Eu, em Mangualde.
Instintivamente, como ainda hoje, estendi o braço em direcção à mesa de cabeceira para rodar o botão do rádio. Silêncio absoluto. Sintonizei outra estação e a resposta foi a mesma. Eu e minha mulher desculpámos o mutismo das estações de rádio, com algum ‘apagão’ lá para as bandas de Lisboa. Preparámo-nos para mais um dia de trabalho e, enquanto a Graça se dirigia para a escola de carro, eu fazia a pé os cerca de mil metros que separavam a minha residência da Repartição de Finanças de Mangualde. Não tinha ainda andado uma dezena de metros, quando ao meu lado se queda o Morris do meu saudoso amigo Madeira.
-Entre e ouça! – disse-me de supetão.
“Aqui, posto de comando do Movimentos das Forças Armadas… …”
A notícia chegava-me assim, cerca das 8,30 da manhã, no carro de um amigo precocemente desaparecido.
Por ser o funcionário mais graduado via-me, ao tempo e interinamente, investido nas funções de chefia da Repartição, por vacatura do lugar. Ali chegado e com os demais funcionários, partilhámos notícias e trocámos impressões. O dia de serviço desenvolveu-se dentro da normalidade, com novas mais ou menos acaloradas que os utentes vinham trazendo junto do balcão.
Já no dia 26, quando entrei no meu serviço, o funcionário C.A. dirige-se-me sem conseguir disfarçar uma preocupante postura, já a raiar o medo.
-Preciso de falar consigo no gabinete.
C.A. era, e felizmente ainda é, o alentejano mais beirão que eu conheço. Nascido no Alandroal, quis o destino que aportasse a Mangualde no início da década de cinquenta, como oficial de diligências das Execuções Fiscais, cargo que lhe conseguira o presidente da câmara do seu concelho. Aqui se prendeu de amores, aqui nasceram os filhos e netos e aqui perdeu o sotaque alentejano.
Seguiu-me para o gabinete e fechou a porta, para que os desabafos não fossem escutados. Instado por mim, sobre as razões de tão tímida atitude, começou a desfiar palavras trémulas enquanto os olhos se humedeciam.
-Sabe, o meu pai foi pedir ao presidente da câmara da minha terra para me arranjar um emprego. Ele prometeu que iria tratar disso e que depois diria alguma coisa. Passados dias, chamou-me à câmara para me dizer que podia entrar para as Finanças como oficial de diligências, mas tinha que me inscrever na Legião Portuguesa. Eu aceitei. Distribuíram-me um fato macaco, umas botas e uma boina, mas eu nunca participei em nada e até fui colocado aqui. Eu até só visto o fato macaco para lavar o carro!... Mas ouvi na rádio e na televisão que os legionários podem ser presos e não sei que mais!... O que é que faço à minha via?... Ajude-me!
Tinha acabado de ouvir uma vítima de um despotismo enterrado no dia anterior. Não sabia muito bem o que responder-lhe, mas sempre lhe fui dizendo que tinha acabado o tempo dos medos. Comparei-lhe a minha ida à guerra colonial com a sua condição de legionário passivo e recomendei-lhe que continuasse a lavar o carro com o fato macaco. Ainda hoje, recordamos este episódio de Abril.
Nelson
segunda-feira, 30 de abril de 2007
"ONDE É QUE TU ESTAVAS NO DIA 25 DE ABRIL DE 1974"
Eu fui acordado muito cedo, cerca das 6:00 horas, pelo Joaquim Moreno, que então trabalhava no jornal o “Século”.
- Estive a fazer tempo, - disse-me ele – para não acordar o Luís (recém-nascido), mas estava ansioso para te avisar que está em curso uma revolução, e não pude aguentar mais. Desculpem lá se acordei o puto. Não saiam de casa e liguem o rádio.
- Não será mais uma intentona como a do dia 16 de Março?
- Não, desta vez é mesmo a sério.
Toda a família se levantou de imediato, e ligámos o rádio, que apenas emitia marchas militares. Notava-se no entanto que algo estava a acontecer, porque a programação tinha sido radicalmente alterada, quer na Emissora Nacional, quer no Rádio Clube Português.
