quarta-feira, 5 de março de 2014

Parabéns pela efeméride, " Gente Feliz..." e desculpa lá quaisquer equívocos



Raramente leio um livro duas vezes. Exceto um ou outro clássico, ou por razões de força maior, um texto literário, leio-o uma só vez e dele resta depois a boa memória. No entanto, “Gente Feliz…” li-o duas vezes: a primeira exatamente há 25 anos e, agora, uma segunda vez, comemorativa. Recebi com isso uma grata surpresa. Daqui por mais 25 anos ou eu ou o romance seremos de novo surpreendidos se houver tempo para tal.
Em 1988, também me pareceu que esta densa e dura narrativa era fundamentalmente autobiográfica – coisa que o autor não nega mas também não admite assim sem mais. De facto a proximidade e convivência com o autor, a companhia de algum passado comum e sobretudo a memória de anos de conversa e muitas estórias enquanto decorriam as nossas vidinhas, tornavam-me cúmplice de alguns nomes, lugares, ambientes e alusões mais concretas, agora vertidas em ficção.
Passados estes anos, no segundo encontro com Gente Feliz, numa leitura mais distante e eventualmente mais atenta e objetiva, foram-me revelados detalhes essenciais para a aceitação da obra como um evocação mais universal daquilo que quero apelidar como a experiência de vida de um autor que constrói modelos capazes de serem vivenciados por muitas pessoas de diferentes gerações e latitudes. O romance e a ficção vêm à superfície.
De facto, não me tinha apercebido, por exemplo, do profuso e evidente humor, que, numa obra de ambiente narrativo tão duro, atravessa a descrição do real e a desconstrução dos comportamentos de algumas personagens e de factos culturais; não tinha reparado na possibilidade de a freguesia do Rosário poder estar ubicada na minha área geográfica ou até da evidência quase certa daqueles fregueses serem descendentes de minhotos ou vice-versa; obviamente que a diáspora dos açorianos era e é a diáspora de toda a nossa gente onde o desencanto e a desertificação subiram ao mais alto e ermo dos nossos interiores.
Sem fazer concessões de maior, qualquer seminarista que nós conhecemos de ordens e congregações esquisitas e variadas, desde Braga a Fátima ou Lisboa, aceitaria aquele como o seu seminário e aqueles como os seus colegas e superiores: a matriz está lá e é idêntica para todos, in illo tempore, com mais ou menos colorido. O próprio monólogo ou o canto dolente de Marta, já na parte final do romance, num doce instante de amargo realismo, invade a privacidade de muitos lares, instala-se num qualquer quarto de casal e dali não sai sem tocar na ferida e apontar o veneno que, na calmaria ou na voragem do tempo corrói aquilo que fora uma sólida relação.
Como disse, fiquei com a grata sensação de que as marcas autobiográficas, que eu aceito como a experiência de vida do autor, mais não são do que o suporte ficcional da narrativa de “Gente Feliz…” que a tornam intemporal e abrangente. Se eu, um distraído e ocasional leitor, cometi estranhos deslizes de interpretação, que roçam o egoísmo voluntarista de inventar filmes paralelos, imagino a contenção, o esforço emocional e de isenção que é pedido ao narrador para não trair e atrapalhar a vida normal do seu criador.

Manuel Ferraz Faria

3 comentários:

Nelson disse...

Este texto foi-me enviado no dia 17 de Fevereiro, pelo seu autor, o nosso Velho Companheiro Ferraz Faria. Acontece que foi enviado para uma caixa de correio electrónico que há muito não utilizo. Só dei conta hoje e apressei-me a publicar. A todos os amigos, em especial ao João de Melo e ao Ferraz, as minhas sinceras desculpas. Estou a ficar... ... é isso mesmo: Velho!
Abraços
Nelson

Francisco Torres disse...

Bom texto com o "luxo" de um testemunho em direto...grato pelas tuas palavras Manuel e obviamente reiterando num abraço a obra do João de Melo...e vamos ler mts outro que ele tem publicado e acredito, publicará.
Abraça a Todos.
Francisco Torres

Anónimo disse...

Belo texto do Ferraz, quer na escrita límpida que dele é apanágio, quer na apreciação que faz do "Gente Feliz Com Lágrimas".
Li o livro há 25 anos, sem saber quem era o João de Melo, pois o nome não me dizia nada de Aldeia Nova, e para mim era mais um dos novos escritores que enriqueciam o panorama da nossa boa literatura. Era natural, em Aldeia Nova, que os mais velhos não convivessem muito com os mais novos, pois procuravam privar com os da sua idade que eram do mesmo ano. Por isso o João de Melo não me ficou na memória. Da leitura do livro, há 25 anos, não me ficou muita coisa, a não ser o ar poético com que foi escrito e a prosa devidamente construída num português que podia lembrar o Padre António. Com a comemoração dos 25 anos e sabendo agora quem é o João de Melo, reli o livro com mais cuidado levando-me a concordar com a apreciação analítica do Ferraz.

Da toda a obra do João tenho alguns exemplares, alguns já lidos, outros ainda não, mas do que li ficou-me a ideia de se tratar de um escritor que trata o romance com envolturas poéticas muito belas, fazendo juz aos prémios já recebidos.

No Gente Feliz... podemo-nos todos rever, uns mais que outros, da mesma ou de diferentes maneiras, quanto mais não seja pelos ambientes vividos em Aldeia Nova e/ou Fátima.

A sua leitura recomenda-se a todos os que viveram em tais circunstâncias.

Um abraço a todos, e um Bem Haja ao João de Melo pela obra que nos proporcionou ler e reviver.

Neves de Carvalho