sexta-feira, 8 de junho de 2007

Retrato-robot de Ezequiel Vintém, em tempos idos Frei Pancrácio, e de sua fidelíssima esposa Pancrácia Vintoa


(Foram duas as arremetidas falhadas levadas a cabo por um tal Vintém para me parodiar e à minha esposa com um suposto retrato robot)

É dia de Corpo de Deus festa que a santa igreja celebra com toda a solenidade. E é feriado para todos os portugueses católicos e não católicos.
Pelas nove horas Ezequiel e Pancrácia saem de casa de braço dado. Andam pelos sessenta anos, ele mama na teta do funcionalismo público e ela foi há anos reformada compulsivamente por assédio sexual a um seu subordinado na secção de finanças. Aí vão eles, na manhã lisboeta, simulando o casal mais aconchegado do mundo. Nesta manhã de feriado religioso irão à missa? Move-os o sentido religioso de participação na eucaristia? Qual quê! O casal Vintém dirige-se para a sede do partido de que são militantes ajuramentados, para uma sardinhada que a secção do partido promove nesta manhã de feriado. O marido dirige-se ao primeiro andar onde uma dezena de militantes irá fazer a Análise da Situação Política e, entretanto, a Vintoa colabora na preparação do grelhador debaixo de uma tília raquítica nas traseiras da sede.
Qual análise política!... O Vintém dormita e sonha com a suculenta sardinha enquanto dois ou três correligionários vão dizendo banalidades e as bacoradas próprias dos nossos políticos da capital. Ao fim de duas horas de inútil e asinina conversata política os salvadores da pátria deles, descem para o pátio onde a comezaina começa.
Atentai no Vintém e na Pancrácia, não comem há uma semana. Vede-os com os beiços lambuzados de gordura e de vinho tinto. A Vintoa deixa cair uma pele de sardinha entre as mamas. Não há dúvida, esta mulher até mete cobiça. Mas cobiça mete a qualquer camelo no deserto a bebedeira que o Ezequiel amamenta com vinho e mais vinho. Grande coisa é ser membro de um partido e do partido do governo. A sardinhada é de borla, o povo paga.
Pelo fim da tarde, os Vinténs regressam ao seu triste terceiro andar.
Lambuzados e bêbedos rebolam-se para cima da cama onde há muito não conhecem o que é pacto carnal. Vintém e Vintoa vão adormecendo emitindo arrotos e muitas flatulências. Ressonam, ressonam como o chefe do seu partido na Assembleia da República
Na manhã seguinte quando Ezequiel Vintém sai para a inutilidade da sua repartição, engravatado e recomposto, ninguém suspeita que ali vai um guloso, um oportunista, um alarve.

José Oliveira ( em resposta às muitas agressões recebidas)

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Mais uma para o álbum de recordações...


AQUI, PARECIA CANTAREM VITÓRIA!...

domingo, 3 de junho de 2007

OS SETE -diz o Zé Celestino


AQUI ANDAVAM TODOS Á PAISANA!...
TAMBÉM NÃO DAVA JEITO JOGAR DE SOTAINA!

Ainda, do baú do Celestino...


Mas atenção!... Aqui, neste tempo, já havia equipamentos!...

Arquivo do Zé Celestino


Bons rapazes e aplicados...

sábado, 2 de junho de 2007

POR ESTA ESTRADA


PARA ONDE VAMOS?

