Se as peregrinações do espírito têm de ter os pés no chão, as religiões de pés no chão não podem dispensar os movimentos da razão.
Encontrei, em Kingston, os portugueses que têm Nossa Senhora de Fátima como padroeira da sua paróquia. Além da reflexão teológica, fizeram-na sair à rua ao som da Banda, da reza do terço e dos cânticos da Cova da Iria. Talvez não seja por acaso que as aparições de Marmora (Ontário – Canadá) tenham uma grande componente deste imaginário, a começar pelo grito espontâneo da Lúcia, a 13 de Outubro de 1917, “olhem para o sol”, que dançou vertiginosamente num céu coberto de nuvens.
Para a sondagem encomendada pelo Sol (cf. Tabu: 05/05/2007), Fátima é um milagre para 69 por cento dos portugueses; 53 por cento vão a Fátima uma vez por ano; 48 por cento já fizeram promessas à Virgem; 15 por cento já foram a Fátima a pé e o Santuário, em 2006, acolheu mais de 5 milhões de visitantes e crentes. Maio deste ano rondou o meio milhão de peregrinos. Fátima, embora seja muito portuguesa, pretende ser também muito ecuménica, a ponto de se considerar “altar do mundo”.
Tem recursos simbólicos muito fecundos. Não precisou de fechar o limbo e a sua oração não quer ninguém no inferno nem no purgatório. Proclama o triunfo do Coração, o verdadeiro céu católico. Mas Fátima foi configurada no tempo infernal de duas guerras mundiais e o século XXI continua cheio de lugares de puro horror.
A Cova da Iria atrai corpos reais, feridos pelo sofrimento, em processo de libertação de prisões interiores e exteriores. É um verdadeiro cais de chegada e partida dos aflitos ou agradecidos. A “procissão das velas” é luz para as noites da vida e a nostálgica “procissão do adeus” nunca foi uma despedida.
A simbólica de Fátima tem sido sempre atraiçoada pela infindável reprodução comercial de sinais do mau gosto. A evocação do sagrado e a beleza da fé foram sistematicamente traídas pela extrema banalidade e fealdade de quase tudo. A ausência da reflexão crítica impediu muitos cristãos de se poderem reconhecer nas devoções, nas pregações e propostas de Fátima.
3. A celebração dos 90 anos das Aparições vem, felizmente, confirmar algumas novas orientações na pastoral do Santuário.
Em Outubro, será inaugurada a Basílica da Santíssima Trindade, obra de um arquitecto grego que congregou artistas de vários países. As marcas de Siza Vieira e de Pedro Calapez também estarão ligadas a essa obra monumental. Dir-se-á que estes sinais não bastam para reconciliar as expressões da religiosidade de Fátima com a linguagem da beleza. Existem, todavia, indicações de que algo está a mudar.
A evocação trinitária é oração de Anjo em boca de crianças. Um Congresso Internacional sobre a “Santíssima Trindade”, de 9 a 12 de Maio, tentou provocar a reflexão teológica adulta acerca do mais sugestivo dos mistérios. A música sacra estará presente, nas comemorações, através de uma Oratória do P. António Cartageno sobre as memórias de Lúcia. O conselho científico, responsável pela publicação da Documentação Crítica de Fátima, é também o responsável pela Enciclopédia de Fátima, editada e integrada na celebração dos 90 anos. Será uma referência obrigatória para a inteligência de um fenómeno complexo ainda mal estudado.
Quando for possível alimentar, na Cova da Iria, tensões fecundas entre meditação, oração, arquitectura, música, pintura, história, teologia de qualidade e responsabilidade social, Fátima poderá ser o milagre dos milagres no catolicismo português.
Com a devida vénia ao Jornal Público.

sábado, 19 de maio de 2007

UM SONHO DO FERNANDO VAZ

O Fernando partilhou esta mensagem com muitos de nós. Porém, para que cada um possa deixar o seu comentário, optei por editá-la aqui e assim todos ficaremos a conhecer a opinião de cada um:
AMIGOS!
Por três vezes recebi o documento de Vinícius de Morais, sobre a amizade. Li, as três vezes, com a mesma atenção, esse poema, pensando especialmente na pessoa que desse modo me enviava uma mensagem de amizade. São pensamentos que me tocam profundamente e posso fazer meus. “Ás vezes mergulho em pensamentos sobre alguns deles, meus numerosos amigos. Em momentos de felicidade intensa, cai-me alguma lágrima... por não estarem perto de mim...”O encontro, em que estivemos muitos dentre nós, em Fátima há uns 20 anos (qual foi a data exacta?) não me marcou como o último de Aldeia Nova. No primeiro encontrei com imenso prazer uns 50 antigos colegas, mas continuei a corresponder só com dois, os mesmos de antes, Horácio e Espírito Santo. Desta vez tudo foi diferente. Mantenho contactos estreitos com uns dez e regulares com mais de vinte. Bem mais, através do blog. Sabeis que gosto de tudo analizar e nunca abandono um raciocínio senão quando as respostas me satisfazem. Compreender não quer dizer possuir a verdade, mas simplesmente satisfazer a própria curiosidade intelectual. Reflectí sobre a irrupção do meu e nosso passado no meu presente e tentei compreender. Que compreendí? Que o meu cérebro teria amolecido e que não conseguindo continuar a projectar-me para o futuro, para a inovação, volto-me para o já vivido e para os caminhos andados? Penso estar ainda suficientemente lúcido (treino-me) para afirmar que as razões são outras e bem objectivas:
1° Estou agora mais disponível para viajar e usufruir das horas, dos dias e das semanas. Mais liberdade fisica e intelectual. Tendo os filhos caído do ninho, ou melhor, voando todos com suas próprias asas, libertaram-nos tempo e espaço! Estando eu e minha mulher reformados, as disponibilidades aumentaram, e eliminaram-se automaticamente as preocupações (soucis) profissionais.
2° Neste encontro de Aldeia Nova eu estava preparado psicologicamente para fazer uma pausa. Para ver, ouvir e memorizar...Finalmente não foi uma pausa que fiz, mas um vai e vem que se repetiu umas vinte vezes entre a minha infância e adolescência e o presente. Estes ‘vais e vens’ começaram logo em Lisboa com o Horácio, frei Mateus, frei Bento, frei Pedro, Alexandrino, Celestino, Zé Vieira e Nuno. Continuaram em Aldeia Nova atingindo o paroxismo com o abraço do Nelson que já não via há 46 anos, apesar de nos termos procurado sem sucesso.
3° Tenho consciência de que os dias, os meses e os anos passam cada vez mais depressa, e devemos ir ao essencial. O essencial para mim são os sentimentos: a família, são os amigos, “sobretudo aqueles que estão no início do mundo que eu tremulamente construí e se tornaram alicerces do meu encontro pela vida’ cf. Vinícius.
4° Devemos também sempre contar com as circunstâncias da vida e elas fizeram com que o encontro de Aldeia Nova reunisse as condições e provocasse o nascimento do blog. Este permitiu a uns poucos, que serão cada vez mais numerosos, tenho a certeza, de criar laços que são cada vez mais estreitos e calorosos. Devido a este último encontro e ao blog “muitos dos meus amigos sabem hoje o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências. Alguns não os procuro, basta-me saber que eles existem...Porque não os procuro com assiduidade não posso dizer-lhes o quanto gosto deles, eles não iriam acreditar’ cf.Vinícius. Outros como o Ferro e o Arnaldo, procurei-os e escrevi-lhes e eles não responderam. Respeito o silêncio mas aprecio mais a palavra dita e ouvida. Também gostaria de restablecer contactos com o Nuno que encontrei em Lisboa.
Os encontros anuais são formidáveis, mas terminam depressa de mais, sem dar tempo para restabelecer todas as ligações que foram cortadas...Quando liguei o computador para vos escrever não era com a intenção de divagar como acabo de fazer, mas simplesmente para vos fazer uma proposta. Anda-me na cabeça há umas semanas, uma ideia completamente “ loufoque”, doida, para activar e dinamizar esta retomada de contactos. Tencionava propô-la em Outubro, mas prefiro que comeceis a raflectir desde já? E se organizássemos uma viagem de uma semanita aqui a França. Aproveitemos enquanto o Celestino está na TAP. Ele organizará pelo melhor preço a viagem de avião Lisboa ou Porto - Clermont Ferrand. Eu espero-vos no aeroporto desta cidade com um autocarro que guardariamos toda a semana e organizaria vossa estadía aquí por um preço razoável (défiant toute concurrence). Evidentemente que as esposas que o desejarem serão as bem vindas. Visitaremos a região que, com suas montanhas e lagos, é magnífica. Faremos escapadas de um dia a Paris, Lyon, Bordeaux etc. Faremos uma cura de vinhos e queijos, de que este país é especialista, enquanto nossas mulheres se deleitariam nos comércios, experimentando os últimos cremes e perfumes. Aqui vos lanço uma ideia, que podemos transformar num reencontro aprofundado durante o qual todos teriamos tempo para nos exprimir, questionar e escutar. Se a ideia recebe o vosso assentimento, poderieis começar a organizar uma comissão em Lisboa ao redor do Celestino outra no centro á volta do Eduardo Bento e no Norte em torno do J. Moreno. Como de costume já estou a querer orientar tudo. Na verdade tenho horror do vazio, mas desde que o espaço esteja ocupado, desvio-me facilmente. Dizei-me o que pensais desta ideia e dai-me instruções!...

