– 2º Episódio
TARDE DE DOMINGO NO JARDIM BOTÂNICO
Às 16:00 horas, mais coisa menos coisa, o casal Oliveira toma o eléctrico 32, que passa mesmo à porta de sua casa. Apeiam-se vários passageiros para os ajudar a subir. - Oh avozinha, ajude um bocadinho! Upa! Já dentro do eléctrico, quando procurava um lugar para se sentar, a D. Patena desequilibra-se e cai no colo de um soldado, e grita: - Ai que horror! Um soldado!
– Por um euro queria um alferes, minha senhora.
– Respeitinho rapaz, - atalha o Dr. Oliveira – a senhora já viveu com um alferes, que por acaso agora até é tenente. Levante-se e bata continência. Este país tem de se habituar a respeitar os heróis, que como eu defenderam a pátria nas províncias ultramarinas, para evitar que a União Soviética lá pusesse a pata. Olhe que eu estive dez horas debaixo de fogo.
Aqui para nós, este Dr. Oliveira é um publicitário. Nunca saiu dos gabinetes do Quartel General, graças às cunhas do Sr. Cardeal Cerejeira. Ele refere-se a certo dia, em que esteve longas horas numa patuscada de churrasco, e onde a braseira se situava precisamente no terraço por cima das cabeças dos convivas.
Despejados na paragem próxima do Jardim Botânico, entram pelo portão da R. da Alegria.
- Boa tarde Sr. Doutor, o seu amigo Dr. Bagão Félix já aí está.
- Obrigado António, eu sei onde o encontrar.
- Vamos por aqui doçura, quero fazer uma carícia ao taxodium distichum.
- Está bem fofinho. Qual é? Ah! Já me lembro, o cipreste dos plátanos.
Uma das razões porque o Dr. Oliveira, prefere este passeio a todos os outros é que aqui tem oportunidade de praticar o seu latim. Torna-se um pouco penoso para a D. Patena, que de latim só conhece a palavra amen. Além disso tem dificuldade em compreender porque é que o esposo há-de chamar chamaeropsis humilis à palmeira anã, que sempre foi uma planta modesta, ou taxus baccata ao pobre do teixo. Porém segundo os princípios que professa com o seu esposo, os verdadeiros princípios católicos, a mulher tem de ser fiel e obediente ao marido. Deve segui-lo cegamente e estar sempre atenta a qualquer desejo do seu amo, assim como uma escrava.
Acariciado o taxodium que ficou muito sensibilizado, encaminhou-se para a chorisia crispiflora a quem tem muita dificuldade em abraçar, ficando-se pelas palavras doces. Em bom português a D. Patena, trata-a por paineira barriguda, com a qual não quer meças.
Roçaram pela araucária bidwilli e inevitavelmente pela ficus religiosa, até avistarem o Dr. Bagão Félix no local de encontro favorito, junto à araucária heterophylla na rotunda central. O Dr. Oliveira tem ainda em comum com o amigo, o amor pelo clube da “galinha” (já não há águias), a actividade conjunta de catequistas na paróquia de S. Domingos e a afinidade ideológica.
- Olá meu caro Bagão!
- Como vais tu Oliveira? E a minha cara amiga Patena? diz o Dr. Bagão, dobrando-se para lhe beijar a mão.
- Muito bem Dr. a não ser este calor abrasador que nos dá uma enorme vontade de comer um gelado. É a minha primeira ideia de hoje. Enquanto ficam a falar latim, eu vou comprar gelados. Também quer Dr.?
- Agradeço, mas eu estou a cumprir jejum, para que os socialistas não alterem o meu Código de Trabalho inspirado na doutrina social da Igreja..
- Ai que horror! Gritou a D. Patena.
- O que foi mulher – acudiu pressuroso o Dr. Oliveira.
- Uma lagartixa, que nojo! Não venho mais a este jardim. Quando este bicho crescer, é capaz de comer criancinhas.
- Descansa mulher. Quem nasce para lagartixa, nunca chega a jacaré.
Houve tempo em que andavam por aqui o Rex Dinossaurus ou o Tinanossaurus. O próprio Dinossauro Excelentíssimo passeou por estas alamedas. Afastados aqueles, mandaram aqui alguns exemplares de elevada estatura. O seu espaço está agora a ser disputado por pequenos rastejantes.
- Há bichos pequenos que são bem assustadores, como as osgas, que no Algarve surgem de todos os lados – atalha o Dr. Félix. - De qualquer modo, eu gosto daquela província, onde se comem óptimos frutos de ficus carisa, de terminalia catappa, e se bebe a bela aguardente de arbustus unedo.
- Lá para o norte, os frutos mais apreciados medram sobretudo no Inverno como os da castania sativa ou da pumus, das quais há agora grandes plantações nos vales dos montes Hermínios . Lembrar-me que aquelas terras estiveram pejadas de quercus, cuja madeira deu corpo às naus com as quais descobrimos o mundo e agora só lá vemos pinus e eucalyptus. O ulmus minor assim como o fraximus excelsior também têm desaparecido daquelas paragens.
É sempre assim. Aos domingos o Dr. Oliveira embrenha-se na natureza, esquece a cidade e diverte-se bué. O domingo é o dia do Senhor, um dia de diversão. Mas não a diversão dos que desperdiçam o tempo em Centros Comerciais ou Hipermercados. Os bons cristãos divertem-se no seio da natureza, porque assim estão mais perto de Deus.
Aqui, no coração da cidade, pensa o Dr. Oliveira, usufrui-se da natureza domesticada, ordenada, etiquetada. Nada aqui se compara à confusão e mesmo anarquismo da natureza dos meios rurais, onde a flora surge desordenadamente sem pedir licença, sem se saber quem são, donde vieram, e quais os seus efeitos. Aproveitando-se desse caos a fauna mais infesta e tenebrosa instala-se, afastando os humanos. Os seres mais venenosos e obscuros, muitos dos quais nem chegam a ser vistos pelo homem, proliferam ali desordenadamente. O próprio Deus, na ideia do Dr. Oliveira, teve necessidade um dia arrasar essa fauna e essa flora através do dilúvio, para pôr ordem na anarquia e recomeçar com seres catalogados, etiquetados e domesticados. Em Portugal, para obtenção dos mesmos objectivos, opta-se preferencialmente pelo fogo.
A ordem, o respeito, a autoridade, a sociedade unicolor, constituem as bases para uma vida em segurança e paz, na concepção do Dr. José Oliveira.
Ezequiel Vintém (ex- frei Pancrácio)