Só passado algum tempo, surgiu a leitura dum comunicado, pela voz de Luís Filipe Rocha, ainda muito lacónico, que informava estarem em curso operações militares, aconselhando a população de Lisboa a permanecer em casa e as forças militarizadas a não oferecerem resistência a fim de se evitar o derramamento de sangue. Pouco tempo depois, começaram a ouvir-se canções do Zeca Afonso, o que dava já uma pista sobre a orientação do auto-denominado Movimento das Forças Armadas.
Dia 25 representava o dia de recebimento do ordenado mensal. Ora nessa manhã, eu dispunha de apenas 40$00. Era forçoso procurar levantar dinheiro de forma a estar preparado para qualquer eventualidade. Assim, dirigi-me à agência mais próxima do Banco onde trabalhava. Havia já um aglomerado de pessoas à porta, com a mesma intenção de levantar dinheiro. O gerente, que me descobriu no meio dos clientes, fez-me sinal para entrar por uma porta lateral. Tinha recebido ordens para não abrir. As pessoas que esperavam à porta, quando tal lhes foi comunicado, entraram em fúria e levantaram a voz em uníssono numa gritaria que ecoou pela ruas e praças contíguas: “ abram a porta”; o dinheiro é nosso”; gatunos, queremos o nosso dinheiro”.
Retirei-me com os meus colegas, tão cedo quanto possível e dirigi-me para a estação da C.P., onde estavam a chegar de regresso, muitas pessoas que tinham ido trabalhar, e que contavam ter visto carros de combate, canhões e transportes de militares em toda a baixa lisboeta.
Nas ruas da Amadora havia muita agitação de gente que acorria às mercearias e supermercados, para se abastecerem de mantimentos, sobretudo conservas. Os carros formaram filas nos postos de abastecimento de combustíveis e as bilhas de gás esgotaram.
Havia no ar uma grande interrogação. Todos estavam apreensivos. Ninguém tinha a certeza de nada.
Pelas 13.00 horas telefonei ao meu Director dando-lhe conta do motivo de não ter ido trabalhar e receber instruções para o dia seguinte. Respondeu-me com voz trémula que tinha feito bem e acrescentou comovido: “até amanhã se Deus quiser, Alexandrino”.
Estranhei que quem inicialmente me atendeu e passou o telefone ao meu director, tivesse sido o presidente do Conselho de Administração, o Prof. Dr. Correia de Oliveira, ex-ministro do Estado Novo. O mundo estava às avessas. O titular do mais alto posto da empresa, exercia agora funções de telefonista.
Soube depois que a Administração se reunira excepcionalmente nas instalações da Dir. Recursos Humanos, mesmo ao lado da Dir. Estrangeiro, onde se verificou enorme azáfama naquele dia. É claro que nem nos passa pela cabeça que tivesse havido qualquer movimento de divisas, naquele dia, para países estrangeiros. O único motivo porque a Administração se reuniu naquelas instalações, pela única vez na vida da empresa, foi tão só, para justificar as faltas dos trabalhadores, já que era muito trabalho para o Director de Pessoal…
No final do dia, com as notícias a aclararem a situação, começou a notar-se entre as pessoas uma descompressão que foi abrindo os sorrisos e dando início a uma alegria que só foi plena e transbordante no dia 1 de Maio.
A certeza de que foi um dia extraordinário, está no facto de nos ter ficado na memória em traços indeléveis.
Estamos de novo preocupados com o presente e apreensivos com o futuro, mas a enorme alegria que sentimos então, ninguém a vai conseguir apagar da nossa memória.
A. Alexandrino
domingo, 29 de abril de 2007
NASCEU O RODRIGO
Para o Nelson, avô babado.
Também nós nascemos
em cada dia
ou mesmo em cada hora…
Levando com dor ou alegria
o menino que em nós mora
Ed. Bento
TESTEMUNHO DO 25 DE ABRIL DE 1974 - por Neves de Carvalho
Não entrei no 25 de Abril porque já tinha saído da tropa em 1 de Abril 1971; portanto ainda tivemos que sofrer mais três anos!