segunda-feira, 14 de maio de 2007

PESCARIA NAS CAXINAS


Terminadas as actividades académicas, os estudantes do Instituto S. Tomás de Aquino, Fátima, beneficiavam de umas férias na praia para retemperar forças e “limpar a vista”. Os destinos, sempre lugares de eleição, foram, na minha época, Pedrógão, Buarcos e Caxinas.
A história que venho partilhar convosco, ocorreu nesta última localidade de boa memória. Numa pesquisa, apurei que a palavra Caxinas encontra-se escrita de duas maneiras: Cachinas e Caxinas. Há quem sustente que Cachinas vem do latim "cachinare" que significa rir às gargalhadas. Outros autores consideram que "Caxinas" é um nome dado a uma enseada ou angra do mar, de onde se elevam rochedos, contra os quais se quebram as ondas, por vezes com violência, cachinada e borbotões. Em Latim "quassina" quer dizer "rochedo, quebra-mar".
Recordo a simpatia e o bom acolhimento das suas gentes, a simplicidade e lhaneza dos homens do mar. A têmpera e a afabilidade das mulheres. Aquela terra tinha peculiaridades pouco comuns com outros lugares. Desde logo, a forma peculiar do "falar caxineiro" com a sua curiosa terminologia e fonética. Ali, mulheres é que tratam da venda do peixe (na lota ou venda a avulso) e gerem todos os negócios e dinheiros da família. Em terra, quem manda são as mulheres. Cabe-lhes também a elas o trabalho árduo da apanha do sargaço, nas primeiras horas do amanhecer, enfrentando as ondas e a água gelada, culminando com o arrastar pelo declive do areal, de pesados sacos de rede. Nunca vi em mais lado nenhum, semelhante trabalho exercido por mulheres.
Não podíamos deixar de admirar a vida difícil dos homens, envolvidos na pesca artesanal em minúsculos barcos.
Esses dias contribuíram para criarmos laços de amizade e admiração por aquele povo.
Dada a minha qualidade de filho de pescador, fui convidado algumas vezes para ir à pesca, nos tais barcos de poucos metros, por um amigo que fiz nesses dias. Era um jovem pescador dos seus trinta anos, cujo nome já não recordo, também mestre do salva-vidas local, o que lhe permitiu não ser convocado para o serviço militar. Na sua lancha de cerca de seis metros, acompanhado dum velho lobo do mar, dedicava-se à pesca com redes de emalhar. Trata-se duma rede debruada na parte superior por cortiças, e na inferior, por chumbos, o que lhe permite ser colocada verticalmente na água, ficando os peixes "presos" nas suas malhas. Lança-se a rede a cerca de duas milhas da costa, e aguardam-se algumas horas que o peixe meta lá a cabeça...Tem que se dar o tempo suficiente, mas se for demasiado, o caranguejo pilado (pequeno caranguejo de alto mar) só deixa a espinha e a cabeça do peixe emalhado. É a oportunidade que o pequeno crustáceo tem de se tornar predador dos peixes para os quais normalmente serve de isco.
Nessa circunstância o velho pescador praguejava, usava todo o seu vocabulário vernáculo à moda do norte, e chagava a esmagar o pilado entre os dentes.
Num desses dias convenci o mestre a levar também o Vitorino, que não me dava um minuto de descanso, para que eu conseguisse levá-lo também. À ida para o alto mar tudo parecia correr bem. Contaram-se anedotas, ouvimos histórias do mar e uma expressão do velho pescador que gravei e com a qual rimos imenso, pela espontaneidade e simplicidade com que foi dita: “…eles deviam era vir cá pró meio do mar, que era para saberem o que é amar a Deus…”
Porém após o lançamento da rede, quando na espera, o barco fica parado, então começou o enjoo. O Vitorino deitou a carga toda ao mar, e quando o estômago não tinha nada mais para expelir, parecia que também ele queria saltar pela boca. Perante a aflição do rapaz, o mestre resolveu suspender a faina e regressar apressadamente a terra. Eu vim conduzindo o barco segurando o manípulo do motor fora-de-borda, enquanto os pescadores arrumavam as redes. Estava uma noite de chumbo, com pouca visibilidade, vento sudoeste a empurrar para terra e uma ondulação cavada. Ouvi um grito "cuidado!" e senti ao meu lado cair o corpo do mestre que se lançou sobre o leme para desviar o barco duma onda, que pela ré nos teria lançado contra a as rochas perto da praia, não fora a acção rápida e certeira do mestre. Ali fiquei a saber como é fácil morrer-se naquela costa.
Saúde Vitorino! Ainda cá estamos para contar, se é que te recordas.
Platão escreveu que existem três espécies de homens: os vivos, os mortos e os que andam no mar.
Ao evocar esta frase, sinto-me a honrar a memória do meu pai, do meu avô, e a glorificar outros familiares e amigos incluindo os bravos das Caxinas.
A. Alexandrino

domingo, 13 de maio de 2007

MEMÓRIAS DE MIM (VI)