“Todos os males atingiram o seu limite, não podem piorar mais.”
Babeuf

As palavras que servem de epígrafe a este texto inscrevem-se numa concepção pessimista do estado a que chegou o mundo. Será pessimismo ou, antes, um olhar consciente lançado com realismo sobre o tempo em que desembocou a História? Muitas vozes, e vindas das mais diversas áreas do pensamento filosófico ou científico, fazem-se ouvir chamando a atenção para o desequilíbrio a que se chegou, seja em questões económicas, climatéricas, educacionais… Parece que essas vozes não encontram eco porque os problemas crescem, a situação agrava-se. Sente-se a necessidade de uma refundação ética da humanidade mas tudo parece propiciar a injustiça, a exclusão, a violência, enfim, a desumanidade da humanidade.
Perguntamo-nos, com inquietação, para onde vamos, que esperança podemos acalentar para emergir desta presente derrota da esperança. Sobretudo, que possibilidades estamos a dar aos mais novos? Como podem eles constituir família, tornar-se independentes dos seus pais? Olhando à nossa volta vemos como os caminhos se fecham aos jovens, como as suas possibilidades são a prazo e tudo parece aniquilar os sonhos e os projectos de quem quer dar um rumo e um sentido à sua vida.
Em Portugal a taxa de desemprego atinge o nível gritante de 8,4 por cento e 18,1 por cento dos jovens entre os 15 e os 24 anos estão desempregados. Como podemos falar de democracia e de liberdade se as pessoas são coarctadas na construção de projectos de vida e estão impossibilitadas de escolha porque lhes falta aquilo que é um direito reconhecido: o trabalho? Onde estão a concretização das fáceis promessas eleitorais? Não foi o actual Primeiro Ministro que prometeu em campanha eleitoral a criação de 150.000 empregos? Todos os dias cresce o desemprego, fecham empresas,
há salários em atraso.
Vão-se levantando algumas vozes denunciando estes problemas, crescem atitudes solidárias de grupos que vão respondendo à situação o melhor que podem. Mas podem pouco perante o deserto que tudo atrofia e seca à sua volta, perante a ganância global dos senhores do mundo e a indiferença ou a colaboração dos que estão à frente do poder dos Estados. Estabeleceu-se uma descrença generalizada no papel dos políticos perante a sua incapacidade de dar resposta eficaz aos problemas dos povos que governam.
Há hoje uma perigosa desordem global que assola o mundo. Perigosa porque, assente na injustiça, não ouve o grito dos mais pobres. Abate-se sobre o mundo a arrogância de um poder obscuro movido pela indiferença para com a injustiça. Situações semelhantes à que vivemos hoje, geraram na história convulsões de consequências profundamente nefastas para a humanidade.
É tempo de pensar o lugar aonde chegámos se queremos que o presente não comprometa a esperança no futuro. Hoje a História interpela, também, cada um de nós, pois todos temos obrigação de “saber” e a nossa consciência de homens não nos deixa cair na indiferença mas atira-nos para um desafio que rompe com todo o pessimismo: «Que posso eu fazer para transformar o mundo?»