Mas antes de sair, estava eu no quartel da Artilharia Pesada 2 em Gaia, quando, num belo dia, o Cor. Pinto Simões ( que foi Presidente da Câmara de Gaia já em democracia) me diz: "Carvalho pegue no pelotão dos Praças, e vá tomar posições de defesa à entrada da Ponte de Arrábida; você saberá o que fazer" Eu era alferes atirador de Artilharia maS não cheguei a ir para o Ultramar, estando já nos últimos meses de serviço militar obrigatório. Como eu sabia que o Cor. Pinto Simões ( morreu há uns anos ) era do contra, pois, nas eleições em 1969, estávamos os dois em Espinho, ele major como 2º Comandante, e eu como alferes, me dizia a mim e a outros camaradas, como o Romero de Magalhães, Barbosa da Costa... "eh pá, vão votar, pois é uma obrigação de cidadania". E ele dizia isso com uma certa cumplicidade, pois se percebia bem que ele era contra a "situação", embora não se pudesse falar abertamente por haver, no quartel, gente que, como o Ten Esteves, lateiro, estava do lado da dita... Fui então para a Ponte da Arrábida e tomei posições com os soldados por mim comandados. Ali passei uma boa parte do dia à espera do que pudesse acontecer, concluindo no final que se tratava dum exercício militar como qualquer outro. Mas também admiti que, vindo de quem vinha a ordem de defender a ponte, havia naquilo um significado que já prenunciava um movimento que mais tarde acabou por vir à luz do dia.
Nesse belo dia 25 de Abril era o Cor. Pinto Simões Comandante da Pesada 2 e o Delegado do MFA no Norte. Logo a seguir fui ter com ele ao quartel, dei-lhe um abraço e ofereci-me para ajudar no que ele entendesse. Disse-me que não era preciso nada, a não ser vigilância activa. Como trabalhava na Refinaria da Sacor, em Leça da Palmeira, foi preciso realmente fazer vigilância pois se tratava de um complexo industrial estratégico para o País.Quanto ao dia 25 de Abril, foi uma beleza! Saí nesse dia às 5 da manhã da Refinaria, pois estive a trabalhar de noite. Já fora da cerca da Refinaria ouvi um mecânico dizer: "eh pá, há qualquer coisa em Lisboa com a tropa; estão a emitir comunicados e música". Fui para casa e, ao deitar-me, disse para minha mulher, jovem médica e grávida da minha filha, que nesse dia estava de urgência no Hospital de S.João: "vê o que se passa, pois em Lisboa há restolho com os militares". Quando ela chegou por volta do meio dia, para o almoço, e me contou, acordando-me, o que se passava, saltei da cama, arranjei-me rápidamente, almocei e fui para a Baixa do Porto. Nos Aliados vi a carrinha da Polícia do Santos Júnior ser apedrejada com os paralelos arrancados da calçada. Um polícia ficou a sangrar, outro rapa da pistola e faz fogo que atinge um cidadão. Vem uma ambulância e leva-o para o Hospital de S. João, e sei mais tarde que minha mulher ficou aflita pois sabia que eu estava no meio dos acontecimentos. Chega entretanto um Unimog do Quartel General e um alferes a comandar uma secção de soldados, armados da célebre G3. A carrinha da Polícia debanda, sendo apedrejada pela malta, e vai a correr para o Hospital de Santo António, pois já levava alguém ferido. Ouço um berro: "agarra que é PIDE", e um gajo a correr pela Rua de Ceuta abaixo e se encafua no escritório das camionetas do Magalhães, de Braga. Entretanto, íamos acompanhando o que se passava em Lisboa pela rádio e pelas notícias no Placard do Comércio do Porto. Quando vem finalmente a boa nova de que o Marcelo se entregou no quartel do Carmo, ouviu-se um grito de Liberdade naquela Baixa do Porto, e milhares de cidadãos festejaram como loucos, com a alegria estampada no rosto. Foi um dia que virou um País, até aí amarrado, kafkiano, atrasado, e prometeu novos horizontes de Liberdade e desenvolvimento. Mas, como sempre... há os puros e os oportunistas.Apesar de tudo, dos sofrimentos que hoje muitos passam por injustiças de toda a ordem, valeu a pena!