Um tanto transversalmente, e julgo ter sido o Eduardo Bento, já aqui se falou na nossa Academia de Aldeia Nova. Era seu patrono Fr. João de S. Tomás que, ignorância minha, ainda hoje não sei de quem se trata e, dos elementos de consulta ao meu alcance, não encontrei referência alguma a tal personagem. Guardo as melhores recordações da Academia Fr. João de S. Tomás que, para além de outros incontestáveis méritos, tinha o de nos proporcionar uma manhã de domingo diferente. Era sempre uma sessão solene com discursos, poemas, algumas cançonetas pelo meio e outras habilidades. Hoje, assim à distância de quase cinquenta anos, recordo-a como uma “instituição democrática”, pois os seus dirigentes eram encontrados por voto secreto. No ano lectivo de 1959/60, coube-me a dita de ter sido eleito por todos os companheiros para o cargo de vice-presidente, enquanto o Fernando Vaz era eleito presidente e o António Ferreira secretário. Tive oportunidade de recordar isto quando, há cerca de 30 anos, passando por Aldeia Nova lá encontrei, à frente do que supostamente era uma sucursal da Obra do Frei Gil, o Pe. Alberto Carvalho. Ele reavivou-me a memória e mostrou-me um livro de actas, onde constava o que atrás vos relato e que eu jamais esquecera.
Sopravam ao tempo, lá por Aldeia Nova, ventos que poderiam se não augurar alguma mudança, pelo menos abrir portas a novos objectivos e desafios. Nunca, até então, havia surgido a ideia de ali poder nascer um agrupamento de escuteiros. Mas a vinda para Aldeia Nova do Pe. Miguel, que nunca mais vi, abria portas a essa possibilidade e ele começou a falar-nos de Escutismo. De resto, o pai dele era pessoa preponderante no seio do Corpo Nacional de Escutas. Coube-me em sorte ter que elaborar um discurso para uma das sessões da Academia e o tema que escolhi foi o Escutismo. Debrucei-me sobre a vida e obra de Baden Powel, mais algumas dicas que consegui e lá parti para a minha exposição oratória.
Recordo e recordarei sempre que, sendo tal o entusiasmo com que dissertava dizendo -“rapazes, orgulhai-vos, se alguma vez ouvirdes dizer que esta obra é para rapazes… … … “, dei um murro na tribuna em que discursava.
Já não sei se a assembleia emudeceu, mas sei que, passados dias o bom amigo, com quem ainda há dias contactei via NET, Pe. João Domingos Fernandes, diz-me: “O seu murro ouviu-se na reunião!”
O discurso, manuscrito numas folhas de papel quadriculado que por lá se usavam, ainda o guardo comigo. Não cheguei a saber se foi implementado o Escutismo em Aldeia Nova mas, desse meu minúsculo contributo, eu vou guardando memória.
Saudações amigas
Nelson Veiga

sexta-feira, 11 de maio de 2007

AO NELSON E A TODOS OS BLOGUISTAS DE BOA VONTADE

É inaceitável o modo como o senhor Vintém me trata e à minha esposa. ( Ela não tem o nome que ele lhe atribui). Mas o mais grave é que esse Vintém parece ter dados a meu respeito. É verdade que eu sou gordo e a minha esposa faz tratamento contra a obesidade. Mas porque há-de ele querer humilhar-nos assim? Quem tem culpa do corpo que Deus lhe deu? É verdade que frequentamos a igreja de S.Domingos mas sem o comportamento caricatural que ele descreve no Blog. É verdade que tenho carta de condução mas não conduzo. Então o Vintém sabe de mim.
Nelson, faz um apelo para que impere no Blog a caridade cristã. Estamos a nascer para esta alegria de criar laços amorosos. Que não assassinemos à nascença o Blog como os esquerdas estão a fazer com o aborto: a matar crianças. Nelson, omne malum nascens facile opprimitur.
José Oliveira

quinta-feira, 10 de maio de 2007

RETRATO-ROBOT DO EX-FREI IMELDO, AGORA DR. JOSÉ OLIVEIRA


Anda meio mundo a dar voltas aos registos mais remotos que os respectivos cérebros armazenaram no início da idade adulta, para trazer a primeiro plano das imagens da memória, a figura de um tal frei Imeldo, José Oliveira à civil. A dificuldade tem sido geral, pelo que a interrogação persiste, até haver alguém disponível a vasculhar os arquivos do convento de Fátima. Para não continuarmos nesta angústia, resolvi elaborar um retrato-robot, que nos pode ajudar nas investigações.



