domingo, 31 de maio de 2009

PARA CRIAR LAÇOS - Um texto e foto à espera de reavivarmos a memória



Como os comentários do Blog já vão longos, deixo à consideração do Nelson a publicação destas linhas.


Com efeito, quando por lá passei ainda sofríamos os efeitos da guerra, que o santo varão que ora repousa em Santa Comba Dão livrou-nos da guerra mas não conseguiu salvar-nos da fome. Lembro-me que íamos de noite esfarelar o grão de bico que estava na eira para iludir a fome. Tenho muitos episódios desse tempo que registo em livro para um dia talvez apresentar num dos nossos encontros de Fátima. Será não Uma Manhã Submersa mas uma Manhã Triunfal. Possuo uma meia dúzia de fotos, de má qualidade, até por serem antigas. E aqui há perto de dez anos quando visitei a minha irmã, (entretanto já na eterna presença do Senhor),em Clairmont e soube que ali perto exercia o ministério diaconal um português que tinha sido dominicano, procurei ir à fala com ele. E, na missa dominical para a comunidade portuguesa, lá estava eu. Foi assim que conheci o Fernando Vaz que com grande amizade me recebeu no hotel termal que dirige. Cordial, afável, vi nele uma profunda cultura, um raro saber e, logo na homilia e depois nas conversas descobri um dialecta perigoso, eivado de desvios doutrinais de que não comungo. Neste campo a sua esposa, se bem me recordo de seu nome Eloise, está muito mais dentro da ortodoxia católica. Isto tudo a propósito para dizer que na altura dei ao Fernando um conjunto de apontamentos que podem avivar a memória desses anos longínquos em Aldeia Nova. Os meus sobrinhos, em França, devem ter recebido da mãe fotos e algumas cartas minhas que poderão ter interesse. Porém quando há dois anos solicitei aos filhos da minha irmã a devolução desse material apenas recebi como resposta: - Vá pentear macacos. Enfim, estou aqui para sofrer e pregar.
Com estas palavras pretendo responder a algumas solicitações de comentaristas do blog e dizer-lhes que estou ao dispor para reavivar memórias embora a minha de si já vá falhando muito. Felizmente que apareceu gente nova no Blog que nos traz, com os seus comentários, para a Aldeia da saudade. Só isso nos ajuda a criar laços. Começava a estar farto de textos sobre questões politico-sociais, literárias e quejandas que ainda ameaçaram contaminar o blog. Oh meus amigos, o que é que isso interessa, para nos abrir as portas do céu? ( Lamento que a direcção do blog não tenha publicado um texto meu sobre a conversão da Rússia).

António da Purificação

sexta-feira, 29 de maio de 2009

BENTO EM CONSTÂNCIA



É quase uma hora da madrugada do dia 29 de Maio . Venho de um debate com o Frei Bento no Cine teatro de Constância. Aqui perante uma plateia interessada o nosso Bento Domingues falou de vários assuntos donde sobressaem temas como o da estrutura da igreja católica em que ainda continua a ser considerada como igreja apenas a hierarquia. Quando, afinal igreja deve ser todo o povo cristão. Sacerdote é todo o cristão. E a mulher se pode ser cristã, também pode ser chamada a exercer qualquer ministério.
Frei Bento, teólogo de uma lucidez para o nosso tempo mais uma vez, segundo nos habituou, abre caminhos inovadores e só eles propiciadores da alegria cristã.

E. Bento

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Do arquivo do Toninho

Noviciado 1951

Da direita para esquerda da fotografia
1ª fila : Videira e Andrade
2ª fila : Gil, p. Sylvain, Luis Cerdeira e João Domingos
3ª fila : Miguel e Bernardo


Um abraço. António Silva

domingo, 24 de maio de 2009

TEORIA DA CONSPIRAÇÃO

Caros bloguistas:
Esta é dedicada ao Antero Monteiro ao Isidro Dias e tambem ao 2ºano especialmente 2ºB do grupo 64/69.