Vale sempre a pena a Liberdade!
Neves
sábado, 28 de abril de 2007
ANTÓNIO FERREIRA - Da Austrália com saudade!...
(continuação)
Pois… se bem se lembram onde fiquei na última mensagem (reforma, já na Austrália)
Antes disso, (reforma) obviamente muita coisa se passou. Praticamente… toda uma vida útil de trabalho que decorreu mais ou menos assim:
Casei-me a 15 de Junho de 1968. Nove meses depois era um vaidoso pai de uma menina que pelo Baptismo levou o nome de Graça Antónia. Não se havia passado um ano ainda, nasceu o nosso segundo rebento, um rapaz, João Paulo. E… se eu era vaidoso antes, mais vaidoso fiquei, claro! Mais ou menos 2 anos depois, nascia o nosso terceiro descendente – a Suzie Paula.
Portanto, temos três descendentes a saber: a Graça, o João Paulo e a Suzie que foram e são o meu enlevo.
Todos eles são filhos da terra Timorense, embora hoje sejam "Ozis" (calão para designar Australianos).
A minha vida decorria entre o trabalho e a vida caseira. Muito ocupado!
Da parte da manhã, (7 às 13) trabalhava para os S. G. e C. (Serviços Geográficos e Cadastrais) de Timor. Este era o meu emprego por excelência.
Depois de um pequeno descanço a seguir ao almoço, trabalhava para uma empresa particular que me pagava ainda melhor do que o departamento governamental. Aqui também como topógrafo.
Depois, o resto do dia e parte da noite era passado nos meus afazeres particulares de entre os quais, o principal era o desenho. Montei um pequeno "atlier" e recebia trabalhos particulares. Deitei-me tarde muitas vezes para satisfazer compromissos no que respeitava a datas, para a apresentação dos trabalhos.
Como disse, uma vida muito ocupada. Mas… o dinheiro parecia caír do céu. Tinha, portanto, a minha vida estabelecida e garantida enquanto eu podesse trabalhar.
Mas, claro, "não há bem que sempre dure…" e deu-se o 25 de Abril.
Durante um ano tudo continuou calmo, em Timor. Entretanto os políticos do 25 de Abril, começaram a politizar os estudantes de Timor que se encontravam em Portugal. Por outro lado, mandaram novos elementos (oficiais do exército) para Timor para que, aí eles "injetássem" as ideias deles na população Timorense. Assim nasceram os partidos políticos da UDT e FRETILIN (os dois partidos principais) dos quais, tenho a certeza, muito teem ouvido falar, além de bastantes outros. Depois… em 1975, em Agosto, os problemas começaram a esboçar-se em Dili-Capital de Timor.
Com aquilo que dizem ter sido um golpe de Estado, a UDT que não conseguiu aguentar o movimento a que, com tão boas intenções, deu início no dia 15 de Agosto de 1975 (espero que a minha memória não me atraiçoe), começou a perder terreno a favor do contragolpe da Fretilin. Ora, a Fretilin, tendo o apoio de toda a parte do exército português que se encontrava em Timor mais parte das forças militares Timorenses, que lhes entregaram todas as armas e munições existentes em Timor, usando as ambulâncias militares como camuflagem para transporte das mesmas, estava numa situação priveligiada para ter todo o sucesso. E o que é certo é que foi empurrando toda a UDT para a fronteira com a Indonésia até que foram forçados a refugiarem-se aí mesmo.
Euquanto tudo isso se passava, houve uma evacuação generalizada para as mulheres, crianças e todos os portugueses e suas famílias.
Felizmente, para mim, a minha esposa juntamente com os nossos 3 filhos, conseguiu embarcar. Para mim, a coisa complicou-se um pouco mais e… fui detido e acusado de ter pegado em armas e colaborado com o movimento. Pura mentira!
Assim fui forçado a ficar para trás praticamente debaixo de prisão. Isto porque me disseram que precisavam de mim ao que eu respondi: eu fui ter com vocês quando tudo começou e a resposta que vocês me deram foi: "você mantenha-se for a disto porque isto é um problema entre Timorenses e não seu".