- Patena querida, podes descer, que já aqui está o táxi.
- Desço já, fofinho.
O Dr.Oliveira preserva a esposa do sol e dos olhares concupiscentes dos estranhos, porque a quer alva como a neve que só viu na televisão e livre da cobiça alheia.
Acomodam-se com dificuldade no banco traseiro, para conseguir fechar a porta do automóvel. Os amortecedores gemem debaixo dos cento e quinze quilos do “fofinho” e dos oitenta e cinco da sua “doçura”.
-Para a igreja de S. Domingos, por favor.
Todos os domingos, o programa repete-se, invariavelmente sob os mesmos horários:
Despertar às oito horas, logo seguido de alvorada ruidosa de “flatulências”;
Às 9:15 descer para apanhar o táxi, por forma a chegar à igreja às 9:45 a tempo de distribuir uma moedas pelos pedintes e ir cumprimentar o senhor prior antes da missa das 10:00. As ombreiras da porta daquela igreja, ampararam o corpo enfraquecido de Camões, que ali também estendeu a mão à Caridade, assim como a outras senhoras abastadas.
O casal colabora activamente na missa. Ele é o único que sabe dar as respostas em latim ao celebrante e acompanhar o gregoriano (competências adquiridas no convento de Fátima), enquanto os restantes assistentes bichanam padre-nossos e ave marias e outros seguem o evoluir das pombas junto ao tecto. Ele sente-se feliz com novas normas litúrgicas do papa Bento XVI, mas ainda espera mais do que a encíclica “Sacramentum Caritatis”. Isto é ele a falar.
A D. Patena colabora na recolha do ofertório, (fazendo cair alguns bancos à sua passagem). Arruma a estola e a sobrepeliz, cuida das flores, e tira as teias de aranha aos santos.
Ambos têm colaborações várias no apostolado da igreja. O Dr.Oliveira, com as bases adquiridas num curso de pintura por correspondência, tem contribuído para a recuperação da igreja muito danificada após o incêndio de 1958. Avivou as chamas do inferno, recolocou os cornos e o rabo ao demo, recuperou o facho do cão de S. Bomingos, pintou com bruch os olhos da Maria Madalena, reavivou-lhe as rosáceas da face e o vermelho dos lábios, para lhe restituir o ar sedutor, além de outros restauros.
No fim da missa, o Dr. Oliveira encarrega-se de contar o fruto da colecta e registá-lo no livro de contabilidade do clero, que só tem a coluna do haver. Cabe-lhe ainda proceder, no dia seguinte, ao depósito na conta bancária do prior, cumprindo assim o mandamento da Santa Madre Igreja: contribuir para a sustentação do clero.
Ás 11:00 em ponto, o casal de pombinhos, dirige-se à pastelaria Suiça, para a quebra de jejum.
- Bom dia, Sr. Doutor. Vai ser o costume, não é?
- Sim, António. Mas hoje, excepcionalmente, traga mais dois pastelinhos de nata.
De excepção em excepção, já vão na bonita conta de oito pastelinhos de nata cada um, acompanhados de galão claro, para ela e coca-cola para ele.
De regresso a casa, começam o almoço invariavelmente às 12:30. Deixemo-los agora em silêncio, para não perderem pitada do humor fino do Manuel Luís Goucha. Continuarão mastigando durante o telejornal, e mesmo às catorze horas, quando vão fazer a sesta, ainda vão retirando resíduos esquecidos nos intervalos dos dentes.
Após a sesta, tomarão o eléctrico, exactamente ás 16:00 horas, que os levará ao jardim botânico.
Mas enquanto ressonam ruidosamente, vou contar-lhes a razão porque o Dr. Oliveira nunca adquiriu carro, apesar de ter carta de condução desde a precoce idade dos quarenta e cinco anos.
Meticuloso como sempre, o Dr. Oliveira começou paulatinamente a estudar a aquisição do automóvel familiar, com oitenta e cinco cavalos, cinco velocidades, quatro rodas a rodar e uma suplente, cinco lugares para ocupantes e uma bagageira ampla. Da imagem da Nª Srª de Fátima para o “tablier” e do cãozinho de peluche, com a cabeça a abanar para enfeitar a chapeleira, encarregar-se-ia a D. Patena.
Começou por elaborar uma lista exaustiva, de todas as marcas de carros com aquelas características. Levou uma cópia para a escola onde lecciona e ficou com outra em casa. Sempre que ouvia contar a ocorrência de um acidente perguntava invariavelmente de que marca eram os carros envolvidos. Acto contínuo, abria a gaveta da secretária e riscava na lista dos automóveis. Após assistirem variadas vezes a esta operação, os colegas, andavam intrigados. Aliás insurgiram-se várias vezes por o Dr. Oliveira se preocupar apenas com a marca e modelo dos carros acidentados e nunca com os feridos ou mortos. – Oh Oliveira, afinal tu és amigo da onça, ou melhor, da lata?
Imperturbável, o “fofinho” lá foi excluindo da lista todos os carros que sabia terem tido acidentes. E assim, passado o período de análise e reflexão, que para ele tem de ser prolongado para analisar todas as variáveis, o Dr. Oliveira chegou à conclusão que nenhum carro era fiável, pois tinha a lista riscada de fio a pavio.
(Não perca o próximo episódio, no qual acompanharemos as diversões do Dr. Oliveira, nas tardes de Domingo.)
Ezequiel Vintém – (ex-frei Pancrácio)

quarta-feira, 9 de maio de 2007

MAIS UM ESCLARECIMENTO PARA TODOS MAS SOBRETUDO PARA O MORENO. AQUI SE FALA DA MINHA IDENTIFICAÇÃO E DO LIMBO, ENTRE OUTRAS COUSAS




O último texto do Joaquim Moreno suscitou em mim as seguintes elucubrações:
Volto à carga: Não me escondo atrás de anonimatos como alguns. Já disse quem eram os meus pais, o que faço e onde resido.( Rua Rodrigo de Fonseca, nº 1, ali bem perto do antigo Colégio do Clenardo).
Tomei hábito das mãos do P.e Raul Rolo ( o homem mais cordato, afável e dialogante que conheci). Foi ele que escolheu o nome de Imeldo com que entrei na Ordem. Terei de confessar que o nome de Imeldo não era de todo do meu gosto mas por obediência fiquei calado. Cheguei a Fátima
em 1967 e tomei hábito em meados de 1968. Lembro-me que entretanto por ali passou o Fernando Vaz vindo de Itália (?). Esta espécie de católico travou uma batalha pouco religiosa com o Pe Rolo que o queria mandar para o colégio do Clenardo. Esquecendo-se do voto de obediência não só não ouviu a voz do superior como saiu da Ordem. Se ele fez isto do voto de obediência que teria já feito do voto de castidade? Enfim… Por Fátima, nesse tempo, passou também um Horácio que tinha estado a estudar em Espanha. Esta figura, que então dava pelo nome de Frei Filipe, cruzou-se comigo há dois anos nos corredores da Universidade Católica quando eu lá frequentava uma pós-graduação em ciências religiosas para dar catequese, como ainda dou, na minha paróquia. Pois esse tal Horácio fingiu não me conhecer e voltou a cara ao lado. Pudera!... Ele é senhor Doutor e eu sou só dr.
Bom mas vamos ao que interessa que é ver se - mesmo remando contra a maré, eu sei – trago alguns de vós para o grémio da Igreja. Pode ser que com as minhas palavras o dom da fé e a gratuitidade da Graça (passe o pleonasmo) vos toque.
Começo a ver sinais positivos. O Joaquim Moreno, no último texto que manda para o Blog já vem mais manso e voltado para o diálogo. Amigo, dizes que os nossos mestres nos ensinaram a voar, mas cuidado, parece-me que tu e muitos estão a voar demasiado alto. Lembra-te de Ícaro que soberbamente voou tão alto que as asas se lhe derreteram. Não deixes que o fogo do inferno te derreta a alma. Também pareces optar pela Liberdade em vez da segurança. Olha que a liberdade dos filhos de Deus não é a desordem do mundo a que assistimos hoje em dia. Eu sou pela Ordem que respeita os valores tradicionais, sobretudo aqueles que a Santa Igreja prega e que nos foram dados pela palavra revelada. Foram-nos dados –insisto- e alguns de nós não querem ser tocados pela Graça.
O de Salazar seria assim tão mau? É melhor a bagunça actual em que nem se respeitam pais, professores, polícias e (pasme-se !) até os ministros do Senhor são enxovalhados.
É claro que a desordem presente é tal que parece reinar até no Vaticano. Não entendo –peço perdão pelo atrevimento - como é que o Papa de uma penada acaba com o limbo, aquele lugar “sem lugar” para onde vão as boas almas que não tiveram a graça de receber o baptismo. Temo que faltará pouco para se acabar com o purgatório. Com o inferno é que nenhum papa pode acabar pois Nossa Senhora em Fátima mostrou-o aos três pastorinhos. Por este andar do Vaticano qualquer dia até os padres podem casar e as mulher serem ordenadas.
Para ti, Moreno, que pareces estar mais perto da comunhão com os nossos bispos dirijo sobretudo estas palavras, mas quem dera que outros as lessem e meditassem.