Eduardo Bento

RETRATO-ROBOT DO EX-FREI IMELDO, AGORA DR. JOSÉ OLIVEIRA

– 2º Episódio
TARDE DE DOMINGO NO JARDIM BOTÂNICO

Às 16:00 horas, mais coisa menos coisa, o casal Oliveira toma o eléctrico 32, que passa mesmo à porta de sua casa. Apeiam-se vários passageiros para os ajudar a subir. - Oh avozinha, ajude um bocadinho! Upa! Já dentro do eléctrico, quando procurava um lugar para se sentar, a D. Patena desequilibra-se e cai no colo de um soldado, e grita: - Ai que horror! Um soldado!
– Por um euro queria um alferes, minha senhora.
– Respeitinho rapaz, - atalha o Dr. Oliveira – a senhora já viveu com um alferes, que por acaso agora até é tenente. Levante-se e bata continência. Este país tem de se habituar a respeitar os heróis, que como eu defenderam a pátria nas províncias ultramarinas, para evitar que a União Soviética lá pusesse a pata. Olhe que eu estive dez horas debaixo de fogo.
Aqui para nós, este Dr. Oliveira é um publicitário. Nunca saiu dos gabinetes do Quartel General, graças às cunhas do Sr. Cardeal Cerejeira. Ele refere-se a certo dia, em que esteve longas horas numa patuscada de churrasco, e onde a braseira se situava precisamente no terraço por cima das cabeças dos convivas.
Despejados na paragem próxima do Jardim Botânico, entram pelo portão da R. da Alegria.
- Boa tarde Sr. Doutor, o seu amigo Dr. Bagão Félix já aí está.
- Obrigado António, eu sei onde o encontrar.
- Vamos por aqui doçura, quero fazer uma carícia ao taxodium distichum.
- Está bem fofinho. Qual é? Ah! Já me lembro, o cipreste dos plátanos.
Uma das razões porque o Dr. Oliveira, prefere este passeio a todos os outros é que aqui tem oportunidade de praticar o seu latim. Torna-se um pouco penoso para a D. Patena, que de latim só conhece a palavra amen. Além disso tem dificuldade em compreender porque é que o esposo há-de chamar chamaeropsis humilis à palmeira anã, que sempre foi uma planta modesta, ou taxus baccata ao pobre do teixo. Porém segundo os princípios que professa com o seu esposo, os verdadeiros princípios católicos, a mulher tem de ser fiel e obediente ao marido. Deve segui-lo cegamente e estar sempre atenta a qualquer desejo do seu amo, assim como uma escrava.
Acariciado o taxodium que ficou muito sensibilizado, encaminhou-se para a chorisia crispiflora a quem tem muita dificuldade em abraçar, ficando-se pelas palavras doces. Em bom português a D. Patena, trata-a por paineira barriguda, com a qual não quer meças.
Roçaram pela araucária bidwilli e inevitavelmente pela ficus religiosa, até avistarem o Dr. Bagão Félix no local de encontro favorito, junto à araucária heterophylla na rotunda central. O Dr. Oliveira tem ainda em comum com o amigo, o amor pelo clube da “galinha” (já não há águias), a actividade conjunta de catequistas na paróquia de S. Domingos e a afinidade ideológica.
- Olá meu caro Bagão!
- Como vais tu Oliveira? E a minha cara amiga Patena? diz o Dr. Bagão, dobrando-se para lhe beijar a mão.
- Muito bem Dr. a não ser este calor abrasador que nos dá uma enorme vontade de comer um gelado. É a minha primeira ideia de hoje. Enquanto ficam a falar latim, eu vou comprar gelados. Também quer Dr.?
- Agradeço, mas eu estou a cumprir jejum, para que os socialistas não alterem o meu Código de Trabalho inspirado na doutrina social da Igreja..
- Ai que horror! Gritou a D. Patena.
- O que foi mulher – acudiu pressuroso o Dr. Oliveira.
- Uma lagartixa, que nojo! Não venho mais a este jardim. Quando este bicho crescer, é capaz de comer criancinhas.
- Descansa mulher. Quem nasce para lagartixa, nunca chega a jacaré.
Houve tempo em que andavam por aqui o Rex Dinossaurus ou o Tinanossaurus. O próprio Dinossauro Excelentíssimo passeou por estas alamedas. Afastados aqueles, mandaram aqui alguns exemplares de elevada estatura. O seu espaço está agora a ser disputado por pequenos rastejantes.
- Há bichos pequenos que são bem assustadores, como as osgas, que no Algarve surgem de todos os lados – atalha o Dr. Félix. - De qualquer modo, eu gosto daquela província, onde se comem óptimos frutos de ficus carisa, de terminalia catappa, e se bebe a bela aguardente de arbustus unedo.
- Lá para o norte, os frutos mais apreciados medram sobretudo no Inverno como os da castania sativa ou da pumus, das quais há agora grandes plantações nos vales dos montes Hermínios . Lembrar-me que aquelas terras estiveram pejadas de quercus, cuja madeira deu corpo às naus com as quais descobrimos o mundo e agora só lá vemos pinus e eucalyptus. O ulmus minor assim como o fraximus excelsior também têm desaparecido daquelas paragens.
É sempre assim. Aos domingos o Dr. Oliveira embrenha-se na natureza, esquece a cidade e diverte-se bué. O domingo é o dia do Senhor, um dia de diversão. Mas não a diversão dos que desperdiçam o tempo em Centros Comerciais ou Hipermercados. Os bons cristãos divertem-se no seio da natureza, porque assim estão mais perto de Deus.
Aqui, no coração da cidade, pensa o Dr. Oliveira, usufrui-se da natureza domesticada, ordenada, etiquetada. Nada aqui se compara à confusão e mesmo anarquismo da natureza dos meios rurais, onde a flora surge desordenadamente sem pedir licença, sem se saber quem são, donde vieram, e quais os seus efeitos. Aproveitando-se desse caos a fauna mais infesta e tenebrosa instala-se, afastando os humanos. Os seres mais venenosos e obscuros, muitos dos quais nem chegam a ser vistos pelo homem, proliferam ali desordenadamente. O próprio Deus, na ideia do Dr. Oliveira, teve necessidade um dia arrasar essa fauna e essa flora através do dilúvio, para pôr ordem na anarquia e recomeçar com seres catalogados, etiquetados e domesticados. Em Portugal, para obtenção dos mesmos objectivos, opta-se preferencialmente pelo fogo.
A ordem, o respeito, a autoridade, a sociedade unicolor, constituem as bases para uma vida em segurança e paz, na concepção do Dr. José Oliveira.
Ezequiel Vintém (ex- frei Pancrácio
)