Agora que estão a "arder" dizem que precisam de mim! Para quê? Carne para canhão!?… Pois eu não os acompanho.
E… contra-resposta veio logo a seguir. "Ou vens connosco ou encostamos-te à parede e acabamos contigo já aqui!!!
A isto eu respondi ( talvez um pouco temerariamente): "Pois acabem, mas com vocês eu não vou"!
A resposta que se seguiu da parte deles foi: "Ficas aqui sobe a guarda deste homem enquanto nós vamos falar com o comandante e voltamos já".
A volta foi muito mais demorada do que aquilo que eu esperava e isso começou a fazer germinar a ideia da fuga na minha cabeça. E então, quando a noite caíu, esta velha carcaça, na altura ainda jovem e com uma preparação física de fazer inveja, transformou-se num fugitivo que teve homens armados até aos dentes, passando por cima da sua cabeça, apenas com a separação de uma tábua, mergulhado em água e gasóleo até ao pescoço. Mas depois de muitas mais peripécias – algumas de um certo risco, consegui mesmo pôr-me a salvo e chegar à Austrália, onde desembarquei em Darwin- capital do Norte da Austrália – no dia 29 de Agosto de 1975.
E… chega por hoje! Desculpai a maçada. Quando conseguir publicar no Blog já não vos maçarei mais.
Até lá…
Aquele velho abraço, meus amigos! Até à próxima.
AFerreira
Antes disso, (reforma) obviamente muita coisa se passou. Praticamente… toda uma vida útil de trabalho que decorreu mais ou menos assim:
Casei-me a 15 de Junho de 1968. Nove meses depois era um vaidoso pai de uma menina que pelo Baptismo levou o nome de Graça Antónia. Não se havia passado um ano ainda, nasceu o nosso segundo rebento, um rapaz, João Paulo. E… se eu era vaidoso antes, mais vaidoso fiquei, claro! Mais ou menos 2 anos depois, nascia o nosso terceiro descendente – a Suzie Paula.
Portanto, temos três descendentes a saber: a Graça, o João Paulo e a Suzie que foram e são o meu enlevo.
Todos eles são filhos da terra Timorense, embora hoje sejam "Ozis" (calão para designar Australianos).
A minha vida decorria entre o trabalho e a vida caseira. Muito ocupado!
Da parte da manhã, (7 às 13) trabalhava para os S. G. e C. (Serviços Geográficos e Cadastrais) de Timor. Este era o meu emprego por excelência.
Depois de um pequeno descanço a seguir ao almoço, trabalhava para uma empresa particular que me pagava ainda melhor do que o departamento governamental. Aqui também como topógrafo.
Depois, o resto do dia e parte da noite era passado nos meus afazeres particulares de entre os quais, o principal era o desenho. Montei um pequeno "atlier" e recebia trabalhos particulares. Deitei-me tarde muitas vezes para satisfazer compromissos no que respeitava a datas, para a apresentação dos trabalhos.
Como disse, uma vida muito ocupada. Mas… o dinheiro parecia caír do céu. Tinha, portanto, a minha vida estabelecida e garantida enquanto eu podesse trabalhar.
Mas, claro, "não há bem que sempre dure…" e deu-se o 25 de Abril.
Durante um ano tudo continuou calmo, em Timor. Entretanto os políticos do 25 de Abril, começaram a politizar os estudantes de Timor que se encontravam em Portugal. Por outro lado, mandaram novos elementos (oficiais do exército) para Timor para que, aí eles "injetássem" as ideias deles na população Timorense. Assim nasceram os partidos políticos da UDT e FRETILIN (os dois partidos principais) dos quais, tenho a certeza, muito teem ouvido falar, além de bastantes outros. Depois… em 1975, em Agosto, os problemas começaram a esboçar-se em Dili-Capital de Timor.
