sábado, 2 de julho de 2016

ISTO, DIGO EU!... QUANDO SE FALA DE EUTANÁSIA



Hei-de confessar que não gosto da maneira como os políticos, nos tempos que correm, se fazem qualificar entre direita e esquerda. Mas, claro, sou eu que não gosto e nem serei obrigado a gostar. É que tal divisão arrasta laivos de segregacionismo, sectarismo e alguma xenofobia à mistura. Mas, e volto a repetir-me, sou eu que não gosto.
Ora este divisionismo acentuou-se mais, depois do quadro político que resultou das eleições legislativas de Outubro do ano findo, em que os partidos vencedores do sufrágio, não conseguiram apoio parlamentar para suporte do governo. Assim sendo, o partido que ficou em segundo lugar, estende a mão esquerda, à esquerda que lhe deu a mão, e assim se afirma uma esquerda contra a direita. Até aqui tudo legítimo ou, pelo menos, legitimado. Claro que este rendez-vous abarca contrapartidas, acordos indigestos e outros amargos de boca. Os anseios das minorias passaram a prevalecer, em ordem ao voto que se pretende para suportar o governo, que o mesmo é dizer, o poder. Há quem diga que é um poder a qualquer preço, mas quem está a pagar e quem vai pagar o preço desse poder, é a sociedade e são todos aqueles que não sufragaram um poder com este figurino. E o governo tem cedido aos ditames da sua mão esquerda, ou da esquerda da sua mão, fazendo aprovar no Parlamento temas fracturantes da nossa sociedade, questões que careciam de amplo debate, de discussão pública e que apenas são anseios de uma minoria. Foi no passado com a despenalização do aborto, foi com o casamento entre pessoas do mesmo sexo e foi, mais recentemente, com a aprovação da lei da adopção por casais do mesmo sexo.
Como se não bastasse o que atrás fica dito, desfralda-se agora bandeira da eutanásia. A palavra eutanásia, que pretende significar uma morte fácil, uma morte calma, está a entrar pelas nossas casas adentro, quase sem pedir licença. A implementação da eutanásia visa roubar precocemente a vida às pessoas que são portadoras de doença em fase terminal, que estejam em sofrimento e que manifestem o desejo de morrer. Assim, a morte teria lugar através da intervenção médica. E por isso lhe chamam, morte medicamente assistida.
É pois um tema fracturante, que a mão esquerda do poder pretende fazer aprovar no parlamento, sem que tal assunto constasse do seu manifesto eleitoral e sem que a sociedade portuguesa seja chamada a pronunciar-se sobre um tema tão melindroso. Todos temos o direito de morrer com dignidade mas, para isso, não precisamos que nos matem. Todos temos o direito a viver com dignidade e a morrer com dignidade, sem que uma lei homicida venha decidir sobre a duração da nossa vida. E para alguém, mesmo com doença terminal, poder morrer com dignidade, não é preciso ser eutanasiado, o que é imperioso é que lhe sejam ministrados cuidados paliativos, por forma a que os últimos dias sejam tranquilos, sem dores e que a morte venha serenamente. Ao invés da pressa em fazer passar uma lei sobre a eutanásia, porque não implementa a tal esquerda, métodos e legislação que amplie e diversifique a Rede de Cuidados Paliativos?
O bastonário da Ordem dos Médicos, em entrevista recente, teceu duras críticas à eutanásia enquanto método para ajudar a morrer. E afirmou mesmo:Quer dar-se o direito às pessoas a terem acesso à morte antecipada sem que tenham, previamente, o direito de aceder a uma unidade de cuidados paliativos. A verdade é que aquilo que se verifica é que as pessoas que têm acesso a uma unidade de cuidados paliativos, normalmente, já não querem morrer. Porquê? Porque deixam de estar em sofrimento e as suas dores são adequadamente tratadas".
Conhecida é a posição da Igreja Católica, que se declara deliberadamente contra qualquer tipo de eutanásia, e muitas e proeminentes são as vozes que se levantam contra este método atentatório da dignidade da pessoa humana.
Ajudem-nos a morrer com dignidade, mas não nos matem.
Isto, digo eu.


Nelson Veiga

2 comentários:

Anónimo disse...

Obrigado pelo excelente artigo cujo conteúdo partilho integralmente mas que por incompetência literária e preguiça não partilho com os outros que infelizmente na grande maioria partilham comigo estes defeitos.

Nelson disse...

Ó Amigo Anónimo, ou Anónimo Amigo:
Ainda bem para mim, que já há mais um a concordar comigo. Graças a Deus são muitos. Essa da "partilha" e não percebi muito bem, mas fica assim mesmo.
Obrigado