O primeiro prémio de poesia atribuido ao João de Melo nos jogos florais em Aldeia Nova, não é assim tão facilmente explicavel como parece no artigo de 24 de Janeiro de 2009 no blog. É dada como principal razão o talento poético do autor. Teve sem dúvida grande influência, mas, calma aí! Há antecedentes que provam que essa historia foi manipulada. A coisa começa a complicar-se depois de uma célebre final no nosso campo de futebol em Aldeia Nova. As quatro equipas intervenientes foram as seguintes: 5ºano, 4ºano, 3ºano e 2ºB. O2ºB só participou porque o 3º não conseguiu duas equipas, portanto foi mais ou menos tolerada no quandragular. Eis senão quando, cai a Lua do céu! Então não é que os atrevidos do 2ºB começaram por trucidar o 3ºano, ajustaram contas com os do 4ºano e seguiram para a final contra o 5ºano! Até aqui tudo bem apesar da guerra como 3º e o 4º. O bom e o bonito foi quando se deu a final. O 5ºano entra de rompante e aos 15 minutos está a ganhar 2 a 0, ao pobre 2ºB. Bom, assim se vai para a segunda parte. Os do 2º equilibram-se e o Victor Frazão faz o 1-2, agora é que a coisa começa a aquecer. Pouco depois o Jorge Carvalho faz o 2-2, o 5º encolheu-se e o 2ºB começa a fazer um chuveirinho à inglesa e não é que a 1 minuto do fim o Manuel Carvalho faz o 3-2 com um golão de cabeça! A casa ficou em polvorosa, grande bronca os garotos deram cabo dos grandes. Cuidado, a paródia não fica por aqui! Os mais velhos em geral levaram a coisa a peito e a vingança ia ser servida. Na semana seguinte a insígne Academia decide fazer os Jogos Florais; grande oportunidade para os craques derrotados darem uma tareia nos putos. Qual tareia qual quê? Prova de desenho: o Armindo Ferreira da Silva como bom Barcelense deixou todos de cara à banda e ganhou o 1º lugar. Mas estava guardada mais uma final entre mais velhose mais novos. Em principio esta estava garantida para o João de Melo. O que é que acontece? Um rapazito do Sardoal, grande descontraido, aparece com uma poesia que era uma jóia. Mau, mau. Isto vai dar barraca da grande! O juri ao ser surpreendido por este problema optou e bem por dar o 1º premio aos dois poetas. Os " mais velhos " indignados! os"mais novos" numa contestaçao do arco da velha. O Isidro Dias, O Antero Monteiro, o Pedro Tudela, o Manuel Guerra, o Tóbi , o Dinis, o Luis Guedes e todo o restante 2º ano, assim como o apoio incondicional de todo o 1º ano que incluia entre outros: o Ricardo Vicente, o Porfirio, o Manuel Vieira, o Paciencia, o Armindo, o Sebastiao Martins e eu próprio fizeram tal burburinho que quase ia rebentando a guerra civil de entremuros. Tudo isto deu origem a que os padres dessem o encarrego de clarificar as coisas ao padre Rogério «Paffpa», este reverendo, excelente pessoa, resolveu tudo numa rápida intervenção. Chamou os bandidos que chefiavam os arruaceiros do 2º e do 1ºAno, passou-lhes uma seca monumental e mandou-os calar a corneta. O 1º prémio foi entregue ao João de Melo sem mais delongas e nós os garotos ficamos a chuchar no dedo. Mais de 40 anos depois o prémio devia ser rachado a meio e dar a metade do Francisco Antonio ao respectivo dono. Depois disto nunca mais houve 1º prémio de poesia. Não por demérito dos participantes mas por receio dos filhos baterem nos pais. Atenção que esta batata ainda tem de acabar de ser descascada com o Ferraz Faria, o Celestino, o Alvaro, o João de Melo, o Lopes, O Ze Maria, o Branco Mendes, o Elias Matias, o Abilio e o Carlos Pinto, entre outros, porque gostariamos de saber como é que se convence um padre a fazer batota.
Um abraço do Eduardo Carmo
edcarmo@sapo.pt