Com aquilo que dizem ter sido um golpe de Estado, a UDT que não conseguiu aguentar o movimento a que, com tão boas intenções, deu início no dia 15 de Agosto de 1975 (espero que a minha memória não me atraiçoe), começou a perder terreno a favor do contragolpe da Fretilin. Ora, a Fretilin, tendo o apoio de toda a parte do exército português que se encontrava em Timor mais parte das forças militares Timorenses, que lhes entregaram todas as armas e munições existentes em Timor, usando as ambulâncias militares como camuflagem para transporte das mesmas, estava numa situação priveligiada para ter todo o sucesso. E o que é certo é que foi empurrando toda a UDT para a fronteira com a Indonésia até que foram forçados a refugiarem-se aí mesmo.
Euquanto tudo isso se passava, houve uma evacuação generalizada para as mulheres, crianças e todos os portugueses e suas famílias.
Felizmente, para mim, a minha esposa juntamente com os nossos 3 filhos, conseguiu embarcar. Para mim, a coisa complicou-se um pouco mais e… fui detido e acusado de ter pegado em armas e colaborado com o movimento. Pura mentira!
Assim fui forçado a ficar para trás praticamente debaixo de prisão. Isto porque me disseram que precisavam de mim ao que eu respondi: eu fui ter com vocês quando tudo começou e a resposta que vocês me deram foi: "você mantenha-se for a disto porque isto é um problema entre Timorenses e não seu".
Agora que estão a "arder" dizem que precisam de mim! Para quê? Carne para canhão!?… Pois eu não os acompanho.
E… contra-resposta veio logo a seguir. "Ou vens connosco ou encostamos-te à parede e acabamos contigo já aqui!!!
A isto eu respondi ( talvez um pouco temerariamente): "Pois acabem, mas com vocês eu não vou"!
A resposta que se seguiu da parte deles foi: "Ficas aqui sobe a guarda deste homem enquanto nós vamos falar com o comandante e voltamos já".
A volta foi muito mais demorada do que aquilo que eu esperava e isso começou a fazer germinar a ideia da fuga na minha cabeça. E então, quando a noite caíu, esta velha carcaça, na altura ainda jovem e com uma preparação física de fazer inveja, transformou-se num fugitivo que teve homens armados até aos dentes, passando por cima da sua cabeça, apenas com a separação de uma tábua, mergulhado em água e gasóleo até ao pescoço. Mas depois de muitas mais peripécias – algumas de um certo risco, consegui mesmo pôr-me a salvo e chegar à Austrália, onde desembarquei em Darwin- capital do Norte da Austrália – no dia 29 de Agosto de 1975.
E… chega por hoje! Desculpai a maçada. Quando conseguir publicar no Blog já não vos maçarei mais.
Até lá…
Aquele velho abraço, meus amigos! Até à próxima.
AFerreira
segunda-feira, 23 de abril de 2007
ANTÓNIO DA SILVA FERREIRA, o homem dos antípodas
Não cometerei nenhuma inconfidência, se partilhar convosco um extracto de uma mensagem que o "australiano" Ferreira endereçou a mim e ao Zé Celestino. Foi um prazer enorme reencontrar este minhoto, tocador de cavaquinho!... Lembram-se?
Nelson
... ... ...
Eu, depois de ter trabalhado durante 5 anos em Lisboa para o que era então a Direcção Geral dos Serviços Idráulicos…, como disse ao Nelson, atirei-me pela janela fora e caí em Timor Leste-naquela altura Timor Português. Aí passei 2 com a profissão que levei de Lisboa-Hidrometrista. Porém, antes de terminar esses dois de contracto, ao fim dos quais deveria regressar a Lisboa à minha repartição de orígem, conheci a minha esposa e… 6 meses depois… estáva casado. "Levei um tiro tão certeiro" que nunca mais me endireitei. Percebes?…
Portanto, houve reviravolta de 180 graus na minha vida, devido à qual (reviravolta) a minha vida e planos mudaram também.
Fiz, então um curso de desenho arquitectónico e concorri à primeira vaga que houve no quadro das OP de Timor. Não sei como mas… fui o primeiro classificado. Passei, então de hidrometrista a desenhador, profissão de que realmente gostei. Mas não era por aí que eu queria ficar. Comecei, pouco tempo depois, com um curso de topografia que conclui, com sucesso, 3 anos depois. Foi neste trabalho que atingi a minha reforma já aqui na Australia.