Saudações bloguistas

José Oliveira.

RESPOSTA AO JOSÉ OLIVEIRA

Caro José Oliveira
Aguardo o nosso Encontro em Fátima, nos primeiros dias de Outubro. É bom encontrar Amigos e Conhecidos. Pelos teus textos e pelas críticas que tens feito, leva-me a pensar que queremos cidades diferentes. Eu quero e luto por uma cidade sem muros de qualquer espécie. Os nossos Mestres ensinaram-nos a voar e é aquilo que eu tenho procurado fazer. Uma sociedade mais ecológica e limpa para todos. Uma cidade fraterna e cívica sem guerras e ditaduras( qualquer espécie). Não serei "convertido" ao teu pensar.
Como não te agradou a citação do Prof. Agostinho da Silva, aqui vai uma dos Homem que nos tocou nas suas edições da Moraes, O Tempo e o Modo ou a Concilium: Dr. António Alçada Baptista "a verdadeira relação com Deus--como Deus é um ser superior, e os que se dedicam a isso, seres superiores--, voltam-se para as ideias, os silogismos, as lógicas, as abstracções. Ora uma teologia abstracta é uma idolatria".
Também ele dizia que " pessoas se repartem em dois tipos essenciais: as que em qualquer circunstância, escolhem a liberdade, e aquelas que privilegiam a segurança. E são poucos, muito poucos, os que têm coragem para pôr a liberdade acima de tudo".
Até Outubro !
Fraternalmente,
J.Moreno

segunda-feira, 7 de maio de 2007

"As promessas eleitorais, só comprometem aqueles que nelas acreditam"



“Les promesses électorales n’engagent que ceux qui y croient…”
Foi uma frase pronunciada por um parlamentar de direita, quando lhe recordavam as promessas feitas durante a campanha eleitoral. Muitos outros deputados, e mesmo Presidentes da República, do centro, da esquerda ou da direita, poderiam dar respostas semelhantes. Na verdade, penso que os homens políticos, ao chegar ao poder, contraem uma doença terrivel: a amnésia. Quando estão na oposição são inteligentes, sabem reflectir, compreendem perfeitamente os cidadãos e têm soluções para todos os problemas. São animados por uma única preocupação: o bem do país e de cada um dos eleitores em particular. Quando chegam ao poder, parece que perdem com a memória, também a inteligencia e o bom senso.
Em princípio não ganha o mais capaz ou competente, mas o mais convincente, o que mente melhor. Há cursos especiais para ensinar os homens políticos a mentir, em pensamentos, palavras e atitudes. Em pensamento: devem pensar (no momento) aquilo que dizem, e afirmá-lo com tal convicção que mesmo os mais precavidos vão na onda. Há palavras que os professores dos políticos chamam de oiro e que estes devem pronunciar a tempo e a contra tempo, e outras que são banidas do vocabulário durante a campanha. Em resumo: o animal político ( a mulher é um animal político como o homem, dixit S. Royal ) deve ter uma extrema atenção a dizer o que o eleitor quer ouvir ( hic et nunc), e não a verdade. Há também professores que ensinam os políticos a mentir com as atitudes, que eles apelidam de ‘linguagem corporal’. Há mesmo quem diga que não escolher a cor apropriada da gravata, do fato, ou do vestido, durante um debate televisivo, pode fazer perder as eleições a um ‘animal político’. Finalmente o que se pede a um político é que seja um bom actor e que faça sonhar os espectadores que somos quase todos nós.
Com 53,03%, Nicolas Sarkozy é o 23° Presidente da República Francesa. Esta eleição consagra a proeminência da direita na vida política francesa a partir do fim do reino Miterrand em 1995. Nicolas Sarkozy entrará em função no dia 16 de maio, data em que se termina a Presidência de Jacques Chirac.
Os eleitores deslocaram-se em massa. Votaram 83,97% dos inscritos. Só em 1981, com a eleição de Miterrand, é que podemos deparar com uma participação equivalente. Quais foram as ‘palavras de oiro’ que levaram os franceses a deslocar-se e que, sobretudo, fizeram ganhar Sarkozy? Ele utilizou-as em todos os seus discursos: trabalho, autoridade, moral, respeito, mérito, identidade nacional, orgulho de ser françês, mais Europa, espirito de fraternidade, França em movimento.
S. Royal não conseguiu federar a sua volta e ainda menos em torno de suas ideias. Foi abandonada por muitos socialistas que não lhe reconheciam uma estatura de chefe de Estado. Seus discursos foram vagos e muitas vezes contraditórios. Pelo contrário N. Sarkozy foi claro e martelou em cada discurso que tudo o que propunha com clareza seria posto em prática com pugnacidade. Terminou o seu primeiro discurso como eleito Presidente da República dizendo: “...e do fundo do coração, com a sinceridade mais total que é a minha, neste momento em que vos falo, digo: viva a República, viva a França”...
A eleição presidencial apenas terminada, os partidos começam já a preparar-se para outra campanha: a eleição dos deputados, nos dias 10 e 17 de junho. Os tenores ou ‘elefantes’ do partido socialista, sobretudo Dominique Strauss-Kahn (que teria certamente ganho a eleição contra N. Sarkozy) já entraram na arena. Quanto a mim, que nunca fiz nem farei parte de um partido ( fui solicitado por vários) espero que o partido do centro ( Movimento Democrático) de François Bayrou obtenha um número suficiente de deputados para apoiar a direita, ou a esquerda segundo as propostas que sejam feitas. Sou contra uma oposição sistemática e um poder absoluto. Quando para as esquerdas, tudo o que vem da direita não pode ser senão mal e vice-versa, perdem-se muitas energias em polémicas estéreis. Já é mais que tempo que os politicos trabalhem para o país e sua população e não para os partidos e ainda menos por interesse pessoal.
Concluo dizendo que nesta eleição, a democracia ganhou! Antes de mais a participação foi massiva. A política ganhou legitimidade e os políticos dignidade. A França viveu ontem um serão eleitoral apaziguado, durante o qual, vencedores e vencidos se manifestaram respeito mútuo! Fernando.

domingo, 6 de maio de 2007

MEMÓRIAS DE MIM (V) - DOMINUS VOBISCUM!...