sábado, 23 de maio de 2009

MANDAMENTOS


Eu, que sou um leitor assíduo de todos os conteúdos que se publicam em "criarlaços", muito embora não tenha ainda contribuído com a minha participação, o que certamente farei numa qualquer ocasião trazendo a lume o que era, no meu tempo, a Aldeia Nova de 1946 que tinha aberto as suas portas em 1943, um período a seguir à 2.ª Guerra Mundial, na qual Portugal não entrara mas que lhe trouxera algumas consequências nefastas a nível do bem-estar da população que sentiu reflexos nocivos, inclusive a nível alimentar, uma vez que todos sabemos que Portugal nunca foi verdadeiramente um país auto-suficiente na maior parte dos bens de consumo, especialmente nos de primeira necessidade.
Essa análise/abordagem ficará para mais tarde.
Hoje, só o tema trazido a lume pelo Toninho relacionado com o padre Paul Denis, que também foi meu professor de Metafísica e de História da Filosofia de 1952-1954, em Fátima, me fez sair da quietude em que me tenho mantido.
Do padre Paul Denis por quem sempre tive uma desmesurada admiração pelas suas qualidades intelectuais fora do comum e humanas, possuidor de uma visão antecipada da evolução politica, social e económica do futuro dos povos que, hoje, passado mais de meio século, se pode dizer que ele não era, em Portugal, um homem da sua geração, era antes um visionário, que já vivia nos dias de hoje, sem se socorrer da Rádio que ainda tinha poucos anos de existência, da Televisão que só chegaria alguns anos mais tarde, do Telemóvel e da Internet que apareceram recentemente e que a maioria de nós usa para alargar os horizontes do nosso conhecimento, sem que tenha que queimar muito as pestanas á procura da originalidade das coisas.
Nunca me pareceu um rebelde, um "martelador" de ideias que pretendesse impor aos outros, nem sequer o seu pensamento filosófico, ele que, trabalhando com jovens, sabia ouvir quem era inexperiente, num mundo muitíssimo mais fechado que o mundo dos dias de hoje.
Dele, só tenho em meu poder, uma obra do filósofo Gabriel Marcel que ele utilizava no seu dia-a-dia, com o título "Du Refus a L'invocation" que me ofereceu com a seguinte dedicatória: "Em lembrança de três anos de amizade e de trabalho comum. Fátima 31.1.54 fr Paul Denis".
Quanto aos "Mandamentos" que o Toninho teve a amabilidade de transcrever, digam lá se eles não são dos dias de hoje tendo sido escritos há mais de 50 anos!
Quanto à história do regresso à sua pátria, de que eu desconhecia como continuo a desconhecer as causas, lamento!


Carlos Videira

quarta-feira, 20 de maio de 2009

"MANDAMENTOS..." II Parte


6. Nous sommes nés aussi sous le signe de la liberté, donc de la joie. C’est pourquoi dans l’Ordre on vous fait confiance si spontanément; vous êtes considerés comme des adultes. L’envers de la médaille est la possibilité d’une vie desordonnée et stérile , et notre histoire prouve que ce danger n’est pas imaginaire.
7. Efforcez-vous âprement de croître en sagesse et en science. Haec est penitentia nostra. La paresse intelectuelle vous guette à chaque instant de la journée, ou du moins la tentation d’un travail plus facile. Travaillez en profondeur, lisez beaucoup, déployez vos facultés selon toutes leurs dimensions. Il est si rare qu’un dominicain donne sa pleine mesure.
8. Ayez pitié de vos professeurs; résignez-vous à l’inévitable ennui des cours. Au delà de leur enseignement, bon ou médiocre, voyez le Seul qui mérite d’être entendu : Magister unus Christus. Réagissez en classe, réagissez en dehors des classes, questionnez, discutez, defendez-vous sans craindre les mouvements de la houle. Un auditoire silencieux est un supplice pour le professeur.
9. Ne refusez pas d’admirer des intelligences diverses et même opposées. Chacune jouera son rôle dans votre formation et leurs multiples influences forgeront votre personnalité. Voyez également sans envie ni vanité les différences intellectuelles et les divergences d’opinion qui se manifestent entre vous. Divisiones gratiarum sunt. L’uniformité dans un collège ou un studentat serait un signe de crétinisme.
10. Prévoyez dans votre vie des bouleversements et des recommencements à zero, comme si ce jour-là, petit novice, vous repreniez l’habit. Ne craignez rien: d’autres vous ont précédé dans cette voie et y ont trouvé une jeunesse nouvelle. En définitive, unum est necessarium. Il faut dès maintenant vous en convaincre par l’amour, avant de l’être par la vision dans la béatitude.