Depois virá mais, prometo.
Por agora um grande abraço do velho amigo
AFerreira.
Portanto, houve reviravolta de 180 graus na minha vida, devido à qual (reviravolta) a minha vida e planos mudaram também.
Fiz, então um curso de desenho arquitectónico e concorri à primeira vaga que houve no quadro das OP de Timor. Não sei como mas… fui o primeiro classificado. Passei, então de hidrometrista a desenhador, profissão de que realmente gostei. Mas não era por aí que eu queria ficar. Comecei, pouco tempo depois, com um curso de topografia que conclui, com sucesso, 3 anos depois. Foi neste trabalho que atingi a minha reforma já aqui na Australia.
Depois virá mais, prometo.
Por agora um grande abraço do velho amigo
AFerreira.
domingo, 22 de abril de 2007
Memória breve do notável santo e homem culto, latinista horaciano, o padre Clemente de Oliveira... ...
Memória Breve do notável santo e homem culto, latinista horaciano, o padre Clemente de Oliveira cuja figura será sempre celebrada em todo e qualquer florilégio que antologia fizer dos dominicanos portugueses.
Foi o P.e Oliveira o primeiro dominicano com que hei tido contacto depois que senti em mim despertar aquele apelo do Senhor que alguns designam, muito apropriadamente, por vocação. Concluído o curso na Un. De Lisboa, procurando um contacto com os dominicanos fui encaminhado para Queluz, onde um amigo me dizia haver um convento dominicano e em que discretamente pontificava um santo de nome Oliveira. (Coincidência ou não era meu homónimo).
Descobri no Pe. Oliveira um santo e um sábio, o maior latinista que conheci, eu que frequentei umas aulas livres do gramático notável Nicolau Firmino.
Era de uma inteligência fina, homem clarividente, bondoso mas que nunca deixava fazer o ninho atrás da orelha (perdoe-me ele este grosseiro plebeísmo!) Ouvi depois, quando passei por Fátima, antigos alunos seus contarem interessantes histórias acerca do ambiente de trabalho e de disciplina com que decorriam as suas aulas. Parece que os alunos, imóveis e atentos participavam nas suas aulas com religioso silêncio e laboriosa compostura bebendo as suas lições. Lamento nunca ter sido aluno do Pe Oliveira.
Este homem raro recebeu-me várias vezes no seu cenóbio de Queluz. Daqui me apontou os pedregosos recantos da serra d`Aire onde cheguei num domingo de Abril ecoando, então, por toda a capela a salmodia do ofício divino. Era a hora de Vésperas. Aquele monástico som encheu-me a alma e de mim se apoderou para sempre.
Num dos encontros que tive em Queluz com o Pe Oliveira, o sábio varão retrovertia os Lusíadas para latim, tarefa em que andava empenhado há alguns anos. Era já noite quando nos encontrámos e (pasme-se !) o velho frade fazia o seu trabalho com uma lupa que ele próprio havia construído e desenrolava a sua tarefa alumiado por dois cotos de vela para poupar na electricidade. Eu sei, ele tinha feito voto de pobreza.
Lembro-me. Precisamente nesse dia ele traduzia aquela passagem do Canto V em que a ninfa Tétis sai do mar impudicamente toda nua.
…………………………mihi nocte
Eminus albae, solius, nudae Thetis
Pulchra species sese obviam dedit.
Então o homem sentado à luz de dois pedaços de vela comentava:
«Devemos olhar esta e outras passagens dos Lusíadas à luz da cultura clássica. Devemos olhar com olhos espirituais aquilo que a concupiscência da carne nos convida a olhar com lubricidade. Estas referências dos autores pagãos e dos seus seguidores são uma prefiguração de Maria. Tota pulchra es»
Quem duvida da sabedoria da santidade do Pe Oliveira? O último encontro que tive com ele falou sobretudo, do necessário espírito de humildade que deve ter todo o homem religioso.