Já não me ocorre o seu nome completo mas, para nós todos, era o Faustino. Referencio-o como oriundo de Lousada, perto do Porto, e julgo não ter chegado a Fátima. Dono de uma piada fina, espontânea e oportuna, dele recordo a sua natural apetência para a arte de Talma, naquelas representações teatrais que fazíamos por Aldeia Nova e que contavam com o Medeiros como grande entusiasta. Não se recordam do Medeiros, um açoriano de gema?... E um tal Soares?... Mas voltemos ao Faustino, que uma bela altura, num teatro, encarnou o papel de um tal Fausto Camolas Barbaças!... Mas, adiante!
Nós, os seminaristas da Beira Alta, em cada viagem para Aldeia Nova, íamos apanhando o velho comboio de máquina a vapor nas estações que serviam as nossas terrinhas. Em Vilar Formoso subia o Lines, no Rochoso o Igreja; na Guarda o Zé Lourenço, o Zé da Cruz (Pe. Pedro), o Valério, o Melro, o Salvado, o Brás, o Jesuíno e outros que já não recordo; em Celorico da Beira entrava eu, o Milagre, Os Saraivas, o Campos, o Barreiros, um Muxagata… e quem mais?... Enfim, lá íamos reservando uma carruagem só para nós. Chegados à estação da Pampilhosa, ali nos quedávamos durante duas longas horas para transbordo, esperando o trem que vinha do Porto e que trazia a malta de Trás-os-Montes, Minho e Douro.
O reencontro era sempre uma festa e também eles já traziam meia carruagem por sua conta e sempre esperando por nós, os da Beira. Por via de regra, o regresso a Aldeia Nova, acontecia à segunda-feira e daí que os passageiros que nesse dia mais povoavam os comboios fossem magalas, seminaristas (estorninhos como diz o Celestino), estudantes e outros aventureiros. Os nossos fatinhos pretos identificavam-nos e, por isso, os mimos em jeito de piropo, também iam sobrando.
-Estação de Coimbra B!... –Berrava o roufenho megafone, enquanto no cais se ouviam pregões estridentes e repetitivos das vendedeiras que soltavam em recto tono:
-Arrufadas de Coimbra e Cavacas do Luso… Bilha e água!...
Em Coimbra, a paragem era algo demorada dada a afluência de passageiros que subiam e desciam, sobrando tempo para comprar a bilha de barro cheia água de duvidosa proveniência. Dez tostões por unidade, até era barata feira!... Naquele dia subiram muitos soldados em Coimbra, que se apinharam na nossa carruagem, mas no extremo oposto àquele em que nós viajávamos. Um militar, quiçá mais erudito ou brincalhão, ao ver tanto seminarista , solta em voz sonante e com canónica entoação:
-Dominus vobiscum!...
Do meio de nós ergue-se o Faustino para responder no mesmo tom:
-És o maior burro que eu tenho visto!

Saudações amigas

Nelson


quinta-feira, 3 de maio de 2007

MAIO EM FÁTIMA


Através de uma conexão pavloviana ainda pouco estudada, Maio, mas sobretudo o dia 13 deste mês, reporta-nos de imediato para Fátima, esta localidade onde se deu o milagre da transformação de um ermo pedregoso num burgo populoso, onde floresce o comércio, a arte (sacra), a indústria da cera, do betão armado e do turismo (religioso). As pessoas sentem-se atraídas por aquele local, onde se respira um ambiente artístico sublime pela sua estatuária, pela sua arquitectura, pelos seus espaços verdes, pela sua medalhística, pelas suas rotundas monumentais e pelas mais diversas manifestações culturais como museus (de cera), exposições e sessões cinematográficas.
Vivi ali, e nesse tempo conhecia todos os recantos, de tal forma que, nos tempos livres, angariava alguns proventos extra, na actividade de guia. Explicava tudo em pormenor aos atentos excursionistas: como, onde, quando e porquê. Naquele contexto, um elemento fugiu sempre à minha compreensão: a pista das promessas. Por dispôr apenas de uma faixa, aquele desporto é pouco competitivo, já que não permite ultrapassagens. Provavelmente as corridas de joelhos são contra-relógios, pois só assim se explica o acompanhamento e incentivo dos treinadores que sempre ladeiam os atletas. Mas como não são publicados os tempos, nem se sabe qual o recorde, os adeptos a assistir, são ali ainda menos, que nas restantes provas de atletismo.
Aquela data associada àquele local, traz-me à memória imagens já um pouco difusas e por isso falhas de objectividade. Ainda assim, recordo-o como um dia especial. O convento enchia-se de pessoas desconhecidas e personagens ilustres, das quais sobressaía o herdeiro ao trono, sua alteza o duque de Bragança, pai do actual, que impreterivelmente visitava o convento naquele dia. Tinha o privilégio de ser o único estranho à Ordem, a penetrar no espaço de clausura e a almoçar no refeitório dos frades. Por isso, naquele dia a ementa era esmerada.
Os frades vestiam o hábito de gala, não dispensando a capa, mesmo que o calor os fizesse destilar. Caminhavam com andar mais desembaraçado que costume, fazendo roçagar as suas vestes pela multidão, que abria passagem e olhava reverencialmente para aqueles símbolos da castidade.
Não se quedavam entre a multidão, antes tinham lugar reservado numa das colunatas, ao abrigo das intempéries, dos apertos e do cheiro a povo. Do seu posto de privilégio, observavam a multidão do alto e admiravam a enorme fé, espírito de sacrifício, de pobreza e de humildade.
Acabada a cerimónia, todos ficam comovidos com a ideia do adeus. Que bom seria continuar sempre aqui. Por isso é que o negócio imobiliário tem florescido, porque a compra de casa, representa o alívio de não ter de dizer adeus, com comoção de lenço na mão.
Se em todas localidades do país há imagens da Nª Senhora, os fieis podem matar as saudades a todo o momento e em qualquer lugar. Não sendo assim, leva à concorrência entre as Nossas Senhoras. Nomeadamente, já dizem no Sítio, que a Senhora de Fátima foi o diabo que apareceu à Senhora da Nazaré. O próprio D. Fuas Roupinho acaba por ser vítima de descriminação por esquecimento, ele que foi herói e duplamente vidente, pois para além da aparição no Sítio, foi também num arroubo místico que enviou para o céu umas dezenas de mouros na batalha de Ourique. Como se pode ler na fachada da Câmara Municipal de Ourique o nosso herói colaborou com D. Afonso Henriques na vitória sobre os cinco reis mouros, atestada nos compêndios históricos mais insuspeitos.