Aí vão as outras recomendações para uma análise mais global. Ao contrário do que disse na introdução à 1ª parte, o P. Denis foi mandado embora (ou dispensado conforme o Isidro) no final do ano lectivo em 1957. Aquilo que eu (à falta de melhor) designei por “mandamentos”, por estar formulado em 10 pontos, foi o verdadeiro testamento desse professor. E, pelo menos num ponto, o último, ele antecipou o futuro : o seu próprio e o de muitos estudantes da altura, que foram saindo para vários destinos de dois continentes – foi a primeira diáspora. Maior só uns anos mais tarde, sob o provincialato do p.Rolo.
Toninho

segunda-feira, 18 de maio de 2009

"MANDAMENTOS" do Estudante Dominicano


“Mandamentos” do estudante dominicano

Remexendo nos meus papéis no baú de recordações, encontrei o que se pode chamar “os dez mandamentos do estudante dominicano”. Recordo-me terem-nos sido dados por um professor de filosofia belga que ensinava Metafísica, História da Filosofia antiga e contemporânea, etc., o padre Paul Denis. Teria vindo a Portugal visitar um irmão engenheiro que trabalhava ali para os lados de Torres Vedras e tendo conhecimento das necessidades dos dominicanos em Portugal, por cá ficou durante alguns anos. Era um verdadeiro professor que enchia completamente as suas aulas. Dos 60 minutos, ela só dava praticamente meia hora. O resto era para revisão da actualidade, religiosa, política, cultural… Além das aulas, deslocava-se muitas vezes a Lisboa, onde dava conferências e fazia apostolado nos meios universitários e não só. Por volta de 58 ou 59 os superiores de Fátima dispensaram o seu serviço e regressou a Bélgica. A cegueira, ou os ciúmes nunca foram bons conselheiros. Ao reler este texto, compreendo melhor como os dominicanos , se esquecermos o período negro da Inquisição, estiveram sempre à frente, no seu tempo.
Vão em francês, no original, que toda a gente deve compreender. Hoje, vão só os cinco primeiros.
Toninho

1. Ayez foi dans l’Église. Ne vous permettez pas le jeu puéril de l’opposer aux hommes d’Église. À travers eux, donc à travers leurs mesquineries, elle réalise son oeuvre qui est celle du Christ. La présence d’une arrière-garde ne doit pas vous irriter; sans doute a-t-elle son rôle, elle aussi.
2. Aimez votre Ordre comme vous aimez l’Église. Sachez clairement ce que notre Père a voulu en le fondant; demandez-vous surtout ce qu’il ferait aujourd’hui en face du monder moderne. L’Ordre tombe en décrépitude s’il n’est pas en constant évolution. Que son avenir vous obsède et il gardera la fraîcheur de son âge d’or.
3. Soyez ouverts à votre temps; tâchez d’acquérir le “don de sympathie universelle”. Que la crainte des faux-pas ne paralyse jamais vos initiatives; vous-mêmes ne contrariez pas celles des autres. Soyez des audacieux comme le furent saint Thomas et Lacordaire, non des retardataires comme tant de leurs successeurs. Assumez une fois pour toutes les risque de cette attitude.
4. Sachez attendre. Le temps travaille pour vous, les jeunes, irrésistiblement, et il travaille vite. Une fleur s’épanouit à la chaleur du soleil mieux qu’en tyrant sur ses pétales; patientez donc pendant une matinée. Ne vieillissez jamais. Conservez cette vigueur d’âme qui fait la vrair jeunesse; jusqu’à votre dernier jour, gardez une foi intacte en votre ministère apostolique, en vos frères les hommes, en la grâce qui anime tous les enfants de Dieu.
5. Soyez unis, travaillez ensemble; notre charisme est un charisme d’équipe. Nous sommes nés au Moyen-Âge, aux temps des croisades et des corporations. Nos supérieurs doivent être des capitaines de bandes, non des présidents d’assemblées, moins encore des surveillants de collèges.