( Por falar em humildade… Oh Alexandrino, tu que ainda há dias mereceste de mim alguns elogios pelo teu equilíbrio…Com o teu último texto para o Blog pareces estar possuído pelo espírito revolucionário. Lembra-te que fora da Igreja não há salvação e que o Papa condena a teologia da Libertação. Tu és dos que pegaram na rabiça do arado e olharam para trás? Não tens medo de que te aconteça o mesmo que ao Fernando Vaz manchado pelos resíduos serôdios da Revolução Fancesa? )
Bom, desviei-me do meu propósito que era falar do Pe Oliveira. Já vai longo este texto. Continuarei na próxima.
José Oliveira (ex-fr. Imeldo)
Foi o P.e Oliveira o primeiro dominicano com que hei tido contacto depois que senti em mim despertar aquele apelo do Senhor que alguns designam, muito apropriadamente, por vocação. Concluído o curso na Un. De Lisboa, procurando um contacto com os dominicanos fui encaminhado para Queluz, onde um amigo me dizia haver um convento dominicano e em que discretamente pontificava um santo de nome Oliveira. (Coincidência ou não era meu homónimo).
Descobri no Pe. Oliveira um santo e um sábio, o maior latinista que conheci, eu que frequentei umas aulas livres do gramático notável Nicolau Firmino.
Era de uma inteligência fina, homem clarividente, bondoso mas que nunca deixava fazer o ninho atrás da orelha (perdoe-me ele este grosseiro plebeísmo!) Ouvi depois, quando passei por Fátima, antigos alunos seus contarem interessantes histórias acerca do ambiente de trabalho e de disciplina com que decorriam as suas aulas. Parece que os alunos, imóveis e atentos participavam nas suas aulas com religioso silêncio e laboriosa compostura bebendo as suas lições. Lamento nunca ter sido aluno do Pe Oliveira.
Este homem raro recebeu-me várias vezes no seu cenóbio de Queluz. Daqui me apontou os pedregosos recantos da serra d`Aire onde cheguei num domingo de Abril ecoando, então, por toda a capela a salmodia do ofício divino. Era a hora de Vésperas. Aquele monástico som encheu-me a alma e de mim se apoderou para sempre.
Num dos encontros que tive em Queluz com o Pe Oliveira, o sábio varão retrovertia os Lusíadas para latim, tarefa em que andava empenhado há alguns anos. Era já noite quando nos encontrámos e (pasme-se !) o velho frade fazia o seu trabalho com uma lupa que ele próprio havia construído e desenrolava a sua tarefa alumiado por dois cotos de vela para poupar na electricidade. Eu sei, ele tinha feito voto de pobreza.
Lembro-me. Precisamente nesse dia ele traduzia aquela passagem do Canto V em que a ninfa Tétis sai do mar impudicamente toda nua.
…………………………mihi nocte
Eminus albae, solius, nudae Thetis
Pulchra species sese obviam dedit.
Então o homem sentado à luz de dois pedaços de vela comentava:
«Devemos olhar esta e outras passagens dos Lusíadas à luz da cultura clássica. Devemos olhar com olhos espirituais aquilo que a concupiscência da carne nos convida a olhar com lubricidade. Estas referências dos autores pagãos e dos seus seguidores são uma prefiguração de Maria. Tota pulchra es»
Quem duvida da sabedoria da santidade do Pe Oliveira? O último encontro que tive com ele falou sobretudo, do necessário espírito de humildade que deve ter todo o homem religioso.
( Por falar em humildade… Oh Alexandrino, tu que ainda há dias mereceste de mim alguns elogios pelo teu equilíbrio…Com o teu último texto para o Blog pareces estar possuído pelo espírito revolucionário. Lembra-te que fora da Igreja não há salvação e que o Papa condena a teologia da Libertação. Tu és dos que pegaram na rabiça do arado e olharam para trás? Não tens medo de que te aconteça o mesmo que ao Fernando Vaz manchado pelos resíduos serôdios da Revolução Fancesa? )
Bom, desviei-me do meu propósito que era falar do Pe Oliveira. Já vai longo este texto. Continuarei na próxima.
José Oliveira (ex-fr. Imeldo)
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