"A pintura daquela vitória são cinco escudos de cinco reis mouros que ele ali venceu. E porque os venceu com ajuda de Jesus Cristo crucificado, que lhe a ele apareceu, mandou pintar aqueles cinco escudos sobre uma cruz azul, a qual dizem que era a insígnia antiga deste reino. Mandou mais pintar em cada um daqueles escudos cinco pontos que fazem número de vinte e cinco, e com os cinco escudos fazem trinta. Estes números quis ele que significassem os cinco escudos cinco chagas principais de Jesus Cristo, e o número de trinta significasse os trinta dinheiros por que ele foi vendido"28. Fernando Oliveira, História de Portugal
Fernando Oliveira (c. 1507-c.1582), formado em Évora no Convento dos Dominicanos, foi um dos mais originais e mais multifacetados escritores do Humanismo português.

Tivesse D. Fuas vivido na época da TVI e seria tão ou mais famoso que a irmã Lúcia ou o José Castelo Branco.

Com fraternais saudações, vosso
Ezequiel Vintém (ex-frei Pancrácio)

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Fotos do último encontro em Aldeia Nova, cedidas pelo Neves de Carvalho:










SE RECORDAR É VIVER... ENTÃO RECORDEMOS

Do arquivo do Zé Celestino:


Foto nº 1












Foto nº 2










Foto nº 3








Foto nº 4













Foto nº 5

TERRA

Para quem tem dúvidas sobre os problemas "estufa", aqui vão 2 transcrições:
"Segundo James Lovelock, em a Vingança de Gaia(2007), anualmente lançam-se na atmosfera cerca de 27 mil milhões de toneladas de dióxido de carbono que, condensadas, equivaleriam a uma montanha de 1,5 Km. de altura com uma base de 19 Km. de extensão. É o efeito estufa que pode elevar a temperatura global, ainda neste século, entre 1,8 a 6,4 graus Celsius. Com as medidas que possivelmente serão tomadas, a elevação de 3 graus é tida como a mais provável, mas inevitável.
As consequências serão incontroláveis, os oceanos subirão entre 18 e 59 cm, inundando cidades litorais como o Rio de Janeiro(e outras), haverá devastação fantástica da biodiversidade e milhões de pessoas correm o risco de desaparecer."
"Jacques Chirac, presidente da França, face a tais dados, disse:Chegou a hora de uma revolução no verdadeiro sentido da palavra: uma revolução das consciências, da economia e da acção politica".
"Aos 3 famosos "R"s: reduzir, reutilizar e reciclar, temos que acrescentar um quarto: rearborizar todo o planeta, porque são as plantas que capturam o dióxido de carbono e reduzem consideravelmente o aquecimento global."
Meditemos!...
J:Moreno

O BLOG ESTÁ EM PERIGO???

Perante 2 mil e tal consultas, num curto espaço de tempo, e as participações-depoimentos que já fazem parte da História da Província Portuguesa Dominicana, será que o blog não tem pernas para andar ?
Os relatos, verdadeiras histórias de vida com uma elevação e sentido fraterno de partilha, será que é sinal de crise ?
A ternura com que são contadas histórias aos netos/as, trabalhos de investigação, poemas, reflexões de uma vida nem sempre fácil, são sinal de crise ?
Na minha modesta opinião foram felizes os "PAIS" do blog com o título e a intenção do CRIAR LAÇOS.
Gostava de trazer junto de Vós, o seguinte:
1-As novas tecnologias permitem que a nova série de O Facho(sem ter de correr para a tipografia em Leiria ou Alcanena) seja feita por nós. Cada uma consulta em sua casa ou no café.
As participações têm sido da minha( nossas) geração. Porque não tentar dar a conhecer às gerações anteriores e posteriores ?
2 Porque não aproveitar a lista das moradas, que é utilizada para o Aviso-Convite do Encontro Anual, no sentido de comunicar a existência e endereço do blog ?
Julgo serem poucos os que temos conhecimento do blog e a sua função é ....criar mais laços.
3- Não entendo nada de economia mas penso que é de partilhar com o "Director-Editor" NELSON VEIGA as despesas passadas, presentes e futuras.
4- É minha convicção de que o blog vai ser partilhado por ex,esposas,filhos/as e netos/as.
Democraticamente aqui deixo estas simples reflexões para serem partilhadas.
Vou até ao campo ouvir a sinfonia das aves que ainda habitam o lugar e apreciar o trabalho das joaninhas que andam no faval na sua procura de alimento e evitam o homem de usar produtos químicos mas... no meu silencio continuarei a "beber" as participações de todos VÓS.
J.Moreno

Comentário ao texto do José Oliveira, sobre o Pe. Clemente de Oliveira

Acabo de ler e reler o teu texto sobre o Padre Oliveira e não entendo aquela de meteres espírito revolucionário e teologia da libertação. Detenho dos teus escritos anteriores de que és professor e como tal deves estar familiarizado com os problemas que o Armando Alexandrino apontava na sua última conversa com a neta Vitória. Será que não és sensível a tais problemas ? Não olhas para a tua cidade de infância e para a de hoje ? Quando vem chuva são só inundações. O alcatrão tapou a terra. Não notas no tempo, ao saíres de casa . as diferenças climatéricas ?
Tens medo do espírito revolucionário ? Que foi Cristo para a sua época e ainda hoje ? Tens medo da teologia da libertação ? E não tens medo da teologia do Banco Ambrosiano, Banco do Vaticano ?
Como tu, também eu me apaixonei pelo espírito VERITAS e por isso, sou obrigado a dizer-te que conheci o A.Alexandrino no Noviciado, F. Vaz e outros. Os nossos Mestres conseguiram criar um espírito de IRMÃOS que ainda hoje mantemos essa ligação.
Muito antes de teres medo da teologia da libertação e revolução francesa, já esses nossos Irmãos praticavam,diariamente, a TEOLOGIA DA PARTILHA, SOLIDARIEDADE, FRATERNIDADE. De alguns deles e concretamente do A.Alexandrino, sou testemunha da ajuda e partilha que deu no tempo de tropa e na sua vida profissional. Não se tratava de colaborar na "balda" mas no sentido da justiça e da fraternidade. Se um dia fores aos locais onde nasceu o A.Alexandrino ou o F.Vaz vais ver que são locais onde a nossa vista não têm muralhas.Um tempo o mar profundo e o outro tem a profundidade dos campos a perder de vista.
Gostaria de me despedir de ti em latim mas opto por utilizar uma frase de um Homem(sem Medos) que nasceu no Porto e morreu em Lisboa, mas que era cidadão do mundo:Prof.Agostinho da Silva "não sou do ortodoxo nem do heterodoxo;cada um deles só exprime metade da vida; sou do paradoxo que a contem no total"
J.Moreno

"ONDE É QUE TU ESTAVAS NO DIA 25 DE ABRIL DE 1974?"


