sábado, 17 de fevereiro de 2007

PEDAÇOS DE UMA VIDA

Eu que nunca fui dado à escrita e de meu natural sou tímido e introvertido, perante as tão interessantes exposições de vida apresentadas pelo Fernando Vaz, pelo Alexandrino e pelo Nelson, ganhei coragem e venho também dar notícia de alguns dados biográficos que podem contribuir para um estreitar de laços e alargar um mútuo conhecimento. Mas antes quero felicitar esse beirão de Trancoso por tão oportuna iniciativa que nos põe a comunicar uns com os outros.
Por hoje deixo aqui breves notas acerca de parte de uma vida que um dia foi chamada mas não escolhida.
Decorria o ano de 1967 quando arribei às faldas da serra d`Aire e aí, vestido de branco, como que pairava entre o céu e a terra ao som melodioso dos sinos da Basílica. Como era edificante depois das horas conventuais passear-me pelas ruas de Fátima e olhar as montras onde comerciantes impelidos pelo seu zelo religioso e o seu profundo sentido estético, nos oferecem, aos milhares, objectos tão santos e tão belos. Como era pacífica e tranquila a vida conventual onde o silêncio proporcionava o estudo e a meditação. Ali passei vários anos até que numa manhã de Abril, quando lia o Diário de Notícias, tive uma sensação esquisita, ou talvez não fosse uma sensação mas um sentimento eu diria até, um arrepio. Descobri com espanto que tinha perdido a vocação.
-Esta agora! – murmurei. E dirigi-me para o meu quarto. E é então que oiço uns gemidos que vêm do fundo do corredor. Aí encontro torcido e retorcido o Zé Gualdino
( ex -Frei Pulquério) que enchia de tristes suspiros o seráfico ambiente conventual.
-Mas o que é que se passa? – Perguntei com natural inquietação. E o Zé respondeu-me retorcendo os olhos e agatanhando os cabelos:
-Ai de mim que perdi a vocação!...
-Olha a grande coisa. Eu acabo de perder a minha. – Disse eu para o sossegar.
-Mas o que vai ser de mim que durante estes anos só aprendi a ter vocação?! – Disse o Zé todo afogueado.
-Olha –retorqui- podes ser sacristão na tua aldeia.
Então o Zé Gualdino pareceu serenar. Resta dizer que saímos no dia seguinte, ele em direcção à sua aldeia de Trás-os-Montes e eu até Aveiro onde tinha uma irmã freira. Nunca mais tive notícias deste bom colega que perdeu a vocação no mesmo dia e à mesma hora que eu.
Passados oito dias saí de Aveiro e dirigi-me à minha paróquia onde o padre quase me fuzilou por eu te perdido a vocação. O meu pai recebeu-me afavelmente mas disse que agora eu teria de tratar da vidinha.
-O que é que tu sabes fazer? -perguntou-me ele com a sua natural mansidão.
Eu respondi que não sabia fazer grande coisa. Então ele disse:
-Se já houvesse o ofício de arrumador de automóveis, era uma coisa boa para ti mas onde é que ainda anda o choque tecnológico do engenheiro Sócrates!... Olha, vai mas é para professor que é uma coisa que qualquer pessoa pode fazer e que não exige grandes conhecimentos.
E foi assim que, aproveitando alguns saberes de Aldeia Nova, comecei a dar aulas de matemática.
Passados três meses de estar nesta vida de professor fui chamado para a tropa. Como eu tinha sempre continuado a ir à missa dominical e às novenas das primeiras sextas-feiras, mantinha uma boa relação com o padre da freguesia. Foi o que me valeu. Fui ter com ele que meteu uma cunha para eu ir para uma boa especialidade na tropa. Tive a sorte de ir para atirador de infantaria. Mas o que mais me interessava era defender a pátria ou de uma maneira ou de outra. Quando eu já tinha aprendido a defender a pátria, fui mobilizado para Angola. Ir para a frente de combate era o meu sonho porque a retaguarda estava bem entregue a homens como o senhor almirante Américo Tomás. Numa tarde de sol fui mobilizado e entrei no navio Niassa com destino a Angola. Como foi belo e comovente olhar do navio para o cais e ver os nossos pais as nossas mães orgulhosos de seus heróicos filhos. Tocavam-se concertinas pífaros e pandeiretas e as nossas irmãs e namoradas, louçãs, donairosas dançavam canções de roda. A multidão despedia-se em festa daqueles que iam defender este reino de D.Afonso Henriques e de Leonor Teles. E do meio de toda aquela gente, em dado momento levantou-se a voz impaciente dum ancião que nós no barco ouvimos claramente:

“Oh glória de mandar, oh vã cobiça,
a pátria lá longe, tão aflita
e o Niassa aqui parado…Chiça!”

E quando já declinava a tarde lá partimos para defender esta pátria que os nossos maiores forjaram à luz da fé, à força da espada e à sombra da cruz. Levava o navio quinhentas e trinta e cinco pessoas contando com as duas esposas dos cinco oficiais que nos comandavam.
Como vai longa esta crónica de vida, para não vos maçar, termino aqui com a promessa de continuar um dia.

16/02/2007


José Oliveira (ex Frei Imeldo)

2 comentários:

Anónimo disse...

Caro José de Oliveira,
como dizem o Eduardo Bento e o Nelson,também eu nao me lembro de ti,o que é normal pois parti de fàtima quando tu chegavas. Aprecio o humor com que te descreves. Jà devias ter muito humor quando chegaste a fàtima para teres escolhido o nome de frei Imeldo.
Recordas-te como nos divertiamos jà em Aldeia Nova com o nome da Beata Imelda? E ainda para mais o teu Trasmontano de amigo que se chamava Pulquério...faz-me pensar num cantico que certamente cantamos juntos "tota pulcra es Maria..."Cada vez que dizia pulcra nao podia impedir-me de (em pensamento) substituir as 3 letras do meio por um t. Imeldo, Pulquério, chiça... abaixo a màscara, amigo.

Amigos disse...

Ó Zé Oliveira!... vai pensando em tirar a mascarilha, que o F. Vaz está quse a chegar lá...