Antes de mais quero fazer eco a todas as vozes que já se levantaram para congratular-se com a entrada no blog do Neves de Carvalho...Mais uma “caneta”, de boa marca, que vem enriquecer o blog, e encorajar-nos a continuar. Que óptima ideia teve o António Ferreira ao introduzir o tema do 25 de Abril. Já lí duas vezes os textos que seguiram: do Neves de Carvalho, do Alexandrino, do Nelson, e do Celestino. Leio sempre pelo menos duas vezes todos os textos. A primeira em diagonal, para ràpidamente ter uma ideia do que é dito, (curiosidade!) e depois com mais calma e de forma reflectida.
Os momentos excepcionais que vivemos no dia 25 de Abril e nos dias e meses que seguiram, constituiram uma experiência única para cada um de nós; Ela marcou-nos profundamente. A prova é que cada um recorda exactamente o momento e o lugar em que recebeu essa notícia, que ia mudar a face do nosso Portugal. Como sabeis, devido à diáspora organizada pelo Provincial de então, Pe Raúl Rolo, deixei Portugal em Setembro de 1967. Quando abandonei a Ordem em 1970 e não me apresentei em Portugal para fazer o serviço militar, fui considerado como desertor e não pude voltar ao nosso país. Com a nossa Filosofia de quatro vinténs, já diziamos em Fátima que não é o homem que se constrói, mas são as circunstãncias da vida que o forjam. As tais circunstâncias fizeram com que nessa quinta feira dia 25 de Abril, me encontrasse em Clermont Ferrand. Entrei no meu escritório da Michelin às 8 horas e encontrei sobre a mesa um fax que dizia mais ou menos “ há uma revolta aquí em Lisboa não se sabe no que tudo isto vai dar. Comunicaremos por fax. Por telefone já não consigo...” a assinatura era do António Guimarães, responsável da Michelin em Portugal, meu amigo e cunhado do embaixador de Portugal no Marrocos. Imediatamente foi nomeado um dirigente françês para Michelin Portugal e o Guimarães assumiu a responsabilidade da administração Michelin do Brasil...(isto para a pequena história ). Os dez mil portuguêses de Clermont começaram a festejar timidamente a notícia para celebrar mais tarde a vitória em todas as associações, de modo especial na “Biblioteca Portuguesa” que o vosso servidor tinha fundado, alguns anos antes. Bem podeis imaginar que, privado de Portugal durante sete anos, o meu desejo era pegar no carro e precipitar-me para esse país que muito criticava, mas muito mais amava. A SAUDADE (mistura de muito amor e ausência prolongada) tornava-se insuportável! A prudência, que morreu de velha, a minha Isabel de 3 aninhos e o Benoît, de 2 meses levaram-me a adiar... Em agosto de 1975 deixámos o Bébé com a Mamie e fomos apresentar a Isabel aos avós trasmontanos. Ao chegar a Quintanilha, felizmente que ninguém me pediu para exprimir os sentimentos do momento. Minha mulher respeitou o meu silêncio que foi o nosso modo de comunicação de quase toda a viagem de ida! Na fronteira tanto os papeis como o carro e nós mesmos, tudo foi mirado à lupa o que eu achei normal, visto que a situação ainda se estava a consolidar. As três semanas passaram depressa! Ainda hoje quando pergunto à minha mulher (Auvergnate), que recordação guarda dessa viagem, a resposta é invariável: incêndios por toda a parte, apreensão e odor de queimado. Eu encontrei alguns amigos, as paisagens, e os odores da minha infância. Recordo também o cheiro a queimado, mas misturados com o perfume da LIBERDADE!...
Fernando Vaz

terça-feira, 1 de maio de 2007

"ONDE É QUE TU ESTAVAS NO DIA 25 DE ABRIL DE 1974?"


Meus amigos:
Li, com particular atenção, as vossas vivências do 25 de Abril/74. Considero muito importante que se fale deste assunto. Os nossos vindouros precisam de saber que tipo de regime político havia em Portugal antes do 25 de Abril/74... Quem era protegido e quem era perseguido pelo regime... Falar deste tema daria para escrever longas páginas...Mas não quero entrar em análises profundas deste tema no nosso Blog. Ficará para conversas em grupo. O simples facto de podermos expressar-nos livremente sobre o mesmo já é, francamente, muito bom...O dia 25 de Abril vivi-o activamente em Lisboa, na zona do Aeroporto. Logo pela manhã, fui acordado por um colega da TAP que, em serviço durante a noite de 24 para 25, se deu conta do grande movimento de carros militarizados e de tanques na A1, em direcção a Lisboa... A minha mulher, professora do ensino secundário no Barreiro, ficou em casa, seguindo as indicações do MFA. Eu, cerca das 08.00 h, decidi ir até ao Aeroporto... E consegui entrar nas instalações da TAP... Falar do que vi e vivi dava para escrever um livro de longas páginas... Os trabalhadores tinham-se organizado em piquetes de vigilância... De imediato, eu fui integrado num desses piquetes... Durante vários dias e noites vigiei as entradas e saídas no Aeroporto de Lisboa... Havia temor de sabotagem dos aviões ou das instalações aeroportuárias...Dormi algumas noites no Aeroporto... Era um misto de alegria e de receio... Os trabalhadores conviviam com os militares. A TAP sempre foi e continua a ser uma das empresas portuguesas com maior concentração de trabalhadores e de elevada cultura política e partidária, particularmente nas áreas oficinais. Antes do 25 de Abril chegou a ter brutais intervenções da polícia de choque, perseguindo e espancando grupos de trabalhadores concentrados frente ao edifício da Administração, reivindicando melhorias sociais. O derrube do «Estado Novo» foi, pois, para a generalidade dos trabalhadores da TAP um acontecimento de particular júbilo... Sendo certo que o 25 de Abril tem a sua génese no descontentamento dos militares atirados para os combates das colónias, a verdadade é que proporcinou aos portugueses construir um Estado de Direito Democrático, soberano, baseado na dignidade da pessoa humana, na vontade popular e na construção de uma sociedade livre, justa e solidária (Artº 1º.da Lei Fundamental). Prosseguir e alcançar tais objectivos é um trabalho longo e árduo mas gratificante, no qual, todos nós estamos empenhados, ainda que situados em campos partidários diferentes. Só assim se pode dizer que valeu a pena fazer o 25 de Abril de 1974... ( D+D+D...) E ainda há muito a fazer...
Aquele abraço
Zé Celestino